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PROGRAMAÇÃO:
DEZEMBRO de 2012
Sala de exibições
Pequeno auditório
Casa das Artes de V. N. de Famalicão
Parque de Sinçães - V. N. de Famalicão
O DEUS DA CARNIFICINA de Roman Polanski
Sinopse
Os casais Longstreet (Jodie Foster e John C. Reilly) e Cowan (Kate Winslet e Christoph
Waltz) encontram-se para resolver uma briga entre Zachary e Ethan, os seus filhos de 11 anos.
Porém, se ao princípio tudo parece correr civilizadamente, à medida que a conversa se
desenvolve, um problema mais ou menos insignificante começa a tomar novas proporções, com
os quatro a revelarem mais infantilidade do que os seus próprios filhos que, teimosamente, não
cessam de defender. Mas será que, em algum momento, um deles será capaz de agir como um
adulto e parar aquela "carnificina"?
Realizado por Roman Polanski, uma comédia dramática sobre o comportamento humano, baseada na aclamada peça de Yasmina Reza.
Ficha Técnica
Título original: Carnage (Alemanha / Polonia / França, 2011, 79 min.)
Realização: Roman Polanski
Interpretação: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly
Argumento: Yasmina Reza, Roman Polanski
Produçao: Saïd Ben Saïd
Musica: Alexandre Desplat
Fotografia: Pawel Edelman
Montagem: Hervé de Luze
Distribuição: Lusomundo Audiovisuais
Estreia: 29 de Dezembro de 2011
Classificação: M/12
Pagina Oficial: http://www.sonyclassics.com/carnage/
Críticas
A faca na sala de estar
Luís Miguel Oliveira, Público de 29 de Dezembro de 2011
Um retrato, uma caricatura, da América que, com razão ou sem ela, persegue Polanski há trinta e tal anos...
Eis Polanski de regresso a um dos seus palcos preferidos: o reduto doméstico, a sala de estar, metafórica ou, como é o caso, absolutamente literal. Os exemplos disto, e da conversão de um espaço doméstico em lugar de estranheza e agressão, abundam na sua filmografia e podem ser citados quase ao acaso, porque vai-se lá dar frequentemente - “A Faca na Água”, “Repulsa”, “Death and the Maiden”... O paroxismo é, obviamente, “O Pianista”, história do gueto de Varsóvia, ou de como a selvajaria se instala num lugar familiar, explicitação do trauma fundamental da obra de Polanski, o trauma de uma criança polaca que tinha seis anos em 1939. (E depois, porque Polanski tem um íman a ligar a vida e os filmes, há o que Manson foi fazer a Sharon Tate, em plena sala de estar do casal Polanski...).
Mas bom, nada de tão dramático em “O Deus da Carnificina”, pelo menos aparentemente. Dois casais nova-iorquinos que se reúnem em casa de um deles, para discutirem, muito civilizadamente, uma história que envolveu os filhos pequenos de ambos. O verniz estala, evidentemente, a “civilização” desaparece à medida que os impulsos tomam conta da situação, os impulsos irracionais mas também os racionais (e mesmo ideológicos, sobretudo no caso da personagem de Jodie Foster, paladina de um politicamente correcto de ressonância muito contemporânea), transformados na mesma coisa, na mesma medida de cegueira e frustrações. A sala de estar como palco de um jogo de massacre (“Carnage” é o título original, e o argumento vem de uma peça de teatro de Yasmina Reza), duelo verbal onde a violência se converte em palavras, e onde as palavras são o agente de todos os abusos - até fazerem aparecer outro velho fantasma polanskiano cheio de repercussões: a violação. Conte-se as vezes em que a personagem de Foster (a dona da casa) é, digamos, “violada”, metaforicamente e verbalmente violada. Face à riqueza dos diálogos, e a um grupo de actores impecáveis (Foster, John C. Reilly, Kate Winslet, Christoph Walz), é pena que Polanski, no que toca à “mise-en-scène”, tenha sido tão... confortável. A “découpage” é bastante frouxa, nunca tirando partido da continuidade espácio-temporal da