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NÃO de Pablo Larraín

Sinopse

Chile, 1988. Devido a várias pressões internacionais, o general Augusto Pinochet (1915 - 2006), que chegou ao poder através do golpe militar que derrubou o governo eleito de Salvador Allende, é forçado a convocar um referendo sobre a sua presidência. Os cidadãos votarão o "sim" ou o "não" que determinará o seu direito de concorrer a um novo mandato. É então que, encontrando ali a última oportunidade de derrotar o ditador, os líderes da oposição persuadem René Saavedra (Gael García Bernal), um jovem publicitário, a liderar a sua campanha pelo "não". Assim, contra todas as expectativas, Saavedra e a sua equipa de homens corajosos conseguem ganhar e libertar o Chile de uma longa ditadura de 17 anos.

Realizado por Pablo Larraín e baseado num dos mais importantes acontecimentos da História do Chile, é, depois de "Tony Manero" e "Post Mortem", o filme que completa a trilogia sobre a ditadura militar naquele país.

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Ficha Técnica

Título original: No (França/EUA/Chile, 2012, 118 min.)
Realização: Pablo Larraín
Interpretação: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Antonia Zegers
Produção: Juan de Dios Larraín e Daniel Dreifuss
Argumento: Pedro Peirano
Fotografia: Sergio Armstrong
Montagem: Andrea Chignoli
Música: Carlos Cabezas
Estreia: 25 de Abril de 2013
Distribuição: Alambique
Classificação: M/12

Nota de PABLO LARRAÍN

Apesar de ter acabado por completar com Não, uma trilogia sobre a ditadura militar chilena (juntamente com Tony Manero e Post Mortem, também distribuídos em Portugal pela Alambique), Pablo Larraín garante que só pensou nisso quando este projecto lhe chegou às mãos.

“Acredite, nunca foi uma coisa planeada. Apenas aconteceu”, explicou em entrevista ao “New York Times”. Filho de um antigo senador conservador, defensor de Pinochet, Hernán Larraín, e de Magdalena Matte, ex-ministra de Habitação e Urbanismo do governo de direita de Sebastián Piñera, Pablo Larraín está longe de partilhar as opiniões dos progenitores em relação à ditadura do general Augusto Pinochet Ugarte (1973-1990), que chegou ao poder através de um golpe militar que derrubou o governo eleito de Salvador Allende e interrompeu uma tradição democrática que vinha de 1932.

“Espero que este filme mostre definitivamente ao mundo o bastardo que foi Augusto Pinochet, para que nunca mais haja confusões e as pessoas percebam realmente quem foi esse senhor,” disse o realizador ao jornal mexicano “La Jornada”. Este filme “não é um tratado histórico sobre a campanha do Não, apenas uma leitura que um grupo de pessoas faz 25 anos mais tarde a partir daquilo que se passou no Chile depois do referendo”, garantiu à rádio ADN: “É a história de como um grupo de gente comum se organiza para derrotar um ditador. Por isso, é difícil, não estamos habituados a ganhar, nem fazemos filmes onde as pessoas triunfam. Em geral, o cinema chileno e latino-americano tem uma visão pessimista,” acrescentou.

Críticas

Dizer não de vez
Jorge Mourinha, Público de 25 de Abril de 2013

Um grandíssimo filme político que fala do passado com os olhos postos hoje.

Let the Sunshine In, célebre canção do musical Hair, exortava o povo a “deixar entrar o sol” e é isso que o chileno Pablo Larraín faz ao seu cinema com Não. Depois de dois notabilíssimos filmes de quase-terror, claustrofóbicos e sufocantes, sobre o Chile da era Pinochet (Tony Manero, 2008, e Post Mortem, 2010), Não conta a história do momento em que o referendo de 1988 terminou de vez com a ditadura do general e abriu caminho à democracia, em que as nuvens (para continuar com a metáfora meteorológica) se começaram a dissipar.

