CINECLUBE DE JOANE

Novembro 2019
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Claire Denis
7 NOV 21h30
de Pedro Costa
14 NOV 21h45
de João Maia
21 NOV 21h45
de Bong Joon Ho
28 NOV 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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28 21h45

PARASITAS Bong Joon Ho Traz Outro Amigo Também

Ki-taek tem uma família unida, mas estão todos desempregados e as suas perspectivas futuras são negras. O filho Ki-woo é recomendado por um amigo – que frequenta uma prestigiosa universidade – para dar explicações bem pagas, o que vem desencadear a esperança de um rendimento regular na família. Portador das expectativas familiares, Ki-woo dirige-se à casa dos Park para uma entrevista de trabalho. Chegado à casa do Sr Park – dono de uma empresa global de tecnologia informática – Ki-woo conhece Yeon-kyo, a bela e jovem dona da casa. Este primeiro encontro entre as duas famílias vai provocar uma imparável cadeia de incidentes. Palma de Ouro no Festival de Cannes

Título Original: Gisaengchung (Coreia do Sul, 2019, 132 min)
Realização e Argumento: Bong Joon-ho
Interpretação: Song Kang-ho, Lee Sun-kyun, Cho Yeo-jeong, Choi Woo-shik
Produção: Kwak Sin-ae, Moon Yang-kwon, Jang Young-hwan
Musica: Jeong Jae-il
Fotografia: Hong Kyung-pyo
Montagem: Yang Jin-mo
Estreia: 26 de Setembro de 2019
Distribuição: Alambique Filmes
Classificação: M/12
O cheiro a rabanete velho Luís Miguel Oliveira, Publico de 25 de Setembro de 2019

Um dos filmes mais perturbantes, e mais sintomáticos dum mal estar moderno, que se poderão ver este ano.
Da Coreia do Sul e de Bong Joon-ho (A Criatura, Memories of Murder, Snowpiercer) chega o olhar mais mortífero e mais eivado de uma ironia negríssima visto em muito tempo sobre um tema clássico mas caído em desuso no cinema ocidental: as questões de classe. São eles, os pobres, os desempregados, os desapossados, os “parasitas”, na figura da família que nos é apresentada nas cenas iniciais. Vivem numa cave atravancada, com uma janelinha ao nível da rua aonde os bêbedos vêm urinar, e dedicam-se àquele “parasitismo” comum dos tempos modernos que consiste em tentar aproveitar o wi-fi dos vizinhos.
Depois, arranjam um esquema para que todos — um a um: pai, mãe, filho, filha — se empreguem, em tarefas serviçais na casa da mesma família de classe alta, o que implica inventar maneiras de fazer despedir os infelizes que lá trabalhavam antes nas mesmas tarefas. É o primeiro sinal da enorme violência contida no filme de Bong: os parasitas parasitam, mas não há lugar para todos parasitarem ao mesmo tempo e por isso têm que se eliminar uns aos outros. As incidências da narrativa levarão isto ao extremo, em cenas de uma violência quase cartoon, mas firmemente mantida sob controlo por Bong Joon-ho, que nunca deixa o filme descambar para o irrealismo nem para as metáforas balofas.
O alto e o baixo, a luz e os subterrâneos, a vida à superfície (os privilegiados) e a vida nas profundezas, numa espécie de invisibilidade (os “parasitas”) são elementos que pontuam o filme, visualmente, num extravasar de significados que não chegam a ser “metafóricos”. O domínio do sensível impera — não há apontamento mais cruel, nem mais humilhante, do que aquele em que o pai da família rica se queixa de que o motorista (que é o pai da família “parasita”) cheira a “rabanete velho”, que é o cheiro que se sente “nas pessoas que andam de metro”. Todos os complexos de classe (para cima ou para baixo) se resumem nessa frase e nessa ideia, a dum cheiro que “cruza a linha” (como diz o pai rico).
Mas, sinal da inteligência de Bong, não há verdadeiramente vilões, a família abastada é feita de gente simpática e de comportamentos ou preocupações apenas levemente caricaturais. Se a violência os toca, é quase como um ricochete: são os pobres, os parasitas, que se matam uns aos outros por um lugar na cave dos ricos, e isto é absolutamente literal.
Retrato corrosivo e devastador — da sociedade sul coreana, mas facilmente “importável” para as sociedades ocidentais — de um mundo onde o capitalismo cumpriu o que o socialismo prometeu (esbater, através de truques de ilusionismo, a noção de uma sociedade classista), Parasitas, rima curiosa para outro filme asiático recente (o Shoplifters de Kore-eda), é um dos filmes mais perturbantes, e mais sintomáticos dum mal estar moderno, que se poderão ver este ano.