ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS

 
 

 

Sinopse

Baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy, o premiado autor americano, "Este País Não é Para Velhos" é um hipnótico "thriller" dos irmãos Coen, os realizadores de "Fargo" e "Barton Fink". Nos dias de hoje, os ladrões de gado deram lugar a traficantes de droga e as cidades pequenas tornaram-se campos de batalha. Llewelyn Moss (Josh Brolin) descobre uma carrinha, rodeada por cadáveres, com um carregamento de heroína e dois milhões de dólares em dinheiro. Moss resolve ficar com o dinheiro e o seu acto desencadeia uma série de acontecimentos extremamente violentos, que nem mesmo a lei, na figura do velho e desiludido Xerife Bell (Tommy Lee Jones), consegue travar.
À medida que Moss procura fugir aos seus perseguidores, sobretudo a um misterioso homem (Javier Bardem) que atira uma moeda ao ar para decidir se poupa ou não a vida aos seus inimigos, o filme retrata de forma dramática temas tão antigos como a Bíblia e as manchetes sanguinárias dos jornais. "Este País Não é Para Velhos" foi nomeado para oito Óscares, vencendo quatro: melhor filme, melhor realizador, melhor actor secundário e melhor argumento adaptado.

 

 

 

 

Ficha Técnica

Título original: No Country for Old Men (EUA, 2007, 123 min.)
Realização, Argumento e Montagem: Ethan e Joel Coen
Interpretação: Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin, Woody Harrelson
Produção: Ethan Coenm, Joel Coen, Scott Rudin
Musica: Carter Burwell   
Fotografia: Roger Deakins   
Distribuição: Lusomundo Audiovisuais
Estreia: 28 de Fevereiro de 2008
Classificação: M/18
Página Oficial: http://www.nocountryforoldmen-themovie.com/

 

 

 

Críticas

Por: Vasco Câmara e Helen Barlow (PÚBLICO)

O bom, o mau e o ladrão  

Uma mala com dois milhões de dólares no meio do deserto e, no fim de um rasto de sangue, notas pegajosas, rodeadas de cadáveres e moscas, traz o cheiro da sorte, pensa um ex-voluntário do Vietname. Mas Llewelyn Moss, é o nome desse homem banal que se deixa tentar pelas circunstâncias excepcionais, sabe mais do que isso, e nós sabemo-lo também porque, afinal, este é um filme de Joel e Ethan Coen e adapta um romance de Cormac McCarthy: todos sabem, então, que não é a sorte que está à frente; é a morte, a correr, que vem lá atrás.

Num daqueles diálogos que parecem esculpidos na pedra por McCarthy no romance "Este País Não É Para Velhos", e que Joel e Ethan Coen decidiram que não deviam estragar, Llewelyn, o ocasional ladrão, prepara-se para a (inglória) corrida contra o destino e avisa a mulher:
- Se não voltar, diz à minha mãe que gosto imenso dela.
- Mas a tua mãe já morreu, Llewelyn. v - Bom, então eu mesmo lhe digo.
Como nos melhores filmes dos Coen - e este é um dos melhores filmes dos Coen - há uma porta que se abre para o lado de lá, a realidade muda de natureza, a luz apaga-se e no escuro vêem-se coisas que antes não se viam. Só ficam os protagonistas e os pesadelos, como nos sonhos maus que são sempre despovoados. (E do "western" ou do "thriller" ou do "filme de perseguição" ficam só fantasmas de géneros que já não existem).

Os protagonitas são, aqui, um cowboy em apuros, a morte que vem lá atrás sob a forma de "serial killer" com cabelo à pagem e um xerife que tenta impedir o inevitável. Tudo se passa na fronteira entre o Texas e o México, dos dois lados do Rio Grande, na década em que explodiu o tráfico de droga, anos 1980.

