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PROGRAMAÇÃO: Março 2018
Sala de exibições:
Pequeno auditório
Casa das Artes de V. N. de Famalicão
Parque de Sinçães - V. N. de Famalicão
Close-up – Observatório de Cinema
Produção da Casa das Artes e do Municipio de Famalicão.
Sinopse
Com 58 anos e divorciada há mais de dez, Gloria (Paulina Garcia) está decidida a não se deixar abater pela solidão. Por isso mesmo, diverte-se nas várias discotecas e bares de Santiago, Chile. Mas, um dia, conhece Rodolfo, um ex-oficial da Marinha um pouco mais velho, com quem vive uma arrebatada história de amor. Agora, com Rodolfo na sua vida, Gloria vê-se a desejar um compromisso mais sério e definitivo, que lhe preencha o vazio da sua existência. Porém, esta paixão parece estar condenada ao fracasso e, por mais que ambos se amem, parece que o passado teima em marcar presença nas suas vidas.
Estreado na 63.a edição do Festival de Cinema de Berlim, um filme dramático que valeu a Paulina Garcia o prémio de Melhor Actriz.
Ficha Técnica
Título original: Gloria (Chile/Espanha, 2013, 110 min)
Realização: Sebastián Lelio
Interpretação: Paulina García, Sergio Hernández, Diego Fontecilla
Produção: Juan de Dios Larraín, Pablo Larraín, Sebastián Lelio, Gonzalo Maza
Argumento: Gonzalo Maza, Sebastián Lelio
Fotografia: Benjamín Echazarreta
Montagem: Sebastián Lelio, Soledad Salfate
Distribuição: Alambique
Estreia: 3 de Abril de 2014
Classificação: M/12
NOTA DO REALIZADOR
Este filme é exclusiva e radicalmente contado de um único ponto de vista: o de Gloria. Não há um único fotograma no qual o seu corpo não esteja presente. Não há uma única cena que não ande à roda de como ela sente as coisas e o mundo. Gloria acaba por ter uma espécie de papel secundário na vida dos que a rodeiam.
O jogo do filme é transformar esta personagem secundária num papel de protagonista. O paradoxo é que, na maior parte das cenas, ela age como personagem secundária, visto que as coisas importantes acontecem sobretudo às outras pessoas. E, no entanto, o filme obriga-nos a observar estes eventos através dos olhos de Gloria: os olhos de uma mulher que procura o seu lugar num mundo hostil, que não parece ter muito espaço para ela, mas com a atitude de alguém que defende a sua liberdade individual com garra e orgulho.
Esta insistência em segui-la a toda a hora permite ao espectador infiltrar-se sob a pele de Gloria, para nunca deixar de a observar e ligar-se directamente às suas emoções.
O argumento do filme surge de certas histórias que aconteceram a pessoas que nós conhecemos ou então de casos caricatos que nos contaram. São eventos reais que, duma forma ou doutra, Santiago tornou possíveis. Santiago é praticamente outra personagem no filme. GLORIA é uma história individual que se passa no cenário de uma cidade em plena revolução. A demanda da personagem principal é ser amada e valorizada e enquadra--se nos clamores duma sociedade chilena que exige o seu direito a ser reconhecida. O Chile é um país moderno e próspero, mas o seu contrato social é muito injusto.
As exigências pessoais de Gloria comunicam subtilmente o descontentamento latente da comunidade. No filme, o poder transformador coletivo é reforçado pelo desejo de mudança de Gloria. Acho que a energia na personagem de Gloria é o que faz com que este filme seja vibrante e humano. De certa forma, Gloria é como Rocky: o mundo ataca-a e espezinha-a, mas ela consegue sempre levantar-se e seguir em frente, de cabeça bem erguida. Para mim, esta foi sempre uma boa razão para filmar a história desta mulher, para filmar o que podemos ver dela à superfície e tentar filmar também o seu mistério.
Fim de festa
Luis Miguel Oliveira, Público de 3 de Abril de 2014
Se se tem notado, e com boas razões, uma identidade comum ao novo cinema romeno, que ultrapassa autores e filmes específicos para se assumir como marca de tipo mais colectivo (o Mãe e Filho de Calin Peter Netzer que está em cartaz é outra ocasião para aferir isso), forçoso é reconhecer também um indisfarçável ar de família a muito do cinema que nos tem chegado dos países do sul da América do Sul, Chile e Argentina (a que talvez se pudesse acrescentar o Uruguai, de que têm chegado menos espécimes para observação).
Este chileno Gloria identifica-se logo, pela maneira como se agarra a uma personagem central, a homónima protagonista, uma cinquentona divorciada, solitária mas instalada na esquina entre a ansiedade e a permanente disposição para a festa, num “estudo de personagem” sustentado pelo tour de force da intérprete (Paulina Garcia, que diligentemente cumpre a missão de carregar boa parte do filme às costas) e lançado num mundo dado por “sinais” políticos e sociais que em última análise poderá ser, esse mundo (quer dizer: a sociedade chilena, o Chile) o verdadeiro objecto assim posto sob ínvia observação.
Embora menos psicopata, Gloria é um parente feminino do Tony Manero que há uns anos lançou Pablo Larraín (de resto, um dos produtores do filme de Sebastian Lélio), a singularidade da figura protagonista a servir de plataforma razoavelmente enigmática para o ambiente em volta, espécie de espelho fosco que absorve os reflexos (a TV, por exemplo), codificados, não-explicados, emitidos pelo Chile em que acção se desenrola.
A relação com a música, bastante eclética (de Bach a êxitos disco), é outro ponto de contacto, funcionando como comentário, na melhor das hipóteses, mas também como uma forma de sedução, de “chamada” do espectador, e aqui de modo menos subtil. É finalmente o que nos impede uma adesão plena a Gloria, filme que tem vários momentos fortes e uma protagonista notável mas que se aproxima bastante da sensação do cumprimento calculista de uma fórmula. Que melhor ou pior executada, pouco importa, pretende dar a ver o mundo (ou um mundo preciso) como um cativeiro, sem perceber que também o filme vive, à sua maneira, dentro duma forma de cativeiro.

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