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CAVALEIRO DE COPAS de Terrence Malick

Sinopse

Rick é um argumentista que singrou em Hollywood, EUA. Apesar disso, a sua vida é vazia e sem significado. Quando não está a trabalhar, o seu dia-a-dia é marcado pelos excessos: festas, mulheres, álcool e drogas. Por momentos, quase se sente feliz e as mulheres dão-lhe algum alento ou esperança no que o futuro lhe reserva. Tudo o que deseja é encontrar um sentido de autenticidade para a sua existência atormentada. Mas será isso possível?

Com argumento e realização do aclamado cineasta Terrence Malick ("A Barreira Invisível", "A Árvore da Vida"), “Cavaleiro de Copas” está dividido em oito capítulos, mais o prólogo. Cada capítulo segue a relação de Rick com uma personagem diferente e, à excepção do último (que tem o título de “Liberdade”), cada um possui o nome de uma carta de Tarot. Os actores Christian Bale, Cate Blanchett, Natalie Portman, Antonio Banderas, Brian Dennehy, Freida Pinto, Imogen Poots, Isabel Lucas, Teresa Palmer e Wes Bentley dão vida às personagens.

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Ficha Técnica

Título original: Knight of Cups (EUA, 2015, 118 min.)
Realização e Argumento: Terrence Malick
Interpretação: Joe Manganiello, Natalie Portman, Teresa Palmer, Christian Bale, Cate Blanchett, Imogen Poots
Produção: Nicolas Gonda, Sarah Green, Ken Kao
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Montagem: Geoffrey Richman, Keith Fraase, A. J. Edwards
Estreia: 2 de Março de 2016
Distribuição: Nos Audiovisuais
Classificação: M/12

Uma carta de amor à juventude
Inês Lourenço, DN

Corpo e alma

Há algo de desconcertante no facto de encontrarmos um ator como Christian Bale envolvido no fascinante labirinto de um filme como Cavaleiro de Copas. De uma maneira ou de outra, somos levados a reimaginá-lo como a encarnação de Bruce Wayne/ /Batman, dirigido por Christopher Nolan. O certo é que, sob a batuta de Malick, ele é alguém à deriva, por assim dizer à procura da sua própria personagem. Mais do que isso: interpretando um argumentista perdido na máquina de Hollywood, Bale expõe-se numa vulnerabilidade tocante, muito para além de qualquer cliché dramático. Nesta perspetiva, somos mesmo levados a revê-lo num registo muito mais primitivo, quando, com 12 anos, protagonizou o admirável Império do Sol (1987), de Steven Spielberg.Há outra maneira de dizer tudo isto: através do seu obsessivo questionamento existencial, Malick é um cineasta que desafia os atores a enfrentar as narrativas, não como a "ilustração" de uma ação, antes como um acontecimento específico e irrepetível em que, em última instância, se joga a misteriosa cumplicidade que aproxima a vida vivida e a vida representada. Podemos considerar que Cavaleiro de Copas é um filme sobre a vacilação de todas as fronteiras humanas: um flashback deixa de ser uma mera recordação de factos vividos para passar a funcionar como a perturbante atualização física desses factos; as próprias paisagens naturais, esplendorosamente fotografadas por Emmanuel Lubezki (há dias distinguido com o Óscar de melhor fotografia, por The Revenant: O Renascido), estão para além de qualquer noção decorativa, podendo, no limite, ser encaradas como cenários radicalmente interiores. Se nos ensinaram a desenhar uma linha entre corpo e alma, Malick filma dos dois lados, ensinando-nos a mais enigmática forma de liberdade.

O tempo do amor segundo Terrence Malick

Depois de "A Árvore da Vida" (2011) e "A Essência do Amor" (2012), Terrence Malick está de volta com uma espantosa viagem interior cujo cenário é Hollywood — tudo se passa entre os cenários artificiais do cinema e as emoções mais radicais das personagens. Convenhamos que a distribuição tem razões que a razão desconhece... Não é uma questão portuguesa, entenda-se. Neste caso, importa mesmo sublinhar que a estreia portuguesa de "Cavaleiro de Copas", de Terrence Malick, ocorre em Portugal exactamente ao mesmo tempo que nos EUA — que é como quem diz: mais de um ano depois da sua passagem no Festival de Berlim. Como é possível que isto aconteça a um filme de um cineasta como Malick, para mais com um elenco que inclui, entre outros, Christian Bale, Cate Blanchett e Natalie Portman?... Por singular paradoxo, acontece que este é, à sua maneira, um filme sobre a urgência do presente. Ou melhor: sobre a construção, mental e sensorial, que elaboramos do nosso aqui e agora, nesse processo acabando por edificar a estrutura de um tempo único e irredutível. Que tempo é esse? Muito simplesmente, mas também muito radicalmente, o tempo do amor. A demanda de Rick (Bale) surge pontuada pelas mulheres que, com ele, ou apesar de dele, lhe surgem como imagem efémera de uma redenção que nem ele sabe identificar: este é, afinal, um filme sobre o mais primitivo "quem sou eu?", reformulado numa paisagem de muitos artifícios e ilusões — ser ou não ser.

Que paisagem é essa? Pois bem, Hollywood. À procura de um lugar estável na indústria do cinema, Rick é um argumentista profissional que, de alguma maneira, vai confrontar-se com as ambivalências do mundo sonhado (a expressão "fábrica de sonhos" adquire, aqui, uma renovada pertinência), todos os dias decomposto e recomposto pelos enigmas das relações humanas. Malick filma tudo isso a partir de um olhar ambivalente; como se fosse um "documentarista" que, em última instância, procura a fixação obssesiva dos instantes em que tudo, a paixão e o vazio emocional, a vida e a morte anunciada, parece poder encaixar-se numa ficção capaz de emprestar algum sentido a cada destino individual.

Sem dúvida por isso, "Cavaleiro de Copas", porventura ainda mais que "A Árvore da Vida" (2011) ou "A Essência do Amor" (2012), é um filme que se aproxima de uma respiração eminentemente musical — a ponto de a maior parte das falas das personagens não coincidirem obrigatoriamente com a sua presença nas imagens, gerando um sistema coral de factos e imaginações. É um cinema de estranho romantismo. Não apenas pelo extremismo da sua pulsão lírica, mas porque perpassa por todos os instantes de "Cavaleiro de Copas" a sensação, sem dúvida perturbante, de que cada vida humana prossegue sempre à beira da mais irreversível decomposição. O amor conserva apenas uma hipótese divina que as personagens talvez consigam pressentir — e, de forma mais ou menos consciente, nós somos cúmplices delas.

João Lopes, DN / Cinemax

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