CINECLUBE DE JOANE

Fevereiro 2019
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Alfonso Cuarón
7 FEV 21h45
de Serguei Eisenstein
14 FEV 21h45
de Lukas Dhont
21 FEV 21h45
de Leonor Teles
28 FEV 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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7 21h45

ROMA Alfonso Cuarón

Cidade do México, década de 1970. Cleo, de origem indígena, é empregada em casa de António e da sua esposa Sofia. Para além da responsabilidades domésticas, ela tem a seu cargo as quatro crianças do casal. Cleo é a primeira a levantar-se para acordar as crianças, alimentá-las e levá-las à escola e também a última a deitar-se depois de deixar tudo em ordem para o novo dia. Enquanto isso, o casamento está em ruptura e o país em mudança... Leão de Ouro na 75.a edição do Festival de cinema de Veneza, um filme autobiográfico filmado a preto e branco que recria uma época conturbada da História do México e uma fase importante da infância de Alfonso Cuarón (“E a Tua Mãe Também”, “Gravidade”) que, para além da realização, acumula aqui a responsabilidade do argumento, fotografia e montagem.

Título original: Roma (EUA / México, 2018, 135 min.)
Realização, Argumento e Fotografia: Alfonso Cuarón
Interpretação: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey, Carlos Peralta
Produção: Alfonso Cuarón, Gabriela Rodriguez, Nicolas Celis
Montagem: Alfonso Cuarón, Adam Gough
Estreia: 13 de Dezembro de 2018
Distribuição: Prisvideo
Classificação: M/12
Mexico 70, Luís Miguel Oliveira, Publico de 12 de Dezembro de 2018

Não deixa de ser uma ironia, face à quantidade de “informação visual” de Roma que seja um filme Netflix, a ser maioritariamente visto em ecrãs de computador ou de TV.
Regresso de Alfonso Cuarón ao México, onde já não filmava desde o princípio do século (Y Tu Mamá También, de 2001), e a um México bastante específico, temporal e geograficamente: 1970, ano de alguma euforia no país (o México organizava pela primeira vez um campeonato do mundo de futebol), e um bairro da Cidade do México, a Colonia Roma, onde residia então a família de Alfonso, que teria por esta altura não mais de nove anos de idade. Os ecos autobiográficos são assumidos, estão no coração do filme, mas a sua expressão é que é bastante peculiar, tanto narrativamente como pela forma com que a memória pessoal “olha” para a narrativa (ou vice- versa), e é daí que deriva a força do filme.
Porque há um lado onírico neste mergulho noutro tempo e noutro espaço. Não se vê o mundo a partir dos olhos da personagem em que podemos “projectar” Cuarón (um dos miúdos de uma família de classe média confortável, com uma mãe, um pai que depois desaparece, uma avó, e as criadas índias). Está lá, como estão todos, mas o ponto de vista é mais distanciado — até porque, se se conta a história daquele momento da vida da família, a verdadeira “protagonista”, aquela que a câmara segue de mais perto e em mais detalhe, é uma das criadas. O olhar dela sobre a família, certo, olhar “de fora”, por todas as razões, mas um olhar que também pode esta completamente “dentro” (por esse lado, Roma vai ao encontro daqueles filmes, entretanto caídos em desuso, onde a “criadagem” está sempre num lugar bastante móvel). Mas depois, a pergunta: e o olhar sobre a rapariga, Cleo, pertence a quem?
É aí que Roma, no seu melhor, pode ser singularmente intrigante. Pensamos bastante em Gravity, o anterior filme (americano) de Cuarón, passado no espaço sideral e em ausência de gravidade, exercício de “imersão”. Muda o cenário, mas o efeito imersivo continua a parecer essencial: aquelas panorâmicas flutuantes que varrem os décores, por vezes a 360 graus, e que são a figura de estilo mais empregue por Cuarón, parecem ter o propósito de eliminar o “fora de campo”, de nos pôr, espectadores, dentro daquele espaço e tempo, sem uma possibilidade de recuo (o recuo a que, neste caso, equivaleria a possibilidade de se poder imaginar um espaço fora de campo, um espaço não varrido pela câmara).
O resultado disso é interessante, até na ambiguidade que suscita: se aquela câmara parece, frequentemente, movida por um olhar maquinal, um “olhar-máquina” (que remete, via Gravity, para episódios famosos do cinema de ficção científica), noutras ocasiões chega-se de facto a uma atmosfera onírica, ao ambiente de um sonho onde o protagonista (o sonhador, neste caso o espectador) também “flutua”, sem sítio certo, tanto “vê” como “se vê”, está simultaneamente “dentro” e “fora” (como, já agora, as criadas).
É preciso dizer que esta sensação se sustenta também na detalhada reconstituição de época — e que se são impressionantes as cenas de exteriores, em grandes ruas e avenidas da capital mexicana onde 1970 aparece por uma conjunção de “artesanato” e “digital” (é quando todo este artifício evoca o “estúdio”, e faz pensar por exemplo na Las Vegas do One From the Heart de Coppola, que o efeito é mais gratificante), é a riqueza de pormenor dos interiores, onde todas as casas e lugares são como pequenos museus, que é realmente especial. Não deixa, aliás, de ser uma ironia, face à quantidade de “informação visual” contida na organização “em plano geral” de Roma (os grandes planos, os campos fechados, são raros), que este seja um filme da Netflix, a ser maioritariamente visto em ecrãs de computador ou de televisão. Porque, honra seja feita a Cuarón, Roma é feito a pensar nas dimensões e proporções de um ecrã de sala de cinema, e só nessas condições se revelará plenamente. Como naquele formidável último plano, onde cai o genérico de fecho, e o bricolage de sons de ambiente nos transporta, com aquela sensação quase táctil que também é a de certos sonhos, para a Colonia Roma no ano de 1970.

