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PROGRAMAÇÃO: JULHO de 2012
CINEMA PARAÍSO
(sessões de Cinema ao Ar Livre)
Entrada livre
Sala de exibições
Pequeno auditório
Casa das Artes de V. N. de Famalicão
Parque de Sinçães - V. N. de Famalicão
ATTENBERG de Athina Rachel Tsangari
Sinopse
Marina (Ariane Labed) não é uma rapariga como as outras. Aos 23 anos, vive em quase
total reclusão, tendo apenas por companhia o pai (Vangelis Mourikis), um arquitecto sorumbático
e misantropo, e Bella (Evangelia Randou), a melhor amiga. A sua vida passa-se entre os
documentários de David Attenborough sobre a vida selvagem, a música dos Suicide e Françoise
Hardy e os ensinamentos de Bella sobre a vida sexual, que aprende de maneira pouco ortodoxa.
Até ao dia em que chega à sua pequena cidade um desconhecido (Yorgos Lanthimos,
realizador de "Canino") que lhe mostrará outras maneiras de levar a vida...
Uma comédia negra com argumento e realização de Athina Rachel Tsangari.
Ficha Técnica
Título original: Attenberg (Grécia, 2010, 96 min.)
Realização e Argumento: Athina Rachel Tsangari
Interpretação: Ariane Labed, Vangelis Mourikis, Evangelia Randou, Yorgos Lanthimos
Produção: Maria Hatzakou, Giorgos Lanthimos, Iraklis Mavroidis, Angelos Venetis
Fotografia: Thimios Bakatakis
Montagem: Sandrine Cheyrol, Matthew Johnson
Distribuição: Alambique
Estreia: 26 de Janeiro de 2012
Classificação: M/16
Página oficial: http://www.attenberg.info/
Críticas
Ela vê-se grega para beijar
Jorge Mourinha, Público de 26 de Janeiro de 2012
Uma surpresa vinda da Grécia, sobre uma rapariga que não quer entrar na idade adulta
É significativamente mais confuso perceber o que se passa no cinema grego do que na sociedade grega: a crise, os impostos, a contestação a gente percebe, o que os cineastas fazem é menos unânime, quer sejam as metáforas familiares do “Canino” de Yorgos Lanthimos, quer sejam os beijos lésbicos ou as coreografias Monty Python de “Attenberg”. Sim, leram bem, os beijos lésbicos, porque a primeira coisa que vemos em “Attenberg” são duas mocinhas a beijarem-se de língua e depois a comentarem a experiência. “A tua língua parece uma lesma, vou vomitar”, diz uma.
“Attenberg”, segunda longa de Athina Rachel Tsangari, caiu de pára-quedas em Veneza 2010 e desde então tem vindo a fazer uma carreira internacional que tem dividido a crítica entre a rendição e a rejeição, e faz sentido que assim seja. A realizadora, que estudou nos EUA, vem do experimentalismo e da arte multimedia, pelo que a sua abordagem a esta história de uma rapariga que enfrenta com grande relutância a entrada na idade adulta é tudo menos convencional. Marina nunca beijou, nunca fez sexo, o desejo mete-lhe nojo, não quer ter namorado porque tem medo que a sua melhor amiga lho roube, tem um emprego sem futuro como motorista numa fábrica local numa cidade-modelo que nunca foi modelo para nada, da mãe nunca saberemos porque (ou se) partiu, o pai arquitecto está doente em estado terminal. Não espanta que ela não tenha a certeza de querer tornar-se adulta, mesmo que já tenha 23 anos (ainda por cima na Grécia de hoje, embora o filme, rodado antes da crise grega, não o reflicta directamente). E a cineasta mostra-nos ao mesmo tempo o mundo real que Marina rejeita e o seu próprio mundo privado, onde faz com o pai imitações dos comportamentos dos animais selvagens retratados nos documentários de Richard Attenborough para a BBC, ou faz com a sua melhor amiga coreografias rigorosas (inspiradas pelo “Ministry of Silly Walks” dos Monty Python) ao som dos Suicide e de Françoise Hardy. (Significativamente, Ariane Labed e Evangelia Randou, as duas actrizes, vêm da dança contemporânea...).
Nessa alternância que sugere algo de irreverentemente adolescente, “Attenberg” tem tanto de genuinamente humano e emocional como de deliberadamente confuso e provocador, traindo o controlo preciso e formalista com que Athina Rachel Tsangari conduz a sua história. É um filme que, à imagem da sua personagem principal, concilia uma inegável maturidade criativa com um tactear à procura do melhor meio de a utilizar dentro de um quadro narrativo. Tão provocante como mas bem mais acessível do que “Canino”, “Attenberg” é uma pequena e muito recomendável surpresa que não pode nem deve ser vista como um reflexo da sociedade grega contemporânea - mas que é certamente um bom exemplo do cinema grego contemporâneo.
Cenas da vida selvagem _ ENTREVISTA
27.01.2012 - Francisco Valente
Uma personagem à procura de uma linguagem. Uma cineasta a redescobrir a sua herança cultural. “Attenberg”. O cinema grego encontra o seu momento alto num dos maiores períodos de crise do seu país.
