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Retrato filmado de Robert Mitchum por Bruce Weber, o conhecido fotógrafo americano que filmou o actor em finais dos anos 1990, em encontros com amigos, saídas nocturnas, a cantar e a gravar canções para um disco que não chegou a acontecer. O material, filmado em 16 e 35mm, película preto e branco, foi guardado aquando da morte do actor, em 1997, e retomado para este tributo que conta com participações de Johnny Depp, John Mitchum, Frances Fisher, Benicio del Toro ou Al Ruddy. Nice Girls Don’t Stay for Breakfast evoca o actor nas suas surpreendentes facetas.
Orson Welles e Robert Mitchum: quando a noite caiu sobre os últimos dos moicanos, Vasco Câmara em Veneza, Publico de 3 de Setembro de 2018Duas personagens crepusculares, e com elas o crepúsculo de um certo cinema americano, compareceram no 75.o Festival de Veneza. Uma delas, o mítico Orson Welles, ressuscitou agora graças ao dinheiro Netflix: experiência melancólica e especulativa, o resgate de The Other Side of the Wind.
O king of cool
Há ovos de improviso também na carreira de Robert Mitchum, na cena de violação de O Cabo do Medo (J. Lee Thompson, 1962): esborrachou-os e besuntou com eles Polly Bergen, esbofeteou-a, horrorizou-a, e, depois do “corta”, saiu do seu transe, abraçou-a, afagou-a, desculpou-se – e Polly apaixonou-se.
Nos anos 90, o fotografo Bruce Weber, à custa de flores e de bolos (e às vezes de livros), convenceu Mitchum a deixar-se retratar num documentário, filmando-o em bares e restaurantes de hotéis, rodeado de amigos e de jovens actrizes à procura de uma sorte. Entrou num estúdio de gravação, onde Mitchum, Marianne Faithfull e Rickie Lee Jones trabalhavam num projecto com canções de Julie London, álbum que nunca chegou a ser concluído. Nice girls don’t stay for breakfast era uma dessas canções, e ficou como título do resultado desses encontros com o actor. O material fora arrumado por Weber a um canto com a morte de Mitchum em 1997; só recentemente voltou a ele e estruturou o filme, exibido no festival na secção Veneza Classici. Porquê Mitchum, o tipo que se estava a marimbar, que tinha o objectivo de ser um vadio mas nunca uma estrela de cinema? Porque o corpo do actor, e a masculinidade tão segura de si que parecia permitir-se estar adormecida, razão, também, da sua ameaça (e no entanto, ou por causa disso, o genérico é com Micthum em drag, cenas de um Girl Rush de 1944), são hoje assumidos pelo fotógrafo como a imagem original dos corpos masculinos que fotografa e que o celebrizaram. Mitchum ficou associado à infância e à intimidade de Weber de forma profunda, aliás: estando os pais à beira do divórcio, as escapadelas da mãe para se encontrar com o amante em restaurantes e bares, levando com ela o filho como disfarce, punham a criança em contacto com a fauna masculina desses espaços, homens com vozes de whisky que aos olhos do miúdo eram versões de Robert Mitchum.
À sua fantasia, Robert Mitchum, Bruce Weber faculta o cenário, o álcool, o tabaco, os bares de hotéis e as raparigas, apaparicando-o com coisas de que o actor gostava, tal como fez com Chet Baker no documentário Let’s Get Lost, de 1988. Nice Girls Don’t Stay for Breakfast permanece sempre perante essa armadura, nunca há a tentativa de a desvendar – encontraria uma impossibilidade pela frente, de qualquer forma. Há aquele pedaço em que uma neta conta um episódio do passado em que o avô saiu para o jardim e para a piscina com uma caçadeira, porque o mundo seria melhor sem ele. Há aquele momento em que Mitchum, a contragosto, se explica: quando lhe perguntam “como estás?”, responde “pior”, porque não quer que lhe aconteça como a Lex Barker, que disse que estava bem e foi fulminado por um ataque cardíaco (Mitchum não queria ser surpreendido.) De Shirley MacLaine, um dos seus amores, fica a definição de um homem complexo e tímido ao ponto do desprendimento emocional. Como naquele plano final em que a câmara parece despedir-se dele na noite, ele fica a olhar com embaraço, como que perguntando o que estão ali a fazer os dois, e depois esboça uma “saída”, tipo “sou o último dos moicanos, não é?”, não convicto dessa sua existência, porque de qualquer forma não tinha convicções sobre o que estava a fazer “aqui”, e assim tomba a escuridão sobre o king of cool.