Na prática, não há muita diferença no dispositivo - tal como em Tony Manero e Post Mortem, tudo se foca numa “pequena história” que funciona como micro-cosmos da “grande História”, e no modo como a política pública se reflecte num espaço privado. Só que, aqui, é uma história verídica: a de René Saavedra, publicitário que ajudou a vender o sonho de uma classe média sofisticada nos últimos anos do regime, que aceita ser consultor na campanha do “não” a Pinochet e, ao fazê-lo, acaba por assumir uma consciência política até aí adormecida. E a exploração interligada do público e do pessoal vai bem mais longe, apontando o momento da história do Chile em que a política transbordou da área exclusivamente cívica e moral para se tornar em disciplina de marketing, mensagem articulada de acordo com um contexto social e feita à medida de um país que está finalmente preparado para a receber. René Saavedra vende o “não” como quem vende refrigerantes ou telenovelas, mas o cinismo mercantil que tal postura daria a entender acaba por pôr o publicitário a provar do seu próprio “veneno” e a começar a compreender que a sua mensagem de alegria e esperança é mais do que apenas um slogan orelhudo.

Adaptado da peça teatral sobre o referendo de Antonio Skármeta (autor da obra que deu origem ao monumental sucesso que foi O Carteiro de Pablo Neruda), Não define-se como o encerrar de uma trilogia que Larraín dedicou à memória do Chile, olhando para o papel dos operários na sombra do regime, mas substituindo a banalidade sinistra do grande Alfredo Castro pela desenvoltura cosmopolita de Gael García Bernal. E convirá não esquecer a ideia engenhosa de rodar com câmaras de video U-matic da altura, formato hoje obsoleto que dá a patine de época e, nas mãos do director de fotografia Sergio Armstrong, opera um trabalho simultâneo de saturação e arrasto que parece ideal para esta história dos últimos dias de um regime cinzento e dos primeiros dias de um futuro aberto. Ou como a democracia foi possibilitada pela linguagem dos detergentes. Todos sabemos no que isso foi dar, mas as ilações são posteriores aos factos.

Memórias do Chile que disse "não"
João Lopes, Cinemax

Autor de "Tony Manero" e "Post Mortem", Pablo Larraín volta a abordar o seu país em tempos de ditadura militar: "Não" evoca as campanhas para o plebiscito que iria por fim ao reinado político de Augusto Pinochet.

Que faz um criativo da área da publicidade quando o convidam a trabalhar numa campanha eleitoral que pode decidir o futuro do seu país, entre a ditadura militar e a democracia?

No filme "Não", de Pablo Larraín, é esse o drama da personagem de René Saavedra. Redescobrimos, assim, o Chile de 1988, quando, devido a muitas pressões internas e internacionais, Augusto Pinochet se viu compelido a convocar um plebiscito que iria decidir entre o "sim" (com a sua continuação no poder por mais oito anos) e o "não" (obrigando à convocação de eleições livres).

Interpretado pelo magnífico Gael García Bernal, Saavedra é mais uma das personagens de Larraín que, em tempos de ditadura, se descobrem no coração de acontecimentos convulsivos, mesmo quando, por medo, pudor ou indiferença, tentam conservar alguma distância e anonimato. Assim acontecia também com o bizarro fã de John Travolta em "Tony Manero" (2008), ou com o empregado da morgue de Santiago do Chile em "Post Mortem" (2010), curiosamente ambos interpretados por Alfredo Castro.

Aliás, Castro volta a surgir em "Não", assumindo a personagem de Lucho Guzmán, chefe de Saavedra. O facto de Guzmán trabalhar para o "sim" vai, inevitavelmente, gerar um conflito mais ou menos explícito com Saavedra. A subtil abordagem de Larraín enraiza-se em tais diferenças: por um lado, é-nos apresentada uma tensão com raízes eminentemente profissionais; por outro lado, através dela, vamos acedendo à complexidade de uma situação que não pode ser reduzida a qualquer maniqueísmo moralista.

Acima de tudo, num contexto tão peculiar e tão dramático, Larrín consegue problematizar as questões relacionadas com a acção da publicidade e a sua articulação com os discursos políticos. Dito de outro modo: ele é um realista que nunca desiste de explorar a complexidade de cada personagem. Entenda-se: de cada ser humano.

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