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PROGRAMAÇÃO: JUNHO 2015

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Ciclo Paulo Rocha – Cinema Mundo (parte I)

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Casa das Artes de V. N. de Famalicão
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O PAÍS DAS MARAVILHAS de Alice Rohrwacher

Sinopse

É Verão na Toscana (Itália) e a família de Gelsomina sobrevive da apicultura. Wolfgang, o pai, é um alemão pessimista de ideias muito próprias. Apesar da sua juventude, é Gelsomina quem comanda a lógica familiar. As suas três irmãs mais novas obedecem-lhe e trabalham sob as suas ordens. Enquanto o campo está a ser destruído pelos pesticidas e a vida dos enxames a alterar-se a cada dia, um programa de televisão chega àquele lugar, oferecendo um prémio à família mais tradicional. O concurso das maravilhas rurais é apresentado por Milly Catena, uma mulher belíssima por quem as crianças se deixam deslumbrar. Gelsomina quer participar na competição, mas o pai proíbe-a. Nesse momento, o patriarca aceita Martin em sua casa, um rapaz vindo de um programa de reinserção social. A tensão entre o forasteiro e Gelsomina sente-se a cada momento, mas ela está determinada a mostrar a sua força. De tal modo que, no final daquele longo Verão, tudo para eles será diferente...

Vencedor do Grande Prémio do júri no Festival de Cinema de Cannes, um filme dramático assinado pela realizadora italiana Alice Rohrwacher ("Corpo Celeste"). O elenco conta com Maria Alexandra Lungu, Alba Rohrwacher (irmã da realizadora), Sam Louwyck, Monica Bellucci e Luis Huilca, entre outros.

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Ficha Técnica

Título original: Le Meraviglie (Itália / Suiça / Alemanha, 2014, 110 min.)
Realização e Argumento: Alice Rohrwacher
Interpretação: Alba Rohrwacher, Margarete Tiesel, André Hennicke, Monica Bellucci
Som: Christophe Giovannoni
Montagem: Marco Spoletini
Fotografia: Hélène Louvart
Produção: Carlo Cresto-Dina, Karl “Baumi” Baumgartner, Tiziana Soudani, Michael Weber
Distribuição: Midas Filmes
Estreia: 25 de Março de 2015
Classificação: M/12

O espectáculo da natureza
Luís Miguel Oliveira, Público de 25 de Março de 2015

Há algum tempo que não víamos “o campo”, a ruralidade, a entrarem num filme de maneira tão expressiva e tão palpável, a ponto de se tornarem a sua matéria.

Ainda sem sabermos que a família protagonista de O País das Maravilhas se dedica à apicultura já estamos a pensar em abelhas ou, vá lá, em insectos: aqueles planos iniciais, os faróis de um automóvel a iluminarem a noite e a sugerirem um bicho alado, suspenso no ar.

Não é que seja um pormenor especialmente significativo, mas indicia qualquer coisa: a enorme intenção, e a enorme atenção, que a jovem realizadora italiana Alice Rohrwacher pôs neste filme que é a sua segunda longa-metragem de ficção.

O País das Maravilhas é um relato de inspiração auto-biográfica, a história de uma família que vive um modo de vida “alternativo”, com uma certa rigidez ideológica (a personagem do pai), algures na paisagem rural da Toscana. O pai, a mãe e as crianças formam uma espécie de pequena “comuna”, partilhando as responsabilidades do trabalho diário e da condução da família, a ponto de a filha mais velha, com nome de personagem de Fellini (Gelsomina), se vir investida da liderança familiar. A questão da autoridade é um dos temas do filme, dada, como muita coisa em O País das Maravilhas, em tensão e em contraste. Tensão e contraste, nesse caso, entre o fundamento ideológico – a recusa teórica de uma autoridade absoluta e “natural” por parte do pai – e a autoridade efectiva, e efectivamente paternal, que ele revela ao proibir a miúda mais velha de concorrer a um concurso televisivo sobre “maravilhas rurais” (a televisão também é uma entidade pouco grata naquela família). Se este é o conflito subjacente à narrativa, ele vem lançar, ou servir de diapasão, outro conflito essencial, que seria resumidamente o que opõe a “natureza” e o “espectáculo”. O filme de Rohrwacher tem a subtileza e a inteligência suficientes para também virar esses termos do avesso, e conter tanto uma reflexão sobre o “espectáculo da natureza” – todas, e são muitas, as cenas em que o que está em causa é a relação entre aquelas pessoas e o ambiente em que vivem, o campo, os lagos, as abelhas e os outros animais – e a “natureza do espectáculo”, as cenas de rodagem do tal programa televisivo (onde pontifica a maior vedeta do elenco, Monica Bellucci), dadas desde o primeiro momento a partir do seu carácter artificial e artificioso (todo o aparato da produção). Será este, porventura, o ponto em que o filme, depois de chamar Gelsomina (que, recorde-se, era o nome da personagem de Giulietta Masina em A Estrada) à sua protagonista, mais entra dentro dum território aparentado ao fellinianismo, mas que também convoca – a partir da reconstituição do tempo dos Etruscos – uma espécie de subconsciente telúrico, como que uma assombração cultural daquelas terras.

Mas ainda assim, notável é o modo como Rohrwacher filma o “espectáculo da natureza”, a presença dos elementos, o calor do Verão e a humidade da chuva súbita, o à-vontade dos miúdos (e dos adultos) a fazerem “corpo” com o ambiente natural. Lembramo-nos de um texto de Serge Daney, ainda nos anos 80, a comentar a tendência para a desaparição do campo no cinema contemporâneo, cada vez mais urbanizado (e se isto era verdade nos anos 80, mais o será nos anos 2010) – e lembramo-nos disso porque, de facto, há algum tempo que não víamos “o campo”, a ruralidade, a entrarem num filme de maneira tão expressiva e tão palpável, a ponto de se tornarem a sua matéria. Não exclusiva, claro: a festa não fica completa sem os humanos, sem a profunda impressão de realidade exalada por aquela família, as cenas de conjunto, em paz ou em tensão mas sempre cheias de souplesse, e a forma como daqui se vai recortando uma protagonista, Gelsomina, que atravessa o filme a crescer e, sem nunca verdadeiramente se rebelar, a encontrar-se enquanto criatura autónoma, dotada de vontade e... autoridade.

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