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PROGRAMAÇÃO: SETEMBRO de 2012
Sala de exibições
Pequeno auditório
Casa das Artes de V. N. de Famalicão
Parque de Sinçães - V. N. de Famalicão
MICHAEL de Markus Schleinzer
Sinopse
Michael (Michael Fuith) tem 35 anos, um emprego estável como gestor numa agência de
seguros e uma vida aparentemente igual a tantas outras. Porém, na intimidade da sua casa ele
guarda o mais terrível dos segredos: um "bunker" à prova de som onde mantém prisioneiro
Wolfgang (David Rauchenberger), um menino de 10 anos. Para Michael, que quer forçar uma
naturalidade onde ela não pode existir, estes momentos são uma escolha; para Wolfgang, pelo
contrário, aquela é uma existência de pesadelo.
Primeira obra do austríaco Markus Schleinzer (director de casting reconhecido pelo seu trabalho com Ulrich Seidl, Jessica Hausner e, mais recentemente, Michael Haneke), um filme que, tendo como ponto de partida um crime hediondo, tenta ficcionar a dinâmica existente entre um molestador e a sua vítima.
Ficha Técnica
Título original: Michael (Áustria, 2011, 96 min.)
Realização e Argumento: Markus Schleinzer
Interpretação: Michael Fuith, David Rauchenberger, Christine Kain
Produção: Nikolaus Geyrhalter, Markus Glaser, Michael Kitzberger, Wolfgang Widerhofer
Musica: Lorenz Dangel
Fotografia: Gerald Kerkletz
Montagem: Wolfgang Widerhofer
Estreia: 24 de Maio de 2012
Distribuição: Alambique Filmes
Classificação: M/18 anos
Críticas
Alegoria da cave
Luís Miguel Oliveira, Público de 24 de Maio de 2012
Não são só os Fritzls ou as infelizes Nataschas Kampusch que é preciso evocar quando se quer encontrar um cordão que ligue à “vida real” o cinema da frieza e da crueldade que os austríacos, Michael Haneke à cabeça e depois os seus discípulos, como Ulrich Seidl ou este Markus Schleinzer, têm praticado e imposto como imagem de marca da sua cinematografia nacional. É que a Áustria foi o país que viu Adolf Hitler ser dado à luz, e imaginamos, não nos parece que mal, que contá-lo como um conterrâneo, “um de nós”, implique uma relação diferente, e mais desconfiada do que a norma, com a humanidade, tomada nos seus sentidos mais lato e mais próximo - por exemplo a humanidade do vizinho do lado, ou a do colega de trabalho. As histórias de Fritzl e de Kampusch vieram apenas recentrar essa desconfiança, encontrar-lhe um lugar preciso: a cave. E muito literalmente, porque ninguém precisa de metáforas quando se tem caves como as dos austríacos. De resto, nada disto é novidade: outro indivíduo nascido em Viena, Fritz Lang de seu nome, passou a vida a filmar caves e subterrâneos.
A cave é o ponto de partida e o ponto de chegada de Michael, estreia na realização de Markus Schleinzer, formado como director de casting para os filmes de Haneke (outro Michael, portanto, se não for excessiva maldade registar a coincidência, mesmo que a memória do Jackson, Michael por Michael, faça aparentemente maior e mais subliminar sentido).
Num exercício de curiosidade antropológica, tão mórbida como a curiosidade costuma ser, Schleinzer imaginou que o vizinho do lado, ou o colega de trabalho, tinha um segredo inconfessável na sua cave: um miúdo, mantido cativo numa relação pedófila, garantida à força e pela reclusão. E depois inventou uma história para esse segredo, não a história das suas razões, mas a história prática da sua manutenção no dia-a-dia, perante os olhares ameaçadores dos estranhos, e a história prática da mecânica daquela relação. Não é “na mente de um pedófilo” porque não se entra na psicologia, dela fica apenas o que se desprende pelos gestos e pelo físico (o rosto de Michael, sempre angustiado ma non troppo, assim como um tipo que não se lembrasse se fechou a torneira do gás antes de sair de casa), e porque na verdade o pedófilo interessa a Schleinzer como interessaria um insecto se ele fosse um entomologista (o rosto de Michael, mais uma vez: não é um insecto o que ele faz lembrar?).
