CINECLUBE DE JOANE

Novembro 2019
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Claire Denis
7 NOV 21h30
de Pedro Costa
14 NOV 21h45
de João Maia
21 NOV 21h45
de Bong Joon Ho
28 NOV 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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14 21h45

VITALINA VARELA Pedro Costa

Vitalina Varela, 55 anos, cabo-verdiana, chega a Portugal três dias depois do funeral do marido. Há mais de 25 anos que Vitalina esperava o seu bilhete de avião. Um filme de Pedro Costa, que venceu a mais recente edição do Festival de Locarno, arrecadando, além do Leopardo de Ouro, o prémio de melhor actriz para Vitalina Varela.

Título original: Vitalina Varela (Portugal, 2019, 124 min.)
Realização e Argumento: Pedro Costa
Interpretação: Vitalina Varela, Ventura, Manuel Tavares Almeida, Francisco Brito, Imídio Monteiro, Marina Alves Domingues
Fotografia: Leonardo Simões
Som: João Gazua
Montagem: João Dias, Vítor Carvalho
Produção: Abel Ribeiro Chaves
Estreia: 31 de Outubro de 2019
Distribuição: Midas Filmes
Classificação: M/12

Pedro Costa
Nascido em Lisboa em 1959, largou os seus estudos em História para assistir a aulas do poeta e realizador António Reis na Escola de Cinema. A sua primeira longa-metragem, O Sangue, teve a sua estreia mundial no Mostra di Venezia de 1989. Casa de Lava, o seu segundo filme, rodado em Cabo-Verde, foi exibido no Festival de Cannes. Os seus outros filmes incluem Ossos, No Quarto da Vanda e Juventude em Marcha, que compõem a trilogia das Fontaínhas. Realizou ainda Onde Jaz O Teu Sorriso?, acompanhando o trabalho de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub e Ne Change Rien com a actriz Jeanne Balibar. Integrou a longa-metragem colectiva Centro Histórico, a par de Manoel de Oliveira, Aki Kaurismäki e Víctor Erice. O seu mais recente filme Cavalo Dinheiro conta com um assinalável percurso internacional, tendo recebido um Leopardo de Ouro para Melhor Realização no Festival de Locarno de 2014.

Vitalina dos Espíritos (ou como Pedro Costa sobressaltou o Festival de Locarno) Jorge Mourinha, Publico de 14 de Agosto de 2019

