Siga-nos no Facebook / Twitter!

PROGRAMAÇÃO:
JANEIRO de 2013

Filme
JAN
3
Foto
Claude CHABROL

Filme
JAN
10
Foto
Jeff NICHOLS

Filme
JAN
16
Foto
Jacques DEMY
* ENTRADA LIVRE!

Filme
JAN
17
Foto
Agnés VARDA
* ENTRADA LIVRE!

Filme
JAN
24
Foto
Manoel DE OLIVEIRA

Filme
JAN
31
Foto
S. BORGES e M. DIAS
* TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM!

Sala de exibições Pequeno auditório
Casa das Artes de V. N. de Famalicão
Parque de Sinçães - V. N. de Famalicão

bottom corner
 
   

O GEBO E A SOMBRA de Manoel de Oliveira

Sinopse

Apesar de viver no limiar da pobreza, Gebo continua a sua actividade de contabilista para sustentar Doroteia, a mulher, e Sofia, a nora. A existência daquelas três pessoas é triste e monótona, girando à volta da ausência de João, o filho, que ninguém sabe onde está ou as razões por que partiu. Apesar do velho senhor tentar encontrar maneiras de aliviar o sofrimento das duas mulheres, parece que nada consegue minimizar as suas dores. Até que, sem que já ninguém o esperasse, João regressa. E é a partir daquele momento que o equilíbrio familiar, já de si frágil, se rompe, dando origem a uma catástrofe....

Baseado na peça homónima de Raul Brandão (1867-1930), escrita em 1923, a mais recente obra do mestre Manoel de Oliveira é um retrato da pobreza, da honestidade e do sacrifício.

O "Gebo e a Sombra" teve a sua estreia mundial no início de Setembro, em dias sucessivos, no Festival de Veneza e na Cinemateca Francesa em Paris - onde a obra do realizador passou numa retrospectiva integral.

Download do Dossier

Ficha Técnica

Título original: Gebo et l'Ombre (França/Portugal, 2012, 95 min)
Realização e Argumento: Manoel de Oliveira
Interpretação: Claudia Cardinale, Jeanne Moreau, Leonor Silveira, Ricardo Trêpa, Luís Miguel Cintra
Produção: Sandro Aguilar, Antoine de Clermont-Tonnerre, Martine de Clermont-Tonnerre, Luís Urbano
Fotografia: Renato Berta
Montagem: Valérie Loiseleux
Distribuição: Zon Lusomundo
Estreia: 11 de Outubro de 2012
Classificação: M/12

Críticas

Os bas-fonds
Luis Miguel Oliveira, 11 de Outubro de 2012

Um filme magnífico, um grandíssimo Oliveira. Chapéu, Sr. Manoel

Terá dito Oliveira, conforme citado algures, que foi em resposta a uma sugestão de que fizesse “um filme sobre a pobreza” que se lembrou de adaptar O Gebo e a Sombra de Raul Brandão. A “pobreza”, e o seu tema associado, o “dinheiro”, já tinham visitado, mais este do que aquela, a sua antepenúltima longa, Singularidades de uma Rapariga Loura (a partir de Eça, mas com a moeda convertida em euros); e havia uma espécie de pobreza, a pobreza espiritual de um mundo falho de imaginação, excessiva e tristemente real, no filme que se lhe seguiu, O Estranho Caso de Angélica, onde tudo era tão cinzento que o protagonista preferia a fantasia mórbida, mas mágica e promissora, que vinha com o sorriso de uma morta. São dois filmes excelentes, como excelente é O Gebo e a Sombra, que cruza estes títulos anteriores: fala do dinheiro - “o dinheiro nunca se perdoa”, frase escrita há quase um século, mas tão terrível quando pronunciada aqui e agora, em Portugal 2012 - e da sua escassez, mas também da irredimível pobreza de um mundo “aquém”, de um mundo “encolhido”, que faz pensar imenso no Cavalo de Turim de Tarr e no que teria acontecido àquele pai e àquela filha depois de já não haver luz, nem espaço, nem nada.

Neste mundo dos pobres tal como O Gebo e a Sombra o desenha, também não há luz (sempre na penumbra, noites e dias sucedendo-se sem distinção) nem espaço (tão exíguo que não permite mais do que uma meia dúzia de posições de câmara diferentes). Mesmo se plasticamente é notável, uma coisa belíssima: a fotografia de Renato Berta faz maravilhas com a iluminação e com essa sombra em todos os sentidos omnipresente, e não exageramos se dissermos que desde que o cinema se tornou assunto essencialmente “digital” ainda não tínhamos visto uma imagem assim, tão rica nas temperaturas e nas texturas, tão complexa na própria organização e definição do espaço (aqueles planos em que duas personagens dialogam de frente para a câmara, e há uma terceira a ouvi-las na penumbra da profundidade de campo).

