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Rodado entre Portugal e o Senegal, atravessando Marrocos e a Mauritânia, YOON lança um olhar sobre determinadas mobilidades e actividades económicas entre Norte e Sul, e que envolvem não só bens e pessoas, mas também informações e ideias. Tudo isto é revelado através dos percursos de Mbaye S., um routier (denominação usada para referir os indivíduos que conduzem carros usados com fins comerciais) que, a cada mês, percorre os mais de 4000 Km de estrada que separam os dois lugares a que chama casa, numa viagem arriscada e solitária para Sul, repleta de (des)encontros, obstáculos e constrangimentos vários, e reveladora de uma complexa rede de relações e de zonas cinzentas. Yoon que em idioma wolof pode significar estrada, caminho ou percurso, é um projecto de longa metragem documental, contando também com uma componente de investigação e projecto artístico. YOON teve estreia no DocLisboa.
O que já vimos do Doc 2021, dá dez a zero a uma edição de 2020 marcada pela pandemia (mas cujos problemas não se lhe podem resumir), e confirma essa ideia de um festival “papa-léguas”; que se cristaliza numa descoberta chamada Yoon (Competição Portuguesa). Um road movie que acompanha 4000 quilómetros de viagem numa carrinha Peugeot 504 a cair de podre, percorridos de Lisboa ao Senegal por Mbaye Sow, “caixeiro viajante” dos nossos dias que leva encomendas da Europa para África e vice-versa.
Pedro Figueiredo Neto e Ricardo Falcão, antropólogos de formação, acompanham a viagem de Sow sem nunca interpelar o condutor nem aqueles que ele cruza; a câmara está presente mas quer-se, na medida do possível, simples instrumento de registo da viagem. É uma posição arriscada, mas Neto e Falcão aguentam-na durante quase hora e meia, construindo uma espécie de retrato a la minuta de um modo de vida milenar transformado pelo mundo novo, mas também de uma ideia de viagem permanente, entre cá e lá, onde às tantas já não é o chegar que interessa mas o partir. Não há nada de turístico nem de exótico em Yoon, são as duas armadilhas que Neto e Falcão evitam; e o que é ainda mais extraordinário é perceber como Yoon se contenta em deixar portas abertas, perguntas sem resposta.
Jorge Mourinha, Publico de 20 de Outubro de 2021