Vitalina Varela, o novo filme do cineasta português, é um sério candidato ao Leopardo de Ouro. E merecem-no: o realizador, o filme e a mulher que lhe deu o nome.
Vitalina Varela chegou tarde; já não foi a tempo de assistir ao funeral do marido. Vitalina Varela, o filme, chega já na recta final da competição do Festival de Locarno e confirma o que já se desconfiava: está aqui um dos mais fortes (se não o mais forte) candidato ao Leopardo de Ouro. Porque é Pedro Costa a trabalhar, outra vez, como mais ninguém no cinema contemporâneo trabalha, com a sua habitual combinação de minúcia diabolicamente precisa (na expressividade pictural dos enquadramentos, das fontes de luz, de cada plano, de cada momento) e de depuração radical até nada mais restar a não ser uma essência. Uma essência que, graças a Vitalina, traz uma nova intensidade ao seu cinema.
Vitalina Varela, o filme, é indissociável de Vitalina Varela, a mulher, talvez a presença mais forte, mais intensa, mais imponente do cinema de Costa desde sempre (sem desprimor para Vanda ou para Ventura – que, aliás, tem papel importante no filme). O cineasta admitiu isso mesmo na conferência de imprensa desta manhã em Locarno: “Vitalina é muito mais real do que eu, do que você, do que nós; ela é demasiado real para um certo tipo de realidade que me faz falta quer no cinema, quer na vida real.” Foi em Cavalo Dinheiro (2014), onde a actriz já entrava, que se cruzaram: “Era a primeira vez que nos encontrávamos, ainda estávamos a conhecer-nos.” Desta vez foi outra história, conduzida por ela: “Quando começámos este filme, nunca escrevemos realmente um guião: falámos, tomámos notas, começámos a trabalhar, a ensaiar cenas. Ela escreveu este filme, muito mais do que eu. Porque tudo o que se passa neste filme aconteceu-lhe a ela. O meu trabalho foi apenas o de conter, comprimir, organizar as histórias.”
Vitalina é uma sobrevivente. Uma mulher que parece vir do nada e que atravessa e convoca todos os espíritos que se passeiam pelo bairro — com a memória das Fontaínhas —, num nocturno expressionista requintadamente cuidado; uma mulher forte à solta num mundo de homens fracos, uma mulher que sofreu e ergue o seu sofrimento como arma, como escudo, como enxada, uma mulher que enfrenta os homens – vivos ou mortos – como Joan Crawford enfrentava todos em Johnny Guitar. Explica Costa: “Quando conheci a Vitalina, ela estava muito infeliz porque todos os homens na sua vida a abandonaram. Para ela, os homens são uns fracos, estúpidos, uns cobardes; para ela, até a morte é uma espécie de cobardia. E ela tenta vingar algo de que não consegue desfazer-se. Mas nunca está triste. Está furiosa, sim, porque se pergunta por que é que toda a gente que a ama acaba por ir-se embora. Acontece a todos nós.”
Em Vitalina Varela, fala-se muito com os mortos. A própria maneira como Costa filma estas personagens, estes locais que persegue desde há muito tempo, sugere que é um filme de fantasmas, um filme assombrado pelo que já não existe (“para mim, os filmes nunca são apenas sobre uma pessoa, são sobre um local, uma comunidade onde quero estar”, dirá aos jornalistas). Mas o autor de O Sangue (1989) recusa que este seja um filme de fantasmas, apesar de o seu ponto de partida ser a chegada a Portugal de Vitalina, tarde de mais para assistir ao funeral do marido que não via desde que a abandonara em Cabo Verde e nunca mais lhe dera notícias. “Num cemitério, não estamos realmente a olhar para o túmulo de uma pessoa, estamos a contemplar o fim, e é uma situação na qual nunca temos muita paz. É difícil filmar essa situação, é muito nervoso. E é verdade que neste filme há muitas conversas com os mortos, mas eles não estão lá, não respondem, o que Vitalina acha uma cobardia.”
“No fundo, o filme é uma conversa connosco próprios, Vitalina está a conversar consigo própria. Os únicos fantasmas que existem são os homens que recusam falar, aparecer, responder”, continua o cineasta. Vitalina torna-se “num espelho”, “uma reflexão do sítio onde vive" (o filme foi lá rodado). E também um reflexo “das mulheres": “Vitalina não é uma mulher, são muitas mulheres. E ela quis fazer este filme, passar por esta experiência. É um milagre ter pessoas dispostas a ter esse tipo de envolvimento.”
Tal como é um milagre que Pedro Costa continue a fazer seu o mundo do cinema – Fritz Lang, sim, muito; Jacques Tourneur, ainda e sempre, mas menos; Carl Dreyer na combinação de paganismo e religião que em Vitalina Varela se sente – e a transformá-lo noutra coisa, com um gesto que se limita a parar para ver, mais do que para olhar. É por acontecimentos como Vitalina Varela que Pedro Costa tem o culto que tem – ninguém no mundo filma assim, conta histórias como estas desta maneira. Não sabemos ainda onde colocar Vitalina Varela na obra do cineasta – é mais denso, de digestão mais lenta, do que Cavalo Dinheiro por exemplo –, mas sabemos, desde já, que está aqui um dos filmes incontornáveis de 2019, goste-se ou não. O Leopardo de Ouro é possível; Vitalina merece-o.