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REALITY de Matteo Garrone

Sinopse

Luciano (Aniello Arena) é um peixeiro napolitano, cuja disposição franca e alegre contagia todos à sua volta. Certo dia, pressionado pela família, decide concorrer ao Grande Fratello (versão italiana do reality show Big Brother), um dos mais célebres programas da televisão italiana. Porém o sonho de se tornar uma celebridade é de tal modo obsessivo que vai transformar toda a percepção que tem de si mesmo e de todos à sua volta...

Uma comédia dramática inspirada num facto real, realizada pelo italiano Matteo Garrone, depois do sucesso internacional de "Gomorra", em 2008. Este filme, em competição na edição de 2012 do Festival de Cannes, valeu ao realizador o Prémio do Júri.

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Ficha Técnica

Título original: Reality (Itália, 2012, 115 min)
Realização: Matteo Garrone
Interpretação: Aniello Arena, Loredana Simioli, Nando Paone
Argumento: Maurizio Braucci, Ugo Chiti, Matteo Garrone, Massimo Gaudioso
Som: Maricetta Lombardo
Música: Alexandre Desplat
Montagem: Marco Spoletini
Fotografia: Marco Onorato
Produção: Domenico Procacci, Matteo Garrone
Estreia: 14 de Janeiro de 2013
Distribuição: Midas Filmes
Classificação: M/12

Críticas

O show da realidade
Vasco Câmara, Público de 17 de Janeiro de 2013

O filme que fica à porta do Big Brother mas entra nas fantasias de um homem que quer moldar com elas o mundo.

Roberto Saviano, o autor de Gomorra, contava nesse livro que um chefe mafioso mandou construir uma casa réplica da de Tony Montana/Al Pacino no Scarface de Brian de Palma. Saviano argumenta assim: foi a Mafia que construiu a sua imagem a partir do cinema, não foi ao contrário; O Padrinho e Michael Corleone, por exemplo, terão sido um ponto de partida para a realidade se construir e fazer o seu show, não foram um ponto de chegada. Matteo Garrone adaptou esse romance ao cinema. O filme, de 2008, era superiormente evocativo, filmado sem piscadela de olho cinéfila, mas destilando naturalmente toda uma memória do cinema italiano - um gesto com qualquer coisa de enciclopédico, até.

A personagem principal do novo Garrone, Reality, também quer impor a sua fantasia à realidade. Faz pensar naquele mafioso de Gomorra entregue à sua ilusão. Luciano (Aniello Arena) é um vendedor de peixe, quer entrar no reality-show Big Brother e vai adequando a “realidade”, violentando-a, violentando-se. O filme nunca entra na infame “casa”, mas aproxima-se de uma família napolitana de forma delicada para não a vampirizar, já que Luciano e o sonho são suficientes para colocar em marcha uma dinâmica implacável, ditatorial, autofágica.

Reality não é nem um filme sobre o Big Brother, já que fica à sua porta, não entrando, nem sobre a televisão. Mantém-se sempre do lado de quem vê. Se tirarmos a televisão e Il Grande Fratello da equação, nada se altera de substancial: muda o cenário mas continuamos perto de quem se deixa encerrar na fantasia que quer como molde do mundo. O que faz de Luciano uma figuração recente daquele tumulto masculino, simultaneamente frágil e feroz, que estava em perda perante o chamado boom económico italiano: a tal “comédia à italiana” dos anos 50 e 60 que tinha no centro alguém com uma candura capaz de delinquências várias, e sempre imprevisível. No rosto de Aniello Arena, o intérprete de Reality, cruzam-se Totò e Robert de Niro. Não é fantasia, basta olhar - o DeNiro dos seus inícios com Scorsese, pura energia e violência, e o DeNiro de O Rei da Comédia, patética solidão, também. O que faz de Garrone, finalmente, um dois em um naquela tradicional dicotomia que separa “realistas” de “fantasistas”. Na tradição dos Risi, Monicelli e Fellini de outros tempos (O Sheik Branco, tão doce e tão ácido que fere, é influência assumida por Garrone, mas todo o seu filme dá à praia como espuma felliniana), quando a ferocidade do real era interceptada e instigada pela selvajaria da fantasia. Retrospectivamente, até Gomorra, que já não era “mais um filme sobre a Mafia”, que despachava logo no início os tiroteios e a estilização que cristalizam o “género”, se afasta do realismo e do social. Não é, afinal, uma história de homens (mafiosos) enredados nas suas fantasias e nos fatos (e nas casas) dos seus heróis?