Em abono de Michael como um exercício numa disciplina da zoologia, diga-se, há uma cena em que o protagonista e o miúdo vão ao jardim zoológico (e cruzam-se com outro adulto com um miúdo pela mão: provavelmente pai e filho, mas ah!, está definitivamente instalada a desconfiança), coisa que no fundo espelha a própria relação entre eles, como se a cave de Michael fosse o seu zoo privado. Num sadismo de algum requinte - se fosse mesmo um insecto tratar-se-ia de lhe ir cortando uma patita aqui, outra ali, e ver o que acontecia -, Schleinzer alimenta o filme criando dificuldades ao seu protagonista: a colega que chega inopinadamente, os amigos que o empurram para uma mulher de uma noite, a voz fora de campo do pai de outro miúdo que ele tentava juntar à colecção, e last but not the least as fúrias e revoltas, progressivamente mais violentas, do garoto.
Precipitarão o desenlace. Mas, transferindo o sadismo também para a relação do espectador com a personagem, deixa-nos a ansiar - como a descarga catártica que o filme foi tornando imperiosa - pelo momento em que o segredo de Michael seja descoberto pelos seus mais próximos. Queremos ver, queremos absolutamente ver, o choque na cara da mãe quando abrir a porta da cave do filho. Num derradeiro golpe de rins, Schleinzer nega-nos isso, lembrando que o sádico é ele e o espectador, de algum modo, também é o seu insecto. Cinematograficamente é a melhor solução; mas diabos o levem.
Entrevista a Markus Schleinzer
Ursula Baatz - De onde lhe veio a ideia e a vontade de fazer um filme destes?
Markus Schleinzer - Nos últimos anos, interessei-me bastante pela forma como se abordam estes
criminosos e a própria noção de criminoso na opinião pública. Na nossa sociedade, e a meu ver
correctamente, o abuso sexual de menores é o crime cuja condenação é mais veemente e unânime.
De tal forma que mesmo certas pessoas com alto sentido de justiça e conformidade com a lei
gostariam de regressar a um direito medieval e de enforcar os agressores. Eu próprio não sou imune a
isso quando ouço falar ou leio alguma coisa que está para além do meu entendimento ou da minha
imaginação nos jornais sensacionalistas, a quem se deixou praticamente o exclusivo destas matérias.
Esta constatação chocou--me e quis tentar encontrar respostas e abordar o tema abertamente, o que o
cinema de ficção me permite. Para tal, recusei conscientemente inspirar-me em acontecimentos
ocorridos na Áustria ou no estrangeiro e criei personagens em nada relacionados com o que era
relatado pela comunicação social. A história tão pouco possui elementos autobiográficos. Nem eu, nem
os que me são próximos alguma vez nos confrontámos com a pedofilia. Depois de escrever o
argumento, pedi ao Dr. Heidi Kastner, um psicólogo
forense de reputação internacional, que analisasse
o personagem e o seu comportamento. Teria sido
estúpido e perigoso confiar apenas na imaginação
livre num tema destes. Este filme procurava narrar
os últimos cinco meses de convivência forçada de
um rapaz de 10 anos com um homem de 35 anos.
Para mim, o essencial era perceber como é que se
podia contar uma história destas. Queria partir do
universo do criminoso, do universo idílico e artificial
que ele elabora, e construir a narrativa partindo do
seu ponto de vista. Era, portanto, fundamental não
introduzir qualquer julgamento ou moral exteriores e
não deixar os meus próprios valores éticos contaminarem a história. Assim, só vemos o homem, o
garoto e a interacção entre os dois. Pretendia criar uma situação à qual tivéssemos de nos expor,
como se de um perigo se tratasse. Em que cada um tivesse de examinar cuidadosamente estes
sentimentos. Penso que isso pode ajudar a sociedade, todos nós, a ir mais longe, a avançar. Mede-se
o grau de desenvolvimento de uma sociedade pela forma como esta é capaz de se confrontar com os
seus criminosos.