Alfonso Cuarón, a Netflix & etc., João Lopes, RTP Cinemax

Produzido pela Netflix, "Roma", do mexicano Alfonso Cuarón, não estará apenas disponível em "streaming", chegando também às salas escuras — estamos perante uma notável reinvenção das matrizes clássicas do melodrama familiar.
Descobrimos, fascinados, o filme "Roma", de Alfonso Cuarón. Que é como quem diz: em tempos de proliferação de heróis digitais, vale a pena continuar a filmar corpos vivos, gente com alma. Seja como for, face às suas singularidades dramáticas, poéticas e visuais (estamos perante uma admirável fotografia a preto e branco, assinada pelo próprio Cuarón), podemos perguntar: porque é que o cineasta que fez essa magnífica epopeia espacial que é "Gravidade" (2013), se lança, agora, na aventura de revisitar memórias mexicanas do começo da década de 1970 e, mais especificamente, encenar a vida de uma família do bairro de Roma, na Cidade do México?
Em primeiro lugar, Cuarón está a revisitar a sua história pessoal, refazendo esse tempo através de uma visão filtrada pelos olhares das crianças e também, de modo fundamental, pela existência das criadas da família, índias, de origem mixteca. Depois, porque projecto tão especial — e, sobretudo, tão pessoal — encontrou o seu espaço "natural", não no contexto dos grandes estúdios com que Cuarón já trabalhou ("Gravidade" tinha chancela Warner Bros.), mas sim na agenda de produção da Netflix.
Sinais dos tempos: triunfando como plataforma de "streaming", com mais de 130 milhões de assinantes em todo o mundo, a Netflix impôs-se como invulgar máquina de produção — na sua condição de objecto com fortíssimas marcas autorais, "Roma" é um símbolo exemplar da sua evolução, a ponto de a Netflix o querer colocar na corrida aos Oscars (com toda a legitimidade, entenda-se). Daí a novidade tão comentada nas últimas semanas: "Roma" surge também nas salas escuras (se tal não acontecesse, os regulamentos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood fariam com que o filme não fosse nomeável).
Convenhamos que o lançamento comercial de "Roma" acaba por expor uma contradição, bem reveladora das tensões industriais, artísticas e comerciais destes tempos. A saber: este é um genuíno objecto de cinema que, pelas suas maravilhas visuais e também pela sofisticação do seu som, só pode ser totalmente admirado numa tradicional sala de cinema.
Cuarón consegue revitalizar a noção mais clássica de melodrama familiar, sendo particularmente delicado e subtil o modo como sustenta uma dicotomia visceral: por um lado, as relações entre os membros da família e os criados envolvem hierarquias muito claras que, em boa verdade, todos integraram; ao mesmo tempo, por outro lado, as criadas — e, em particular, Cleo, interpretada pela admirável Yalitza Aparicio — desempenham funções eminentemente maternais face às crianças.
Eis um filme, enfim, em que a vibração do espaço (notável aproveitamento do formato scope) e a complexidade do tempo (os momentos de contemplação são mais emocionantes e vertiginosos que as velocidades postiças de muitos super-heróis) nos remetem para um primitivo amor do cinema como linguagem sempre enredada com o factor humano. Que isso aconteça através da Netflix, eis também a revelação — esperemos que quem produz e difunde o cinema descubra as maravilhas de "Roma" e, na defesa dos seus próprios interesses, páre um pouco para pensar.