Voltando a olhar para Aniello Arena: é na realidade (palavra que se revela bastante silenciosa quando associada a este filme e a estas figuras) um condenado a prisão perpétua, por envolvimento na morte de três membros de um gangue rival no tráfico de droga; foi encontrando a sua redenção, disse o próprio, em grupos de teatro prisionais - como as personagens de César Deve Morrer, dos Taviani. Garrone diz ter detectado nele uma capacidade de surpresa que só pode estar associada a alguém que há décadas vive afastado do mundo: só assim pode olhar como se estivesse sempre a descobrir. Luciano, a personagem que interpreta, acede, finalmente, ao cenário da sua fantasia. É talvez o sinal de que nunca saiu dela. De alguma forma Reality pode ser também o documentário do embate de um presidiário com o mundo, um maravilhoso condenado a ser interrompido. Tem acontecido ao cinema de Garrone, pela conexão napolitana do trabalho do romano, esse tráfego entre clausura e evasão - depois de Gomorra, por exemplo, alguns dos intérpretes, gente recrutada na zona de Nápoles, deram entrada, por assim dizer, na prisão... Não há outra explicação: é o show da realidade.

Como sobreviver ao "Big Brother"?
João Lopes, Cinemax

Um grande filme sobre o vazio humano do "Big Brother": com "Reality" (premiado em Cannes), Matteo Garrone visa o lado mais agressivo, e também mais degradado, da televisão contemporânea.

Numa das cenas mais emblemáticas do filme "Reality" (distinguido com o Grande Prémio de Cannes/2012), Luciano (Aniello Arena) vai a um casting para o programa de reality-TV "Big Brother". Mais exactamente: estamos em Itália e o programa chama-se "Grande Fratello". Quando o vemos no meio da pequena multidão que aguarda a chamada, a câmara desliza pela fachada do portão de entrada e podemos ler: Cinecittà.

Não poderia haver pontuação simbólica mais directa e contundente: os horrores da televisão contemporânea estão a ocupar, literalmente, os lugares (físicos e narrativos) do cinema. A Cinecittà, espaço mítico dos estúdios onde filmaram Federico Fellini e todos os grandes do moderno cinema italiano, passou a receber as rotinas de uma televisão enraizada na metódica decomposição da dimensão humana.

Esta é a história do dono de uma peixaria de Nápoles que, em grande parte sob pressão da família, se envolve com os mecanismos do "Big Brother". A partir do momento em que passa a aguardar o resultado do seu casting, toda a sua existência muda: mais do que encontrar uma "realidade" redentora, ele confronta-se com a própria dificuldade de sobreviver à vacuidade utópica que o programa explora até à exaustão.

Matteo Garrone, o realizador de "Reality", prossegue, assim, a lógica de um trabalho que já tinha passado por esse filme igualmente notável que é "Gomorra" (curiosamente distinguido com o mesmo Grande Prémio, em Cannes/2008). Que é como quem diz: a par de Nanni Moretti, Daniele Luchetti e outros que, infelizmente, quase não chegam às salas portuguesas (penso, por exemplo, em Mario Martone), Garrone é alguém que não desiste de olhar a sua Itália, cruzando o desencanto mais extremo com um infinito amor.

Porque, de facto, este é um cinema de amor. No sentido mais profundo que tal pode envolver na elaboração de um olhar cinematográfico sobre o mundo à nossa volta. Não abdicando do realismo social ligado às memórias mais nobres da produção italiana, Garrone evita também as generalizações "sociológicas": "Reality" é um filme sobre a televisão como máquina de quotidiana destruição das relações humanas.

(Nao perca a entrevista no Dossier)

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