UB Na comunicação social, os autores destes crimes são frequentemente apresentados como monstros...
MS Os jornais sensacionalistas adoram empregar rótulos chocantes como “O monstro de...”. Mas os monstros não são seres humanos: o monstro é um ser mítico, um personagem de conto de fadas. Ao agir assim, nega-se ao criminoso a sua condição humana. É óbvio que conferimos importância extrema à distância que temos de colocar entre nós e os criminosos. E pouco importa de que forma o fazemos, apenas que essa distância seja a maior possível. Não temos vontade de encarar tais pessoas e muito menos de nos aproximarmos delas por via de uma possível identificação. A maior parte do tempo, procuramos características interiores e exteriores que nos permitam definir essas pessoas. Não para nos obrigarmos a compreendê-las e a reconhecê-las mas para as distanciarmos de nós. Regressamos invariavelmente a rótulos, procuramos obstinadamente uma “libertação” através de explicações psicológicas. É precisamente este mecanismo que tentei neutralizar em Michael. O que é essencial para mim é que só posso estabelecer uma relação com um comportamento criminoso, qualquer que seja, se reconhecer a sua existência. Isso não significa nem perdoar, uma vez que só as vítimas o podem fazer, nem condenar, o que cabe à justiça.
UB O mais assustador, afinal, é a faceta de normalidade da vida deste criminoso...
MS O que é que acontece, a ambos, quando se convive naquelas condições? O que é que acontece quando, passado algum tempo, se ultrapassa a primeira resistência da vítima, esta se resigna e apesar de tudo se instala uma rotina? De acordo com os nossos parâmetros habituais, há uma relação entre duas pessoas que vivem juntas. Mas qual é a natureza dessa relação neste caso? É o que eu queria contar e questionar, abordando também uma forma de sexualidade, por ser um dos elementos desta vida em conjunto, ainda que, bem entendido, totalmente controlada pelo criminoso. Creio efectivamente que esse é um dos aspectos assustadores do filme: um homem que procura a normalidade no âmbito de um crime extremo e que todavia vive como muitos de nós... É que o criminoso tenta apenas viver de forma muito convencional. Procura ser como os outros. Cumpre fielmente os ritos da normalidade, uma vez que o normal mascara o crime. Se eu me interesso por esses mundos “ideais” que alguns elaboram, julgando-os “naturais” e “normais”, é porque para mim eles colocam em causa a normalidade e o quotidiano em que vivo. Saber que numa situação extrema se procura a normalidade, que ela é necessária para poder suportar essa situação e a perpetuar, permite encarar o quotidiano e a sua normalidade sob um outro prisma. O que é que isso representa para a minha própria normalidade? O que é que nesta advém da simples auto-protecção ou da necessidade de se manter em segurança?
UB Para mim, o que é interessante e assustador no filme é que não só o criminoso procura a normalidade, como a normalidade não o vê de todo como um anormal. Ele é um empregado de uma companhia de seguros muito competente, é mesmo promovido, é estimado ao ponto de ser convidado para umas férias de esqui, etc. No contacto directo, as pessoas “normais” reagem como se ele fosse um tipo de facto normal. Esse é um dos aspectos mais estranhos e inquietantes do filme.
MS Mesmo que a anormalidade seja o oposto da normalidade, não creio que se estenda a todas as esferas da vida. O anormal é apenas uma faceta. Em Michael, a anormalidade do criminoso, a pedofilia, levou-o a raptar a criança. Mas isso não o distingue em nada, não permite um distanciamento imediato dele. E quando os vizinhos, como é frequente nestes casos, acorrem a dizer “Mas ele era tão simpático” não fazem mais que, para o bem e para o mal, tentar compensar o disfuncional com o funcional. Há sempre esta incompreensão: como é que alguém que tomou conta dos meus gatos pode revelar-se repentinamente um anormal? Parece-nos altamente improvável, porque põe em perigo a nossa própria normalidade.