A “sombra” de Gebo (Michael Lonsdale), modesto e dúctil cobrador de uma empresa qualquer, é o seu filho, desaparecido há oito anos, em busca de outra vida para além da pobreza, mas presumivelmente também para além da aceitação da pobreza como “moral”, que Gebo professa dir-se-ia religiosamente (ele que diz que um homem pode ser honesto e honrado, ou então “tentar enriquecer”). Essa sombra materializar-se-á quando o filho (Ricardo Trêpa) torna a casa, pelo tempo suficiente para se revelar - numa figura com o seu quê de nietzscheano - a antítese moral do pai. Mais ainda do que o roubo, é o seu discurso brutal, a rebentar qualquer moralidade, perante aquela atónita plateia (a família e os vizinhos) de gente que tem na pobreza um ideal de honradez, a cena mais impressionante e violenta de todo o filme, anunciada pela gargalhada, “diabólica”, do momento do seu regresso. Violenta também pela ambiguidade da sua crítica à docilidade da pobreza e dos pobres (ele não vem só de outra vida, traz também outra voz), ambiguidade reforçada ainda pelo facto de a personagem ser interpretada por Trêpa, que tem sido, de modo mais ou menos evidente consoante os casos, o “duplo” de Oliveira dentro dos seus filmes. Mas a história do filme - que termina no final do terceiro dos quatros actos da peça de Brandão, e é genial que o faça - é a da transformação de Gebo na sua própria sombra. O momento em que a policia chega é o único momento em que a luz do sol penetra naquele tugúrio, e portanto o único momento em que Gebo, de frente para a luz do sol, projecta uma sombra. Torna-se nela, na dúvida, angustiante, paralisante (como o “paralítico” que imediatamente imobiliza a imagem e se mantém por grande parte do genérico de fecho), de que tudo terá sido “inútil”, de que sempre foi pobre e podia não ter sido, de que a pobreza pode ser uma mentira tão ilusória como a abastança, de que havia talvez uma outra vida algures, para ele, para a mulher (Claudia Cardinale), para a filha-nora (Leonor Silveira). É um final terrível, terrificante - decididamente, nunca se sai a rir de um filme de Oliveira.

Mas sorri-se bastante, ao longo da hora e três quartos da sua duração. Pela delicadeza e graça com que Oliveira condimenta a austeridade da sua mise-en-scène, e pela delicadeza, em estado de graça, do seu sexteto de actores - faltava mencionar Luís Miguel Cintra e Jeanne Moreau, que chegam para saborear o gosto do saké, perdão, do café quente, na maravilhosamente amena cena de conjunto que antecede o trauma que por sua vez prepara a tragédia. A tragédia do bas fonds: discutir-se-á se Brandão está mais próximo de Gorki do que Oliveira está de Renoir, mas Gebo e a Sombra também lembra bastante a adaptação do russo que o francês fez nos anos 30, Les Bas Fonds e que Oliveira certamente viu - o seu filme parece que lhe “responde”. Em todo o caso, um filme magnífico, um grandíssimo Oliveira. Chapéu, Sr. Manoel.

O bem e o mal, a verdade e a mentira
Joao Lopes, Cinemax

Na sua 31a longa-metragem, Manoel de Oliveira filma o poder desagregador do dinheiro: "O Gebo e a Sombra" adapta a peça homónima de Raul Brandão, com um elenco que inclui Claudia Cardinale e e Jeanne Moreau.

O que é (o que pode ser) um filme falado em francês a partir de um texto teatral de Raul Brandão? O que é (o que pode ser) um filme que reune actores portugueses (Luís Miguel Cintra, Leonor Silveira, Ricardo Trêpa) e não portugueses (Michael Lonsdale, Claudia Cardinale, Jeanne Moreau)? O que é (o que pode ser) um filme fechado na teatralidade do seu espaço, a ponto de decorrer quase todo no cenário claustrofóbico de uma sala?

Pois bem: pode ser (é por certo) um filme-filme, quer dizer, um objecto de cinema, não um exercício vendido a qualquer retórica televisiva. É, acima de tudo, um filme em que a intensidade das palavras serve para expor as clivagens mais fundas dos destinos humanos, aí onde os valores e as crenças, a coesão social e a unidade familiar começam a vacilar.

"O Gebo e a Sombra" é a 31a longa-metragem de Manoel de Oliveira. E o mínimo que se pode dizer é que, na sua depuração formal, conserva e, de algum modo, intensifica a fidelidade do cineasta a alguns princípios radicais: primeiro, que o naturalismo atrai os fantasmas; segundo, que as palavras são mecanismos de revelação, tanto quanto de ocultação; enfim, que a identidade de cada indivíduo é um aparato instável e frágil que faz com que cada um oscile sempre entre o bem e o mal, a verdade e a mentira.

Em boa verdade, o teatro nunca foi estranho ao trajecto de Oliveira desde que, em "Acto da Primavera" (1963), filmou uma representação popular da Paixão de Cristo. Não porque, como diz o lugar-comum demagógico, isso encerre o seu cinema numa mera "ilustração" do texto escrito... Basta observar a paciente arquitectura de montagem de "O Gebo e a Sombra" para compreender a serena musicalidade das formas narrativas de Oliveira.

Acontece que, para Oliveira, o teatro não é o contrário da vida, mas uma espécie de recorte interior do vivido: como se, nas relações com os outros, cada um de nós não fosse mais do que a personagem incauta de uma ficção cujo encenador está ausente.

Certamente não por acaso, ao retomar o texto de Raul Brandão, Oliveira sublinha o que nele decorre de uma desencantada visão do dinheiro e dos seus poderes de desagregação do factor humano. Nessa medida, "O Gebo e a Sombra" é um objecto que apela às mais variadas ressonâncias simbólicas. Por isso mesmo, pelo arrojo temático e pela sofisticação formal, este é um filme totalmente envolvido com as convulsões do seu/nosso presente.

bottom corner