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PROGRAMAÇÃO: Abril 2017

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A MORTE DE LUÍS XIV, de Albert Serra

Sinopse

Em Agosto de 1715, Luís XIV – o rei absolutista de França e Navarra, também conhecido como rei-Sol – começa a sentir fortes dores numa perna. Apesar de continuar a exercer as funções de governante, o seu estado de saúde agrava-se rapidamente. Cada dia mais fraco, vê- se rodeado por médicos, que se esforçam por encontrar um meio de o curar, assim como vários membros da corte. Porém, a 1 de Setembro desse mesmo ano, depois de semanas agonizantes devido ao desenvolvimento de gangrena, acaba por morrer. Termina assim um reinado de 72 anos, um dos mais longos da história europeia. Com a morte do rei-Sol, é Luís XV, o bisneto de apenas cinco anos (que mais tarde viria a merecer o cognome de Bem-Amado), quem herda a coroa francesa.

Assinado pelo realizador catalão Albert Serra ("Honra de Cavalaria", "O Canto dos Pássaros", "História da Minha Morte"), este filme é uma co-produção entre Portugal, França e Alemanha. Com Jean-Pierre Léaud como protagonista (homenageado com a Palma de Honra na edição de 2016 do Festival de Cinema de Cannes, onde "A Morte de Luís XIV" foi apresentado numa sessão especial), conta ainda com a participação de Patrick d'Assumçao, Marc Susini, Bernard Belin, Vicenç Altaió e Irène Silvagni, entre outros.

Download do Dossier

Ficha Técnica

Título original: La mort de Louis XIV (Espanha/Portugal/França,2016,115 min.)
Realização: Albert Serra
Interpretação: Jean-Pierre Léaud, Patrick d'Assumçao, Vicenç Altaió, José Wallenstein, Filipe Duarte
Argumento: Thierry Lounas, Albert Serra
Fotografia: Jonathan Ricquebourg
Montagem: Ariadna Ribas, Albert Serra, Artur Tort
Produção: Joaquim Sapinho, Thierry Lounas
Estreia: 12 de Janeiro de 2017
Distribuição: Rosa Filmes
Classificação: M/12

O cinema na intimidade do Rei Sol
João Lopes, DN

Através de uma coprodução que envolve França, Espanha e Portugal (Rosa Filmes), somos convocados para uma visita guiada à intimidade do Rei Sol, acompanhando a sua lenta agonia. Filme histórico, por excelência, apetece dizer que se trata também de um exercício anti-histórico, desafiando todas as convenções "descritivas". O espanhol Albert Serra - que conhecemos, por exemplo, através de O Canto dos Pássaros (2008) - propõe uma observação clínica em que o poder absoluto se faz representação absoluta, consagrada no misto de vulnerabilidade e imponência do corpo de Luís XIV. Que seja um ator como Jean-Pierre Léaud a assumir essa pose, eis o que acrescenta estranhas e fascinantes ressonâncias simbólicas. Afinal de contas, ele nasceu para o cinema como criança filmada por François Truffaut, em Os 400 Golpes - foi em 1959.

O eclipse do "Rei-Sol"
Luís Miguel Oliveira, Publico de 12 de Janeiro de 2017

É um filme duma ambientação extraordinária, a iluminação e o décor a procurarem o mergulho plausível numa corte do século XVIII, e onde tudo conflui para o rosto do rei, o rosto de Léaud, feito "Rei-Sol-Negro".

Há duas histórias em A Morte de Luís XIV. Uma é, efectivamente, a descrita no título, a morte do "Rei-Sol", durante longos dias em que uma ferida gangrenada na perna se revela fatal. Tudo nessa história se concentra e se fecha sobre o corpo e o rosto de Jean-Pierre Léaud, que é absolutamente magistral. “Minimalista”, porque construída com recursos escassos e pouquíssimas derivas narrativas ou episódicas, essa história (o melhor seria dizer essa “exposição”) é vivida em termos humanos (um homem a compreender que a morte está a chegar) e em termos simbólicos – um monarca omnipotente confrontado finalmente com um poder maior do que o seu, para o qual nem ele, nem ninguém tem remédio, e que torna todas as suas prerrogativas e todos os seus privilégios em manifestações de uma vaidade terrena, transitória e muito fútil. É o caso da cena em que o rei, indisposto a meio da noite, pede que lhe tragam água e depois se recusa a bebê-la porque não veio servida num copo de cristal. O cerimonial do poder contra a morte sem cerimonial: não há spoiler nenhum, sabemos como acaba, o próprio título o diz (como a célebre história de Tolstoi A Morte de Ivan Ilyich, que o filme de Serra tanto lembra). O que conta é o processo interior com que um rei aceita a sua mortalidade “niveladora”, que o torna igual a todos os outros homens.

A outra história, que aborda um tema que Serra já tinha desenvolvido no seu filme anterior, A História da Minha Morte, é a do confronto do racionalismo com um poder fora do seu alcance, mas que ele ainda acredita conseguir dominar. A “razão científica”, representada pelos médicos e académicos chamados a acudir ao rei, que em diálogos que têm tanto de tocante como de comic relief (quase absurdo) expõem hipóteses e perplexidades e vivem também eles uma espécie de aprendizagem da impotência. Faz todo o sentido que nessas cenas impere a personagem do charlatão (certamente não por acaso, Vicenç Altaió, o actor que fazia de Casanova no filme anterior) e o seu discurso aceitador e “panteísta” – é o único que percebe que a única maneira de vencer a morte é aceitá-la, e integrá-la como coisa natural.

Serra filma isto duma forma absolutamente concentrada e orgânica. Se reconhecemos temas, se reconhecemos o gosto pela história, pela literatura e pelas figuras da história e da literatura, talvez ele nunca tenha conseguido dar essas figuras duma maneira tão perfeitamente coral, uníssona, sem digressões ou apartes. É um filme duma ambientação extraordinária, a iluminação e o décor a procurarem o mergulho plausível (em vez da distância) numa corte do século XVIII, e onde tudo conflui para o rosto do rei, o rosto de Léaud, feito "Rei-Sol-Negro". Tudo nele, o mais pequeno movimento de pálpebras, o mais leve tremelicar do queixo, é um acontecimento. E é todo o acontecimento deste filme em que, sem nada realmente se passar, há sempre alguma coisa para ver. Nem um só momento de tédio: é o melhor filme de Albert Serra.

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