UB Em Michael, os personagens reagem com uma certa frieza, as lágrimas são raras... Precisamente quando a comunicação social daria largas a um registo sensacionalista, a sua realização recua.
MS Já é suficientemente horrível. Não vejo porque insistir nessa tecla escolhendo outros processos narrativos. É por isso que desde o início da escrita do argumento decidi não fazer um filme cujo personagem principal fosse a vítima. Seria de muito mau gosto. Primeiro, porque não sei quase nada sobre o assunto. Em segundo lugar, porque é frequente que os “filmes de vítimas” as explorem e eu não queria fazer isso. Não podia abordar esta história de forma sentimental, numa escalada emocional. Protejo os actores e deixei espaço aos personagens, tanto ao da vítima, como ao do criminoso. Não há grandes planos obscenos com lágrimas a escorrer pelas faces. Isso seria simplesmente desrespeitoso. Mas também não queria cair no erro de acreditar que só há um ponto de vista, uma única abordagem emotiva – nunca é assim.
UB Falou dos actores: fazer uma criança participar num filme destes é uma grande responsabilidade...
MS Desde logo, o mais importante era a sinceridade absoluta. Numa das últimas sessões de casting, uma mãe levantou-se e foi-se embora, porque eu não lhe podia prometer que ia ser capaz de proteger o seu filho no futuro e impedi-lo de ser alvo de chacota dos colegas na escola. Não o posso fazer e fazer de conta que sim seria mentir. Tentámos acompanhar esta criança através do diálogo e ouvindo-a, para que também pudesse existir por si mesma, enquanto pessoa, na história. O essencial era encontrar pais que não se contentassem com autorizar o filho a desempenhar este papel mas que fossem igualmente interlocutores interessados; encontrar uma criança com talento suficiente e com uma personalidade forte e sã. Não posso fazer um filme sobre maus tratos e eu próprio maltratar o meu personagem. Claro que isto diz essencialmente respeito à criança, porque faz de vítima, mas também ao actor que faz de criminoso, Michael Fuith. Era muito importante confrontarmo-nos seriamente com a questão “Nós próprios, quem somos?” antes de começar a falar de personagens.
UB Como é que uma criança de dez anos experiencia uma história destas?
MS Trabalhei muito com crianças. Aprendi muito, em particular, com Michael Haneke na rodagem de Das Weisse Band [O Lenço Branco]. Sem esta experiência, não me atreveria a fazer Michael. Aprendi que é preciso encontrar as crianças onde estão, ou seja, no seu ser criança.
Isso é muito importante. Não se tratava, sobretudo num tema destes, de puxar a criança para o mundo dos adultos. Nós falámos muitas vezes disto abertamente com o nosso jovem actor. Dei-lhe sempre a possibilidade de ele próprio reflectir sobre o que podia acontecer ao seu personagem. Era igualmente importante que ele participasse na construção do seu quarto na cave: todos os desenhos que aí vemos são dele. Ele imaginou cenários de fuga (cavando um túnel, por exemplo) e como é que se ia vingar. Conhecia o argumento, sabia como acabava e foi ele próprio que decidiu como é que o seu personagem ia escapar. Ainda que fosse sempre claro de que é que ele regressava, encontrámos com o miúdo e com os pais uma linguagem apropriada para falar sobre tudo isso. Era muito importante não o saturar com informação mas permitir-lhe perceber a situação de forma concreta. É preciso não subestimar as crianças. Elas percebem muito mais do que, por vezes, estaríamos à espera e, também por essa razão, devem ser protegidas de modo a eliminar o voyeurismo e a obscenidade.
UB E como é que foi para o actor principal, Michael Fuith?
MS Ele é que devia responder a essa questão. Do que pude observar, diria que ele arriscou verdadeiramente com esta história, que se documentou bastante e que lhe terá sido, sem dúvida, frequentemente muito difícil expor-se à representação deste personagem, compreender os comportamentos de um ponto de vista lógico mesmo reprovando-os. Encarou tudo isso com grande sinceridade e fez um excelente trabalho, mas espero que o seu próximo papel seja muito diferente...