O coro, americano e europeu, que aclama "Este País Não É Para Velhos", que esta semana foi coroado nos Óscares (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento, Melhor Actor Secundário), vê nele um regresso à forma inicial dos Coen, à matriz negra do seu cinema. Houve quem o descrevesse assim: "[É como] uma dança de esqueletos, um grito final no estertor da humanidade." É exacto e é o que se podia dizer dos primórios dos Coen, em títulos como "Blood Simple" (rodado no Texas, onde "Este País Não É Para Velhos" também foi filmado) ou "História de Gangsters" (o filme dos Coen que McCarthy prefere). Estes filmes não eram adaptações literárias, mas integravam referências literárias: a "pulp fiction" de James M. Cain, as "crime novels" de Dashiel Hammet. Isto para dizer que o romancista McCarthy tem alguma coisa a ver com este "tour de force" cinematográfico: como se os realizadores, mais do que adaptá-lo, o tivessem reconhecido, encontrando nele a voz do mesmo sangue e o tivessem bebido para fortalecer o seu cinema que há anos se debilita com tiques - não haverá nada de memorável na obra deles desde "Fargo" (1996).

Como é que o livro de McCarthy fez bem aos Coen?
Impediu que o laconismo, traço comum à obra dele e aos filmes deles, fosse redutor, criasse "bonecos"; favoreceu a disseminação de melancolia, sentimento terminal. O facto de, pela primeira vez, Joel e Ethan terem adaptado um romance, terem trabalhado a partir de personagens com as impressões digitais decididas por outrém, fez ainda com que eles, que escrevem os argumentos a pensar na sua família de actores (gente como John Turturro, Steve Buscemi, George Clooney...), tivessem que escolher um "cast" com quem nunca tinham trabalhado. Foi como recomeçar. "Quando escrevemos um argumento nosso, uma parte do processo de desenvolvimento das personagens é pensar quem vai interpretá-lo. No caso de "Este País Não É Para Velhos", as personagens eram um "ready-made", por isso o processo habitual de integrar nos filmes os nossos amigos teve de ser ultrapassado. Mas foi isso o mais estimulante". Desafio especial, segundo eles: encontrar três homens que correspondessem a modelos de masculinidade e que fossem, simultaneamente, três actores que aguentassem o seu pedaço de protagonismo - já que praticamente as personagens não se encontram e devem ser pequenos reis no seu castelo, isto é, no pedaço de filme que lhes pertence.

 

Tommy Lee, Josh e Javier

Tommy Lee Jones (o xerife), o primeiro a integrar o "cast", e Josh Brolin, o intérprete da personagem que os Coen mais dificuldade tiveram em materializar (o ex-veterano do Vietname que encontra a mala com dinheiro), foram escolhidos por trazerem o Texas no corpo. Javier Bardem (Anton Chigurh, um "serial-killer", se quisermos ficar pelos factos; a incarnação do Mal, se quisermos subir o degrau da alegoria) foi escolhido pela razão oposta. De onde vem o nome Anton Chigurh (pronuncia-se como Sugar)?, perguntaram Joel e Ethan a McCarthy. "De parte nenhuma", ter-lhes-á respondido o escritor, e isso abriu as portas à liberdade dos realizadores para escolherem um actor que há muito admiravam, mas que nunca cabia nas suas histórias americanas porque não era americano.

"Chigurh tem uma qualidade "zen"", diz-nos Ethan. "Apesar da sua origem ser difícil de localizar, é a personagem que mais está sintonizada com a paisagem e com o meio ambiente do filme" - o Texas que tão mal trata os seus habitantes, como diz uma personagem, um espaço tão grande, tão árido que ali pode acontecer tudo. "Isso é ao contrário das personagens de Tommy Lee e de Josh, que se debatem com esse espaço, mesmo a ele pertencendo." Javier Bardem, apesar do desconforto físico da rodagem [ver caixa nestas páginas], "estava pacificado em relação à personagem", chegando a caracterizá-la "como um padre". É através deste "serial killer" solene, que solta o vendaval do acaso atirando moeda ao ar para decidir se mata ou não e que opera com uma garrafa de ar comprimido que fura o cérebro das vítimas, que Joel e Ethan deram vazão ao seu gosto pelo sangue - por sabotar, magoar e aniquilar a masculinidade convocada. "Até Javier chegava ao pé de nós, no início de um dia de rodagem, esfregando as mãos e a perguntar: "Ok, quem é que mato hoje?"", conta Joel, 53 anos, o mais alto, o mais moreno, o mais descontraído. Acrescenta Ethan, 50 anos, o mais baixo, o mais "stressado", o de densos caracóis: "Essa parte é muito divertida, como coreografar as cenas de violência, como filmá-las, como fazer as pessoas ficarem presas a elas..." - e imaginamos estes filhos de um casal de professores universitários a desenharem minuciosamente os seus "storyboards", como o seu mestre Hitchcock.