narrativa. Tem-se citado “A Corda” de Hitchcock e faz sentido que se o cite, mas é evidente que Polanski faz o contrário de Hitchcock: “parte” a temporalidade, em vez de lhe dar a consistência física do plano longo, do plano embebido pela tensão da sua própria “durée”. Por outro lado, procedendo assim Polanski como que impede que o espectador se “transporte” para dentro daquela sala, e isso corresponde a um olhar que será, da parte dele, intencional: o filme aprisiona as suas quatro personagens mas nunca está com nenhuma delas, nem como indivíduos nem como grupo, há uma distância, uma distância “escarninha”, em relação a todas elas, à medida que os dois casais se desfazem e recompõem ao sabor de outras afinidades (por exemplo, a espécie de “lealdade” masculina que acaba por aproximar os dois maridos). Polanski não está com nenhuma delas, filma-lhes as ideias e as conversas como se fossem espasmos, ou vómitos (e vómitos, literalmente falando, também há no filme), faz das quatro personagens quatro protótipos, do idealismo de Foster ao “tecnologismo” de Walz (tão “réptil” como no filme de Tarantino), que compõem um retrato das “sensibilidades” que dominam - ou parecem dominar, vistas de longe e através dos “media” - a América contemporânea. É a última coisa que queríamos notar: “O Deus da Carnificina” pode ser visto como um retrato, uma caricatura, da América que, com razão ou sem ela (é irrelevante para o caso), persegue Polanski há trinta e tal anos...
O cinema e o teatro segundo Polanski
João Lopes, Cinemax
O ponto de partida é uma peça de teatro de Yasmina Reza; o resultado é um brilhante exercício de cinema. Ou como Roman Polanski dirige quatro actores em estado de graça.
Embora frequentemente associado a um certo suspense ou aos temas da violência, Roman Polanski nunca foi um cineasta filiado em qualquer género. Quando percorremos a sua filmografia, podemos mesmo encontrar exemplos que vão desde o puro terror ("Repulsa", 1965) até à tragédia histórica ("O Pianista", 2002), passando pela comédia do absurdo ("What?", 1973) ou pelo thriller policial ("Frantic", 1988). Com "O Deus da Carnificina", ele experimenta a sedução do teatro.
A peça de Yasmina Reza em que o filme se baseia pode ser definida como uma comédia de costumes que, a pouco e pouco, se vai transfigurando num drama moral. Ou seja: a agressão de um jovem a um seu colega, na escola, leva os respectivos pais a juntarem-se para discutirem, civilizadamente, a melhor maneira de superar o conflito. Polanski joga contra a facilidade de criar "movimento" para apagar as raízes teatrais do seu texto. No essencial, tudo acontece numa sala de estar, de tal modo que a claustrofobia do original é um elemento fulcral de toda a narrativa.
O essencial joga-se, assim, através de uma perturbação de raiz especificamente cinematográfica: descobrimos e sentimos o espaço como algo que vive ameaçado pela sua decomposição física e emocional. Polanski filma as suas quatro personagens como habitantes de um aquário de palavras em que a (suposta) transparência dos códigos civilizacionais dá lugar a uma (violenta) revelação de toda carga de mentira e hipocrisia que neles se pode escamotear. E não é todos os dias que deparamos com um cast tão brilhante, e tão brilhantemente dirigido. Jodie Foster confirma-se como um "bicho" da arte de representação, colocando em cena uma reivindicação feminina que quer fugir a todas as falsidades; John C. Reilly (no papel do marido) volta a mostrar que é um habitual secundário que merece este tipo de evidência; Christoph Waltz consegue, uma vez mais, colocar em cena a coexistência ambígua da naturalidade e da monstruosidade; enfim, Kate Winslet é genial na amostragem de uma segurança, social e familiar, afinal ancorada numa imensa teia de equívocos.





