Siga-nos no Facebook / Twitter!
PROGRAMAÇÃO: Dezembro 2016
Sala de exibições
Pequeno auditório
Casa das Artes de V. N. de Famalicão
Parque de Sinçães - V. N. de Famalicão
CINZENTO E NEGRO, de Luís Filipe Rocha
Sinopse
Maria é traída por David, o marido, que rouba todo seu dinheiro e foge para ilha do Pico, nos Açores. Destroçada e com um enorme sentimento de humilhação, ela só anseia por vingança. É então que resolve contactar Lucas, um inspector de polícia, para encontrar pistas sobre o paradeiro do ex-companheiro. Porém, numa visita à ilha do Faial, Lucas apaixona-se por Marina, empregada no Peter Café Sport, situado no centro histórico da cidade da Horta. Este amor vai alterar o curso dos acontecimentos..
Produzido pela Fado Filmes, um filme dramático sobre amor, traição e vingança que conta com Luis Filipe Rocha ("A Outra Margem", "Adeus, Pai") na realização e no argumento. Em competição na edição de 2015 no Festival Caminhos do Cinema Português, saiu vencedor em duas categorias: Melhor Actor (Filipe Duarte) e Melhor Banda Sonora Original (Mário Laginha).
Ficha Técnica
Título original: Cinzento e Negro (Portugal / Brasil, 2015, 126 min.)
Realização: Luís Filipe Rocha
Interpretação: Joana Bárcia, Filipe Duarte, Miguel Borges
Produção: João Fonseca, Luís Galvão Teles, Renata de Almeida Magalhães
Música: Mário Laginha
Fotografia: André Szankowski
Montagem: Antonio Pérez Reina
Estreia: 19 de Maio de 2016
Distribuição: Fado Filmes
Classificação: M/12
À Sombra do Vulcão
Inês Lourenço, DN de 19 de Maio de 2016
Com Cinzento e Negro, Luís Filipe Rocha voltou aos Açores, depois de Adeus, Pai (1996). A vontade ficou dessa primeira experiência de rodagem, e foi no mistério natural da condição insular, muito em particular do Pico (tal como o Faial, a situar a parte principal da história), que delineou o trajeto de quatro personagens. A atractiva paisagem, a "cinzento e negro", como a descreveu Raúl Brandão em As Ilhas Desconhecidas, é a grande dádiva do filme, que se presta à fatalidade. O prenúncio de tragédia tem origem num saco de dinheiro, com o qual o protagonista (Miguel Borges) foge para o Pico, e onde pela primeira vez se dedica à leitura de um livro - A Odisseia - na companhia de meia dúzia de vacas. No Faial, arranja uma amante (Mónica Calle), e atrás dele - ou da mala - andam uma mulher (Joana Bárcia) e um polícia (Filipe Duarte). Esta convergência narrativa, que convoca também um brilhante ensemble de atores com fortes raízes teatrais, assegura a Cinzento e Negro os elementos fundamentais para a recriação de uma espécie de epopeia sem heróis. A música de Mário Laginha dá o toque final.
A vingança de uma mulher
Jorge Mourinha, Publico de 19 de Maio de 2016
Luís Filipe Rocha assina uma inteligentíssima variação sobre as mecânicas do policial, com
uma Joana Bárcia de estarrecer no papel principal.
Talvez não haja, no actual panorama do cinema feito em Portugal, realizador mais injustamente ignorado do que Luís Filipe Rocha. Embora a “batalha” por um “cinema do meio” que não caia na opacidade autoral nem na boçalidade popularucha não seja um exclusivo seu, o autor de Cerromaior (1981) e Adeus, Pai (1996) nunca gozou da mesma popularidade de companheiros de geração como António-Pedro Vasconcelos ou o malogrado José Fonseca e Costa. É mais uma daquelas injustiças em que Portugal é pródigo, e não nos parece que a sua correcção esteja nas cartas com Cinzento e Negro, apenas a décima longa-metragem do autor em 40 anos de carreira; amarga, telúrica, negra, esta variação austera sobre as mecânicas do policial negro não está minimamente interessada em ceder um milímetro que seja às exigências do momento. Confirma, de caminho, o amor de Rocha pelos actores: tal como Leonor Seixas e João Ricardo nunca estiveram tão bem como em A Passagem da Noite (2003), ou como Maria João Luís encontrou um papel à altura do seu talento no menos conseguido Camarate (2001), também aqui Joana Bárcia arranca uma interpretação de estarrecer como Maria das Dores, simultaneamente heroína e vilã do filme, mulher orgulhosa e amarga, humilhada pela vida, cuja sede de vingança põe a trama em movimento.
Regressando aos Açores que já eram cenário de Adeus, Pai, Cinzento e Negro acompanha uma aparente investigação policial, com Maria das Dores e um polícia (Filipe Duarte) a viajarem para o Faial em busca de um homem. Numa construção narrativa extremamente inteligente, o motivo dessa busca, e as razões dos envolvidos, só serão revelados gradualmente, mas é provável que sejam meros macguffins; todas as personagens parecem estar numa “fuga para a frente” que é também uma procura quase desesperada de um sentido para a sua existência, de algo que lhes permita encontrar a paz. Cinzento e Negro não pretende sequer defender que essa paz seja possível; limita-se a acompanhar as personagens numa jornada pessoal e intransmissível, que subverte com tonalidades negras as paisagens de “cartão postal” dos Açores para melhor sublinhar a insularidade e a distância.
Cinzento e Negro não está isento de fragilidades. A banda-sonora de Mário Laginha, surpreendentemente, não funciona no contexto da história, já vimos Filipe Duarte muito menos rígido, os diálogos secos são por vezes demasiado programáticos e o filme transpira um certo odor de “fora de tempo” – mas, no cômputo geral, são pormenores de somenos. Ao contrário de muito filme que por cá se faz, Cinzento e Negro tem gente lá dentro, pessoas de carne e osso, e faz passar o tumulto que lhes vai por dentro. Que este homem só rode de cinco em cinco anos quando gente muito menos talentosa produza regularmente é, literalmente, escandaloso.




