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PROGRAMAÇÃO: SETEMBRO de 2012


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NANA de Valérie Massadian + RAFA de João Salaviza

Sinopse

Nana (Kelyna Lecomte), de apenas quatro anos, vive com a mãe e o avô numa casa perto da floresta. Certo dia, ao chegar da escola, encontra a casa totalmente silenciosa e vazia. Depois da sensação física do vazio e do abandono, Nana retoma a sua vida normal: veste-se, alimenta-se, brinca e cuida da casa. É assim que aquela menina assume-se num mundo à altura dos seus 90 centímetros, liberta dos adultos e da sua orientação.

Primeira longa-metragem da fotógrafa Valérie Massadian, foi o filme-revelação em Locarno, onde recebeu o prémio Opera Prima para primeiras obras.

Em complemento a curta "Rafa", de João Salaviza, sobre um rapaz de 13 anos que deixa a sua casa nos subúrbios e ruma a Lisboa, em busca da mãe que não regressou na noite anterior. "Rafa" foi o vencedor do Urso de Ouro para melhor curta-metragem na edição de 2012 do Festival de Berlim.

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Ficha Técnica

Título original: Nana (França, 2011, 68 min.)
Realização: Valérie Massadian
Interpretação: Kelyna Lecomte, Marie Delmas, Alain Sabras
Som: Olivier Dandré e Jonathan Laurent
Montagem: Dominique Auvray e Valérie Massadian
Produção: Sophie Erbs para Gaijin

Rafa:

Título original: Rafa (Portugal, 2012, 25 min.)
Interpretação: Rodrigo Perdigão, Joana de Verona
Realização e Argumento: João Salaviza
Produção: Maria João Mayer + François d’Artemare
Som: Olivier Blanc
Fotografia: Vasco Viana
Montagem: Rodolphe Molla, João Salaviza

Críticas

Paraíso, perdido
Jorge Mourinha, Público de 10 de Maio de 2012

A estreia de Valérie Massadian é uma peculiar “ficção do real” em tom de conto iniciático com ressonâncias ancestrais

"Nana" tem tudo para ser uma daquelas “estrelas cadentes” que o cinema de autor de vez em quando atira: objectos fulgurantes, de vocação orgulhosamente solitária e resolutamente singular, que aparecem de lado nenhum e não auguram necessariamente uma carreira longa ao seu autor (assim de repente, lembrámo-nos de Sandrine Veysset ou, mais para trás, de cineastas dos anos 1970 como Milton Moses Ginsberg ou Barbara Loden).

Paradoxalmente, ao inscrever-se na actual corrente de “ficções do real” - cinema que cruza os dispositivos do documentário e da ficção com assinalável liberdade de fronteiras, usando a paciência das técnicas documentais para enquadrar um núcleo central ficcional - Nana acaba também por revelar a presciência desses OVNIs ainda hoje quase secretos e a dívida do cinema feito “fora do sistema” para com essa liberdade de espírito e concepção.

Abrindo com uma impressionantemente desconfortável cena de matança de porco, que cumpre o duplo intuito de ressoar com uma vivência de tradições seculares e intemporais e desenhar o espaço e o cenário onde tudo se passará, Valérie Massadian afasta-se lentamente da observação documental do quotidiano rural para acompanhar uma ficção em construção à frente do próprio espectador, através da história de Nana, uma menina de quatro anos deixada à solta na província francesa por uma mãe que desaparece sem dizer nada. E o que Massadian observa é o modo como a menina (Kelyna Lecomte, com uma segurança impressionante) se instala de corpo inteiro e com absoluta naturalidade no espaço que a rodeia, se apropria dele para construir o seu próprio mundo em resposta àquilo que viu os adultos fazer. Nesse processo, Nana consegue a espaços capturar a magia despreocupada ou a emoção arregalada da infância, ao mesmo tempo que explora a angústia indefinível de um paraíso à beira de ser perdido sem que disso nos apercebamos, o ponto em que as regras do mundo “adulto” começam a contaminar a pureza original.

Lemos ou ouvimos algures que Nana seria uma espécie de “Walt Disney politicamente incorrecto”, tal é a dimensão ancestral e a sugestão de “conto iniciático” que introduz, ao restituir a violência surda de uma ingenuidade de olhos abertos para o mundo que a progressiva urbanização da civilização veio neutralizar. Não se tratará, é certo, de algo de particularmente novo ou de original (e a curta duração do filme sugere a perfeita noção de que Nana não tem mais para onde ir), mas quando Valérie Massadian o filma deste modo luminoso, de uma maravilha ao mesmo tempo assustadora e confortadora, ganha razão de ser. Nana é, realmente, um objecto singular.

Em complemento a "Nana", o Urso de Ouro de Berlim das curtas-metragens
Vasco Câmara, Público

"Arena" (2009) é o momento olímpico de João Salaviza. Por causa da Palma de Ouro de Cannes, claro; por causa daquela entrega à luz (magnífico final distópico) de um jovem que fura as regras da prisão domiciliária para ser devorado pelo exterior. O que acontece depois na obra do realizador - e poderemos ver "Arena", "Cerro Negro" (2011) e "Rafa" (2012) juntos, serão brevemente editados em DVD - não é da ordem da superação, mas da reiteração. Como se este cinema fosse, primeiro, alimentando a curiosidade e o fascínio de um filho da classe média (como Salaviza se assume) pelo “outro”, por um mundo a que nunca pertenceu, por uma relação com a rua que (se) perdeu (tudo isso tintado de nostalgia, no sentido em que podemos ficar nostálgicos em relação ao que nunca tivemos.) Depois, acordando para uma consciência, enchendo-se de gravidade e de suplementos de angústia (no sentido em que é angustiante, por exemplo, o cinema iraniano, Abbas Kiarostami e os outros, com/sobre crianças). Só a visão conjunta desta espécie de trilogia da angústia instala a dinâmica de implacabilidade que está em movimento na viagem iniciática de personagens que são apresentadas ao mundo exterior para aí se confrontarem com outros horizontes de fechamento: em Rafa, o Urso de Ouro de Berlim que é exibido em complemento a Nana, um adolescente vai do subúrbio a Lisboa visitar a mãe à prisão. Descobre-se, afinal, adulto.

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