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PROCUREM ABRIGO de Jeff Nichols

Sinopse

Curtis (Michael Shannon) é um homem grato pelo que a vida lhe reservou: casou com a mulher que ama (Jessica Chastain), tem um emprego razoável e uma filha que, apesar da sua surdez, é uma criança alegre e cheia de vida. Tudo se altera quando, sem razão que o justifique, começa a ter um pesadelo recorrente onde uma tempestade cataclísmica destrói tudo à sua volta. Obcecado com a segurança, decide construir, em segredo, um abrigo para si e para a sua família. Porém, incapaz de controlar o pânico torna-se, a cada dia que passa, de mais difícil convivência, deixando todos à sua volta preocupados e ressentidos com o seu comportamento. Consciente da sua obsessão e da possibilidade de tudo ser resultado de graves alucinações da sua mente, Curtis luta entre duas possibilidades: uma tempestade colossal para a qual nenhum deles está preparado e que os levará à morte e a sua própria esquizofrenia.

Escrito e realizado por Jeff Nichols ("Histórias de Caçadeiras"), o filme ganhou o prémio 50th Critics' Week Grand Prix e Fipresci na edição de 2011 do Festival de Cannes.

Download do Dossier

Ficha Técnica

Título original: Take Shelter (EUA, 2011, 120 min.)
Realização e Argumento: Jeff Nichols
Interpretação: Michael Shannon, Jessica Chastain, Shea Whigham
Musica: David Wingo
Fotografia: Adam Stone
Montagem: Parke Gregg
Produção: Tyler Davidson, Sophia Lin
Distribuição: Zon Lusomundo
Estreia: 17 de Maio de 2012
Classificação: M/12

Críticas

Visões-ficções
Jorge Mourinha, Publico de 17 de Maio de 2012

O segundo filme do americano Jeff Nichols é um enorme filme, impressionista e onírico, sobre a crise

Sobre Histórias de Caçadeira, a sua excelente estreia, o cineasta americano Jeff Nichols dizia ser “um filme de Sam Peckinpah sem a violência”. Se fôssemos a seguir essa lógica, Procurem Abrigo seria uma história de Stephen King sem sangue nem criaturas sobrenaturais, porque ao que interessa ao jovem realizador não é trabalhar um género mas sim, de modo quase impressionista, trabalhar a personagem no seu ambiente, contar uma história que não poderia ter lugar noutro sítio. Tal como Histórias de Caçadeira só podia existir no Sul profundo dos EUA que se mantém teimosamente rural e familiar, também a lenta desintegração do mundo de Curtis, bom pai, bom operário, bom marido de um cantinho do Ohio, só podia ter lugar num turbulento corredor de tornados e tempestades da América profunda habitada por gente normal - porque são essas tempestades que alimentam os pesadelos de Curtis.

Mas há também algo em Procurem Abrigo que transcende inevitavelmente esse ruralismo que nos fez “encaixar” Jeff Nichols ao lado de Lance Hammer, Kelly Reichardt, David Gordon Green (entretanto convertido ao cinema de massas) ou do “papa” deles todos que é Terrence Malick. Esse algo é a dimensão onírica, quase psicótica, dos pesadelos meteorológicos de Curtis, que tanto pode ser sintoma de doença mental (herdada da mãe) como de uma crise maior. E é aqui que as coisas se tornam interessantes: essa crise maior tanto pode ser económica como social, mas é sempre metáfora de uma comunidade à deriva, perdida, insegura do seu papel e do seu local. Que o mesmo é dizer, Curtis (uma interpretação de estarrecer, toda em filigrana, de Michael Shannon) é o americano médio confrontado com o apocalipse, quer ele seja a incerteza do pós-11 de Setembro ou o pragmatismo de pôr a comida na mesa e dar o melhor à família com a recessão a bater à porta. E se dar-lhes o melhor implicar arriscar tudo, sem saber se é loucura ou precaução? E aquele final ambíguo, é contágio ou confirmação?

Pouco interessa, porque a questão foi colocada e Jeff Nichols não está necessariamente interessado em dar-lhe uma resposta cabal. Antes em envolver-nos sem darmos por isso neste quotidiano quase trivial e fazer-nos sentir a dúvida metódica que o próprio Curtis sente em relação às suas visões (ficções?). Histórias de Caçadeira era uma estreia inteligente, seguríssima; Procurem Abrigo é um grande passo em frente, um filme tranquilamente inquietante, atento às vibrações mais ínfimas do ser humano. Podemos dizê-lo sem riscos: temos cineasta.

Cinema para o fim do mundo
João Lopes, Cinemax

Depois de "Histórias de Caçadeira", Jeff Nichols volta a surpreender com "Procurem Abrigo": em cena está uma América profunda em confronto com a sua própria desagregação simbólica.

Jeff Nichols (33 anos, nascido em Little Rock, Arkansas) é mesmo um original. Um filme, "Shotgun Stories/Histórias de Caçadeira" (2007), bastou para o definir como um caso à parte no interior da produção independente americana.

Agora, tem já a sua terceira longa-metragem, "Mud", na competição de Cannes. Pelo meio, em 2011, também em Cannes, venceu a Semana da Crítica com esse filme incrível (finalmente nas salas portuguesas) que dá pelo nome de "Take Shelter/Procurem Abrigo".

Para não simplificarmos demasiado as coisas, digamos que aquilo que está em jogo é nada mais nada menos que o fim do mundo. Algures, numa terrinha esquecida do Ohio, um pai de família (Michael Shannon) vai observando com crescente apreensão alguns sinais (chuvas ácidas, nuvens ameaçadoras, etc.) que interpreta como irremediavelmente apocalípticos... a ponto de construir no jardim de sua casa um abrigo para se refugiar com a mulher (Jessica Chastain) e a filha (Tova Stewart).

O que está realmente a acontecer pode ter fortes relações com sinais de esquizofrenia do próprio pai. Aliás, a personagem é tanto mais trágica quanto pressente esses sinais... Em todo o caso, este não é exactamente um "retrato psicológico", mas sim uma saga em que o cinema começa no espaço familiar para desembocar numa dimensão cósmica em que todos os contornos do real se tornam incertos, fluidos e indecifráveis.

Jeff Nichols propõe, assim, uma espécie de realismo surreal em que o feitiço se vira contra o feiticeiro, vazendo-nos vacilar face à instabilidade simbólica do mundo. Certamente não por acaso, o filme pode também ser visto como uma actualização do modelo do clássico drama familiar ("fordiano", por exemplo), agora transfigurado em território de inquietante desconhecimento.

No limite, "Procurem Abrigo" é uma parábola sobre uma América profunda que já não se pode refugiar na mitologia clássica da família. Tempos difíceis e um cinema à altura das suas dificuldades.

(Pode encontrar Entrevista a Jeff Nichols no Dossier em PDF)

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