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Clint, o não-reconciliado

Luís Miguel Oliveira viu "Gran Torino", o último de Eastwood - o que ele fez já depois de "A Troca", que está nas salas.
Clint Eastwood rosna imenso em "Gran Torino". Diz mal da família, enoja-o o "piercing" que a neta fez, sente-se longe da mesquinhice "middle class" que enforma o horizonte dos filhos; irrita-se com o padre, o "homem virgem" que lhe vem pregar lições de moral sobre o amor, a vida e a morte; e não percebe porque é que os coreanos (os "gooks" e os "chinks") que a pouco e pouco foram tomando conta do bairro onde vive "não se vão embora". É um homem de um mundo desaparecido, que encontra pouca coisa com que se relacionar no mundo actual. E acabou de perder, no momento, em que o filme começa, a única âncora que tinha, a mulher.
"Gran Torino" é a história da redenção deste homem viúvo, azedo e solitário, que se tornará na mais sacrificial personagem alguma vez encarnada por Clint Eastwood.
Um "racista", como se tem dito? Não tanto; um indivíduo preconceituoso, mas "democrático" na aplicação do preconceito - como dissemos, irritam-no tanto os vizinhos coreanos como o "piercing" da neta ou a converseta do padre católico. E não faz mal a uma mosca, quer apenas que não o chateiem. Mas vai ter que se chatear, pelas razões que menos esperava. As incidências narrativas levam-no a aproximar-se, após anos de belicosa convivência, da vizinhança coreana. A sentir-se mais próximo do miúdo e da miúda adolescentes que vivem na casa ao lado do que dos seus próprios filhos e netos. A sentir-se mais à vontade numa festa coreana (cheia de "boa comida chinoca") do que nas reuniões da sua própria família. Adopta e é adoptado. Acontece uma tragédia - a miúda é violada - que a polícia é incapaz de resolver. Como em tantos filmes de Clint, surge o momento em que é preciso desbloquear a impotência da lei. Nada tem a perder, passou o filme todo a cuspir sangue sem por isso deixar de se sentar no alpendre a fumar cigarros. E entrega-se - é a palavra, "entrega" - da maneira mais inesperada possível. O seu sacrifício faz funcionar a lei, finalmente tornada (como no mundo "antigo") sinónimo de "decência". Redenção, com certeza, mas não uma reconciliação: o Ford Gran Torino (haverá símbolo mais "all american" do que aquele carro?) é deixado em legado não aos netos mas... ao miúdo coreano. No fundo, "Gran Torino" é um filme sobre esta passagem de testemunho; tenso e nervoso (a mise en scène, a montagem, a própria presença de Clint), é também o filme ideologicamente mais esguio e mais convulsivo que Eastwood fez em muito tempo. Mas também é como se estivesse a dizer: "se não me perceberem agora, nunca vão perceber".
Um "testamento", de certa maneira, e é por isso que o filme tem o nome do carro.
PÚBLICO