Athina Rachel Tsangari (n. 1966) é um dos nomes centrais do novo cinema grego: produtora de Yorgos Lanthimos ("Kinetta", 2005; "Canino", 2009, estreado em Portugal; e o novo "Alpeis"), é autora de duas longas-metragens ("The Slow Business of Going", 2000; e "Attenberg", exibido no Indielisboa 2011 e agora estreado no nosso país). O seu reconhecimento internacional - competição em Veneza 2010 e o prémio de melhor actriz para Ariane Labed (no papel de "Marina") - tem dado à Grécia uma atenção diferente das notícias sobre a crise. Mas "Attenberg" é também um olhar sobre as falhas de uma geração arruinada.
Depois de vários anos a estudar cinema e viver nos EUA, Tsangari regressou ao seu país para dar sequência ao seu trabalho. Redescobrir a Grécia e a sua língua foi, também, a forma de construir a sua linguagem cinematográfica. "Fui para a Grécia e escrevi ‘Attenberg' numa residência de escrita em dez dias", explica. "Confrontei-me com uma página em branco e o desafio de pensar na minha língua materna, o que já não acontecia há doze anos."
Marina, personagem principal, procura também a sua linguagem dentro das formas de relacionamento em família, na amizade e no amor. Foi aí que a realizadora encontrou também a sua relação com a herança cultural grega. "A relação entre pai e filha tem a ver com o meu estudo sobre a tragédia grega, algo que faz parte do nosso inconsciente colectivo", diz.
Mas "Attenberg" oferece também o seu olhar sobre uma aprendizagem das formas de representação no cinema. "[O filme] tem parte da estrutura do western, que é influenciado pela tragédia grega. Mas tem também estrutura de musical, uma mutação da ópera, e esta é também uma mutação da tragédia grega."
Contudo, o universo de "Attenberg" não assenta apenas em várias heranças - oferece também uma reapreciação. "As personagens das tragédias gregas são rebeldes, fortes e opinativas. Marina é isso: o arquétipo de uma rapariga que não sucumbe a nenhuma imagem do que deve ser. Ela decide que não se quer parecer com os outros, prefere perceber-se enquanto animal antes de se transformar num humano." Marina treina o que poderiam ser beijos com a sua melhor amiga, interroga o seu amante em pleno acto sexual ou experimenta formas de andar do universo dos Monty Python. Como alguém que procura a sua cultura sem assumir alguma como autêntica.
Mas a inspiração principal de Marina está nos documentários de David Attenborough (que dá título ao filme), alguém que procurou, nas suas expedições pela vida selvagem, o comportamento das primeiras formas de vida. "Douglas Sirk fez um filme chamado ‘Imitação da Vida', e é nesse lugar em que Marina está, imita-a até decidir entrar nela." Attenborough é também um fascínio da realizadora. "É incrível como medeia os mundos [selvagem e humano] de forma natural e respeituosa. É inspirador: tem uma ternura científica esperta, não é manipulador e não nos diz como nos devemos sentir." O cinema que mais marcou Tsangari tinha isso: "Godard e Fassbinder, Kubrick ou Cassavetes."
Grécia, uma ficção científica
O local escolhido para filmar "Attenberg" - um cenário industrial falhado - assemelha-se a uma certa cidade fantasma. "Tinha a ideia de montar a Grécia neste local de distopia que não sabemos se existe ou se é imaginado", explica a realizadora, remetendo-nos para o valor de uma herança cultural que, outrora, foi o berço de uma civilização, mas que se reduz, perante a catástrofe da sua sociedade, a uma virtual irrelevância. "O filme foi feito numa cidade artificial criada em meados dos anos 60 por uma companhia francesa. Foi a primeira cidade modernista na Grécia. Era o tipo de cidade que queria provar a si mesma e ao mundo que a Grécia era um país contemporâneo que pertencia ao Ocidente. Essa ideia já acabou, por isso a geração de Spyros, o pai de Marina, está a viver essa desilusão. [Actualmente], estou a desenvolver um guião que é exactamente sobre a ideia de Europa, uma outra história de ficção científica."
Spyros encontra-se a braços com uma doença terminal - estado físico e mental de um país à beira do abismo. "A Grécia passou literalmente dos pastores para os banqueiros e para a corrupção, sem sequer passar por uma revolução industrial", diz Tsangari. "Em cinquenta anos, passámos de uma colónia otomana para entrar na União Europeia. Haverá um momento em que teremos de nos confrontar com isso." Segundo a realizadora, a geração do seu pai "vive essa perda, sente algo de suicida neste momento."
"A minha geração está de identidade perdida, tal como a de Marina. Pergunta-se quem são: animais ou humanos, terceiro ou primeiro mundo?"
A situação do cinema grego encontra-se numa posição semelhante à do cinema português. "É muito difícil fazer filmes porque o centro de cinema grego está fechado e não há dinheiro público ou privado." Não há "uma lei do cinema que conceda créditos fiscais ou que permita investidores privados darem dinheiro a projectos para receberem reduções fiscais. Há uma lei que já foi votada mas que não foi posta em prática. Isso torna a nossa vida muito difícil, é algo bastante masoquista." Mas "Attenberg" revela que, por trás de uma crise, existem corpos e identidades a crescer. "O que a Grécia está a passar é um pouco aquilo que o pai do filme vive, sentindo-se feliz por estar a morrer. Toda uma era está a morrer, e o que está a dar à filha é a alegria do fim de alguma coisa e talvez um princípio a partir do zero."