Já o xerife é o olhar melancólico de "Este País Não É Para Velhos". E Tommy Lee, 61 anos, foi uma escolha natural porque o Texas é a sua região e é a região de muitas das personagens que interpretou. Muito poucos actores podiam fazer o que ele faz, resumem os Coen e está tudo dito. Os olhos de Tommy Lee dizem-nos - é a sua arte, ser um reflector e distribuidor da narrativa dos filmes - o que existe de terminal naquela paisagem. O "western" acabou, essa paisagem é que ainda regressa, a espaços, ao cinema americano porque há momentos em que os cineastas precisam de olhar para aquilo que sobrou de uma mitologia para falarem da América de hoje.

Vemos Tommy Lee Jones em "Este País Não É Para Velhos", vemo-lo em "No Vale de Elah", de Paul Haggis, recordamo-nos de "Os Três Enterros de um Homem", filme que ele realizou, e vemos: esse rosto está sempre a reflectir um fim.

Os olhos do xerife

A dificuldade na adaptação do romance de McCarthy, contam os Coen, foi encontrar o equivalente cinematográfico para as páginas de cepticismo do xerife Bell que pontuam o livro: os seus monólogos, as suas digressões. Parte desses monólogos transformaram-se no filme em "voz-off", parte em diálogos do xerife com outras personagens - como a mulher. O mais decisivo foi os Coen terem desposado o niilismo e olharem com os olhos do xerife, que assim "aparece" no filme mesmo antes de aparecer, que assim está no filme mesmo quando não está. "O título do livro e do filme refere-se àquela ideia generalizada segundo a qual, à medida que as pessoas envelhecem, o mundo à volta se torna infernal", nota Joel. "Mas será que isso é apenas um questão de idade? No início ouvimos o xerife Bell falar dos xerifes do passado, de como eles não tinham necessidade de andar armados; este xerife sente-se derrotado pela deterioração de uma cultura, pelo domínio de uma certa violência "macho". Mas mais para o final há aquela conversa entre ele e uma outra personagem, aquele outro velho que já não sai de casa, onde se diz que na verdade as coisas sempre foram assim. Foi isso que nos interessou, acima de todas as outras coisas, no romance."

Entre o "serial killer" que o persegue e o xerife que o protege está, então, Llewelyn Moss. "Vimos uma série de actores, nenhum parecia adequado para interpretar a personagem... Misteriosamente, parece que todos os actores americanos se tornaram almas sensíveis", brinca Joel. "Finalmente encontramos Josh Brolin."
"É estranho estar aqui a falar da minha masculinidade" - e Brolin põe um risco na boca no lugar de sorriso -, "coisa mais "gay" não há nesse tipo de conversa, mas é verdade que, depois de ver e aparecer em muitos filmes em que os homens se fartam de falar dos seus sentimentos, foi interessante regressar a algo de mais primitivo. O que é fantástico numa personagem como Llewelyn é que ele não tem muito diálogo, mas há toda uma linguagem vernacular de movimento corporal. E os Coen tratam isso de forma muito subtil".

Para Brolin, 39 anos, Joel e Ethan escolheram-no pela história da sua vida. "Cresci rodeado de cavalos num rancho da Califórnia, onde as pessoas são puras, leais. Quando gente de Los Angeles me tentava encontrar, por exemplo, essas pessoas protegiam-me, dando indicações erradas aos "estrangeiros". O que é incrível em relação a essas pessoas é que a sua mentalidade bucólica aparece como simplória, quando é apenas simples e directa."

Brolin pode hoje, graças ao momento que atravessa (vimo-lo em "No Vale de Elah" e em "Planeta Terror", de Robert Rodriguez; Gus Van Sant escolheu-o para "Milk" e Oliver Stone para protagonizar "Bush", sobre George W.), comprar de volta o rancho que teve de vender quando a carreira parecia não querer descolar. Quanto à sua masculinidade, os Coen colocam-na em apuros em "Este País Não É Para Velhos" e continuam a fazê-lo em "World Cinema", curta que fizeram para o filme-mosaico "Chacun son Cinema". Nela, Brolin é um texano que vai ao cinema descobrir a sua cinefilia e hesita entre "A Regra do Jogo", de Renoir, e "Climas", do turco Nury Bilge Ceylan, filmes impossíveis para um cowboy. Mas este cowboy escapa ao figurino, até tenta a sua sorte com o vendedor de bilheteira. Se calhar são os cowboys, como os conhecemos, que nunca existiram, foi o cinema americano que os inventou. Ou então, como se vê em "Este País Não É Para Velhos", este país não é para cowboys.

