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PROGRAMAÇÃO: NOVEMBRO 2014
Sala de exibições
Pequeno auditório
Casa das Artes de V. N. de Famalicão
Parque de Sinçães - V. N. de Famalicão
OS MAIAS – Cenas da Vida Romântica de João Botelho
Sinopse
Portugal, séc. XIX. Afonso da Maia casa com Maria Eduarda Runa e deste casamento
resulta Pedro, um rapaz nervoso e instável, superprotegido pela mãe. Ainda jovem, Pedro
conhece Maria Monforte, por quem se apaixona e com quem casa, mesmo a contragosto da
família. Da relação entre os dois nasce Carlos Eduardo e Maria Eduarda. Alguns anos depois,
Maria Monforte apaixona-se por um italiano e foge com ele para Itália, levando a filha consigo.
Incapaz de lidar com a traição, Pedro, destroçado, comete suicídio. Carlos, ainda pequeno, cresce
e é entregue aos cuidados do avô, com quem cria laços profundos. Passam-se vários anos.
Carlos forma-se em medicina pela Universidade de Coimbra e vai viver com o avô para Lisboa, na
velha mansão dos Maia. Até que conhece Maria Eduarda, uma mulher bela e cheia de mistérios
que acabou de chegar à capital. A paixão é recíproca e eles vivem, durante meses, um amor
cego, não imaginando o terrível pecado que estavam a cometer.
Com argumento e realização de João Botelho (“A Corte do Norte”, “Filme do Desassossego”), esta é a primeira adaptação cinematográfica da obra homónima de Eça de Queirós, considerada uma das mais importantes da literatura portuguesa.
O elenco é formado por 52 actores, entre os quais João Perry (Afonso de Maia), Graciano Dias (Carlos da Maia), a actriz brasileira Maria Flor (Maria Eduarda), Pedro Inês (João da Ega), Pedro Lacerda (Thomaz d’Alencar), Adriano Luz (Conde de Gouvarinho), Ana Moreira (Maria Eduarda Runa), Rui Morrison (Vilaça), Rita Blanco (D. Maria da Cunha), Catarina Wallenstein (Maria Monforte) ou Pedro Inês (João da Ega). A voz narrada de Eça de Queirós é a do barítono Jorge Vaz de Carvalho.
Ficha Técnica
Título original: Os Maias – Cenas da Vida Romântica (Portugal, 2014, 135 min.)
Realização e Argumento: João Botelho
Interpretação: Graciano Dias, Maria Flor, Pedro Inês, Hugo Amaro, João Perry, Maria João Pinho, Adriano Luz, Marcello Urgeghe
Produção: Alexandre Oliveira, Ar de Filmes
Fotografia: João Ribeiro
Montagem: João Braz
Som: Paulo Abelho, João Eleutério
Distribuição: Nos Audiovisuais – Ar de Filmes
Estreia: 11 de Setembro de 2014
Classificação: M/12
Entre Afonso da Maia e o seu neto Carlos, constrói-se o último laço forte da velha família Maia. Formado em medicina na Universidade de Coimbra e posteriormente educado numa longa viagem pela Europa, Carlos da Maia regressa a Lisboa no Outono de 1875, para grande alegria do avô. Nos catorze meses seguintes, nasce, cresce e morre a comédia e a tragédia de Carlos como a tragédia e a comédia de Portugal. A vida ociosa do médico aristocrata, invariavelmente acompanhado pelo seu par amigo, o génio da escrita e de obras “inacabadas”, o manipulador João da Ega, leva-o a ter amigos, a ter amantes e ao dolce fare niente, cheio de convicções. Até que se apaixona de verdade por uma mulher tão bela como uma madona e tão cheia de mistérios, como as heroínas da estética naturalista. Um personagem novo num romance esteticamente revolucionário. A vertigem: paixão louca para lá dos negrumes do passado, um novo e mais negro precipício, o incesto. Mesmo sabendo que Maria Eduarda é a irmã a paixão de Carlos não morre e vai ao limite. E depois termina abruptamente porque o velho Afonso da Maia morre para expiar o pecado terrível do seu neto, neto que era a razão da sua existência. E então em vez da morte do herói, nova invenção de Eça. Carlos e Ega partem para uma longa viagem de ócio e de pequenos prazeres. Dez anos depois, voltam a encontrar-se em Lisboa tão diferente e tão igual, a capital de um pais a caminho da bancarrota. “Os Maias”, escrito pelo genial Eça de Queiroz, grande, melodramático, divertido e melancólico, aponta um destino sem remédio, tanto para a família Maia como para Portugal.
João Botelho
Uma estética do prazer
João Lopes, DN por
Em alguns momentos de Os Maias - por exemplo, nas cenas de Santa Olávia, nas margens do Douro, com Afonso da Maia (João Perry) -, João Botelho combina as telas pintadas por João Queiroz com elementos reais dos locais de filmagens (um chafariz, o recanto de um jardim). Fascinante paradoxo: por um lado, sentimos a materialidade ancestral de pedras e flores; por outro lado, o declarado artifício do fundo pintado gera um clima de singular coexistência de contrários. Apetece evocar a herança de Bertolt Brecht e a sua pedagogia da distanciação: a coabitação cenográfica do mundo "real" e do mundo "encenado" pode contribuir para uma relação com a história vivida (pelas personagens) que não mascare a sua condição de história representada (para o espectador). Resistimos, enfim, a ser submergidos pelo espetáculo. Em todo o caso, não simplificando a lição brechtiana, vale a pena ir um pouco mais além, lembrando que Brecht foi também um intelectual do prazer. A esse propósito, Roland Barthes destacava a sua proposta de "imaginar uma estética baseada até ao fim no prazer do consumidor". Mais do que isso: ao referir essa "estética do prazer", Barthes acrescentava também que se trata da proposição de Brecht "que se esquece mais frequentemente" (in O Prazer do Texto, Edições 70, 1974). Apetece dizer que Botelho não esqueceu. E que o seu cinema, confessando a manipulação que o sustenta, quer estar também ao serviço do prazer do espectador: vogando pelos imponderáveis da metafísica em Filme do Desassossego (2010), descendo à terra do romanesco, em Os Maias. Num tempo em que a televisão alimenta a ilusão da gratificação instantânea, encontramos aqui a duração, a espera e até o vazio que o prazer pode envolver. Há revoluções que começam por menos.







