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PROGRAMAÇÃO: SETEMBRO 2015
Sala de exibições
Pequeno auditório
Casa das Artes de V. N. de Famalicão
Parque de Sinçães - V. N. de Famalicão
O GUIA DE IDEOLOGIA DO DEPRAVADO de Sophie Fiennes
Sinopse
Cinema, ideologia e os sonhos que nascem dessa relação e nos fazem mover. Eis o
cerne deste "guia" que aborda vorazmente a cultura popular para mostrar o que se "esconde" na
sua iconografia. Uma série de imagens – de "Música no Coração" a "Tubarão", passando por
"Taxi Driver" e pelos telejornais – é combinada a partir de um ângulo que procura problematizar a
sua influência nas crenças, estruturas mentais, comportamentos e (re)acções colectivas,
especialmente enquanto reforço ou consolidação de uma ideologia dominante. Tudo com um
toque de humor e uma clara tendência para a provocação, sem deixar de fornecer a solução:
"Mude a forma como sonha".
Um documentário de Sophie Fiennes, situado no ponto de encontro do cinema com a filosofia. O argumento tem a assinatura do filósofo e teórico da cultura esloveno Slavoj Žižek, que já tinha colaborado com a cineasta inglesa n'"O Guia de Cinema do Depravado". É também ele quem aparece a fazer os comentários que pontuam o filme.
Ficha Técnica
Título original: The Pervert's Guide to Ideology (Irlanda / Grã-Bretanha, 2012, 136 min.)
Realização: Sophie Fiennes
Produção: Sophie Fiennes, Katie Holly, Martin Rosenbaum, James Wilson
Argumento e Interpretação: Slavoj Žižek
Musica: Brian Eno
Fotografia: Remko Schnorr
Montagem: Ethel Shepherd
Distribuição: Alambique
Estreia: 27 de Novembro de 2014
Classificação: M/12
Psicanálise política
Luís Miguel Oliveira, Público de 27 de Novembro de 2014
O espectador cinéfilo talvez não aprenda nada de muito novo a ver este filme, mas fica com algumas coisas para pensar.
É conhecida a atenção que Slavoj Zizek, porventura o único “filósofo-entertainer” da actualidade, dedica ao cinema, variadas vezes objecto, ou pretexto, dos seus escritos e reflexões.
Este Guia de Ideologia do Depravado segue-se a outro “Guia”, também realizado por Sophie Fiennes e protagonizado por Zizek, feito há uns anos, O Guia de Cinema do Depravado. Esse filme, em vez de ser de facto um “guia de cinema”, era sobretudo um “guia” de psicanálise ilustrado a partir de dúzias de filmes e momentos da história do cinema razoavelmente célebres. Agora o modelo repete-se mas o enredo torna-se mais espesso: não se está somente com o cinema e a psicanálise, mas acrescenta-se um terceiro elemento, a “ideologia”. E o filme é, no seu essencial, uma dissertação, ou um conjunto de reflexões, sobre a estreita relação entre conceitos psicanalíticos e substractos ideológicos (quaisquer ideologias que sejam) ou, ainda, uma interpretação psicanalítica da relação com as ideologias políticas ilustrada a partir do cinema.
É sempre interessante e às vezes fascinante, como por exemplo logo na sequência inicial, quando Zizek se atira ao grande filme político americano dos últimos 30 anos, o Eles Vivem de John Carpenter, menos interessado no seu sentido político (aquela denúncia do capitalismo “yuppie”) do que naquilo que dele (os célebres “óculos escuros”) pode extrair para, como introdução, equiparar as ideologias às “lentes” através dos quais o mundo é apercebido por cada um. O exercício prossegue, depois, em capítulos tacitamente estruturados, abordando filmes tão diversos como A Música no Coração ou, num dos segmentos mais interessantes, uma aproximação ao Táxi Driver de Scorsese e à Desaparecida de Ford como ponto de partida para chegar (através do tema da “resgatada recalcitrante”) às intervenções militares americanas para colocar terceiros (o Iraque, por exemplo) no bom caminho da democracia. Essa ponte para a política “de facto” está sempre a ser feita, o que traz ao filme um bom número de excertos que, não vindo do cinema propriamente dito, são postos em articulação com ele (imagens dos motins de Londres de há uns anos, por exemplo). Os grandes “clássicos” da propaganda, seja nazi ou soviética, também são abordados, e é bastante curioso (aí há mesmo algum “didactismo” verdadeiramente cinematográfico) que Zizek vá buscar imagens de um dos mais delirantes filmes de propaganda jamais feitos, mas tão pouco conhecido, A Queda de Berlim, de Mikhail Tchiaureli, surreal “deificação” de Estaline. À boleia da verve de Zizek, a missão cumpre-se. O espectador cinéfilo talvez não aprenda nada de muito novo a ver este filme, mas fica com algumas coisas para pensar.