Javier Bardem: Uma questão de cabelo

Javier Bardem tem sentido de humor, mas quando Joel e Ethan Coen apontaram para a fotografia - "o cabelo, queremos este cabelo!" - o espanhol começou a ter uma ideia do que estava para vir, como se começasse a ouvir o sopro de um vento indomável. Cormac McCarthy nunca descreve no livro "Este País Não é Para Velhos" a personagem Anton Chigurh que Bardem interpreta - além de dar a entender que Chigurh, o psicopata, o "serial killer" (é humano ou é a violência em estado puro?) é um assassino sem humor. Tudo podia ser uma ajuda para o actor. Que decidiu começar por engordar. "Queria sentir-me como um tronco de árvore, um daqueles troncos a que se dá um pontapé mas ele não se move. Queria que a personagem fosse fisicamente desastrada; ele está desconfortável naquele corpo" - e dissociado de qualquer coisa a que se possa chamar alma. "Na verdade, nem é um ser humano. É como um símbolo da própria violência", diz Bardem ao Ípsilon.

Mas isso não chegava, e o actor Tommy Lee Jones deu uma ajuda: emprestou à equipa um livro de fotografias sobre bordéis do sul dos EUA nos anos 1970. Numa delas havia uma foto de um cliente, no Texas de 1979, que os intrigou pela bizarria da figura, mas Bardem olhou para a roupa, à procura de ideias. Os Coen é que olharam para outro lado, e foi aí que disseram: "O cabelo, queremos este cabelo!" Foi aí que Bardem começou a ouvir aquele vento indomável ao longe e exclamou: "Oh fuck!" Teve que cortar o cabelo à Príncipe Valente - não é peruca. Andou com essa tresloucada "tijela" durante três meses. No intervalo das cenas, para nada se desmanchar, uma rede cobria-lhe a cabeça.

Maquilhagem cobria-lhe a pele para protecção do sol do Texas, onde só é humanamente possível filmar às primeiras horas da manhã e às últimas da tarde. Muitas vezes, um membro da equipa andava atrás dele com a sombrinha - cor-de-rosa. Era preciso mais do que sentido de humor. "Eu tentava molhar o cabelo e penteá-lo para trás, para disfarçar quando não estava a interpretar a personagem, mas era impossível, impossível, impossível", protesta Bardem, atirando os braços ao ar. Mas o cabelo tornou-se a chave para a personagem. "Percebe-se que é a única coisa que o interessa: como pentear o cabelo. É uma coisa matemática." (E com aquele cabelo, o resultado é qualquer coisa que está entre Príncipe Valente e o vilão Jaws de um filme de 007, o gigante e hirto assassino de "Moonraker").

A violência não é algo a que Bardem, 38 anos, goste de estar associado, na verdade. Na sua carreira, talvez seja necessário recuar até 1979, até "Perdita Durango", para encontrar um filme a que possamos chamar violento. Na sua vida pessoal houve um momento de viragem, uma cena de pancadaria numa discoteca em que se viu envolvido quando tinha 20 anos e que lhe deixou o que é hoje uma marca "sex symbol": o nariz. De tal forma, que se o filho de uma família de actores valoriza a sua experiência de 15 anos como jogador de "rugby" é porque "sendo um desporto violento, é um desporto praticado por "gentlemen", há regras muito restritas. Desde aquele acontecimento na discoteca, nunca mais consegui ver cenas de violência nos filmes sem ficar profundamente incomodado". "Queria mesmo trabalhar com os Coen e quando li o livro de Cormac McCarthy vislumbrei qualquer coisa na filosofia da personagem de Tommy Lee Jones [o xerife] que tenta perceber o que se passa" - como quem vê chegar o vento da violência - "e percebe, finalmente, que se calhar não há nada para perceber. E eu percebi que [os Coen] seriam capazes de ir para além do filme violento e dizer alguma coisa com isso. Que quando as coisas começam, tornam-se mesmo imparáveis, irracionais". Como ele diria: "Oh fuck..."