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Leda Caruso é uma professora universitária de meia-idade que se encontra de férias na Grécia. Sozinha, passa o tempo a observar as pessoas à volta, distraidamente, até se tornar quase obsessivamente interessada por uma jovem mãe e a sua filha pequena. Através delas, Leda vê-se de regresso ao passado e à sua experiência enquanto mãe. Isso vai fazê-la reavaliar a sua vida e as decisões, nem sempre fáceis ou justas, que teve de tomar. Com assinatura da actriz Maggie Gyllenhaal (na sua estreia em realização), protagonizado por Olivia Colman e baseado numa obra de Elena Ferrante, um drama psicológico sobre os diversos desafios da maternidade. Com Jessie Buckley, Dakota Johnson, Peter Sarsgaard e Ed Harris a assumirem as personagens secundárias, o filme foi muito bem recebido pelo público e pela crítica, e foi nomeado para os Globos de Ouro de realização e representação (Colman).
Maggie Gyllenhaal e Elena Ferrante: as pessoas más Adaptando Elena Ferrante, Maggie Gyllenhaal faz uma auspiciosa estreia na realização com um filme tenso, desconfortável, inteligente. Jorge Mourinha, Publico de 2 de Fevereiro de 2022 As pessoas más também têm direito à vida. Mas o que define uma “pessoa má”? A certa altura, alguém diz a Leda (Olivia Colman) para não se meter com o clã ruidoso e mal-educado que ocupa a praia grega onde está em férias (de trabalho, mas férias ainda assim): “são pessoas más”. Noutra altura, Leda diz de si própria “sou uma pessoa má”. E se calhar é por isso que Olivia Colman é a actriz ideal para dar corpo a Leda: aquela reticência inglesa, muito bem-criada, a revelar personalidades, combinada com a hiper-sensibilidade em público, o horror do ridículo e da má figura. Tudo é mantido bem escondido, mas é traído/traduzido pelo trabalho de actriz nos pequenos detalhes — um gesto, um olhar prolongado mais do que é suposto, um movimento aqui e ali mais incerto, uma dúvida que não se ouve mas se vê.
Diga-se que Colman tem cineasta à altura para filmar esses pormenores: Maggie Gyllenhaal na sua estreia na realização, confirmando todo o bem que pensávamos dela como actriz. Não é apenas uma questão de dar espaço aos actores; é sobretudo o modo como Gyllenhaal (que também adaptou o argumento a partir do romance de Elena Ferrante) gere habilmente a angústia e a tensão de uma história cuja essência reside no que não é dito nem feito. Do clã ruidoso e mal- educado que toma conta da praia, greco-americanos de Queens com família local, faz parte uma jovem mãe que parece assoberbada pelo simples facto de ser mãe. Leda reage ao desconforto de Nina porque ela própria foi uma jovem mãe assoberbada, e isso destranca portas interiores da sua própria vivência de mãe. Voltamos à tal reticência inglesa, mas não é só isso: A Filha Perdida alimenta-se das expectativas sociais, da ideia de que uma mãe é sempre, primeiro e acima de tudo o mais, uma mãe, o instinto maternal (e, por extensão, a tal questão da “bondade” e da “maldade”) como um dogma maniqueísta, inescapável mas não forçosamente verdadeiro.
Gyllenhaal mantém sempre tensa a corda bamba da ambiguidade, resiste a impor de fora um julgamento sobre o que se passa “lá dentro”, espraia-se no desconforto de Leda (que transmite impecavelmente ao espectador). Tudo isto mesmo que, em última instância, A Filha Perdida explicite em demasia o que vai na cabeça de Leda, não resista a preencher vazios que não precisavam realmente de resposta. É, no entanto, uma estreia francamente auspiciosa: Maggie Gyllenhaal não perde tempo com inutilidades, sabe o que quer dizer e, sobretudo, como o dizer, expressa uma sensibilidade de cineasta. Entre essa inteligência e o desconforto de Olivia Colman, vale a pena ver A Filha Perdida.