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OS AMORES DE ASTREA E DE CELADON de Eric Rohmer

Sinopse

Numa floresta maravilhosa, no tempo dos druidas, o pastor Celadon e a pastora Astrea amam-se de um amor puro. Enganada por um pretendente, Astrea dispensa Celadon que, por desespero, se atira a um rio. Ela pensa-o morto, mas ele é secretamente salvo por ninfas. Fiel à sua promessa de não reaparecer aos olhos da sua bela, Celadon deverá superar provas para quebrar a maldição. Louco de amor e de desespero, cobiçado pelas ninfas, envolto de rivais, obrigado a disfarçar-se de mulher para conviver com aquela que ama, saberá ele fazer-se reconhecer sem quebrar a sua jura?

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Ficha Técnica

Titulo Original: Les Amours d'Astrée et de Céladon (França/Itália/Espanha, 2007, 109 min)
Realização e Argumento: Eric Rohmer
Interpretação: Andy Gillet, Stéphanie Crayencour, Cécile Cassel
Produção: Françoise Etchegaray; Philippe Liégeois; Jean-Michel Rey
Música: Jean-Louis Valéro
Fotografia: Diane Baratier
Montagem: Mary Stephen
Distribuição: Leopardo Filmes
Classificação: M/12 anos

Críticas

Passe de magia
Por Jorge Mourinha, Público

Dificilmente se esperaria de um rebuscado texto literário do século XVI sobre os amores contrariados de pastores e pastoras gaulesas do século V que se tornasse numa farsa de "boulevard" rodada em cenários naturais.

Mas é esse o passe de magia que Eric Rohmer faz, ao pegar num dos episódios de um obscuro épico de Honoré d'Urfé para deles fazer um divertimento leve e subtil e ao transmutar a sua imagem de academismo bafiento em peróla preciosa de uma elegância muito francesa. Não estamos se calhar tão longe dos "Contos Morais" ou das "Comédias e Provérbios" que fizeram o nome de Rohmer - afinal, tudo gira à volta do desejo entre a impulsiva Astrea e o constante Celadon, e das confusões que esse desejo arranja; o que o cineasta faz, com uma modéstia desarmante, é transplantar o desejo e as confusões para um universo féerico de faz-de-conta medieval, iluminado pela luz solar da Natureza. É um dos mais belos filmes que vamos ver este ano.

Por Luis Miguel Oliveira, Público

Estamos tão habituados às estruturas seriais em que se organiza boa parte da obra de Eric Rohmer que quase involuntariamente nos pomos a fazer aproximações entre o que nos aparece "desirmanado". E assim sendo, não resistimos a notar que, desde que terminou, em finais dos anos 90, a série dos "Contos das Quatro Estações", o octogenário cineasta não voltou a pôr os olhos na época contemporânea em que se passa a maior parte dos seus filmes. De então para cá, só filmes de "época" - "A Inglesa e o Duque" (2001), na Revolução francesa, "Agente Triplo" (2004), na Paris dos anos 30, e agora "Os Amores de Astrea e Celadon", que leva a questão da representação histórica a um pequeno paroxismo irrisório (?).

Trata-se de uma adaptação de uma história escrita em princípios do século XVII por Honoré d''Urfé, ambientada entre os gauleses que, no século V, viviam (dir-se-ia que "irredutivelmente", como na BD) à margem do Império Romano e da sua aculturação. Numa legenda introdutória, Rohmer explica que tentou retratar esses gauleses tal como eles eram imaginados no século XVII - o que cria um "abismo" interessante entre camadas de representação, mas mais ainda funciona como uma caução histórica que é invocada para ser imediatamente atirada fora. O que Rohmer quer é que "Astrea e Celadon" seja a exploração descomplexada de um universo poético- mitológico, e que não o chateiem com a "História".

Um mundo arquetípico composto por pastores, druidas e ninfas, no qual o cineasta não perde um segundo (fora a dita legenda) a esforçar-se para que o espectador "acredite". Com um investimento cenográfico mínimo (décors naturais, adereços quase nenhuns), o único traço "de época" visível é o guarda-roupa envergado pelos actores. Nesta perspectiva não estamos longe dos "filmes de toga" de Straub-Huillet, embora Rohmer procure outro tipo de investimento narrativo (não deixando por isso de preservar uma gota de artificialismo na relação entre actores e personagens - "Astrea e Celadon" também podia ser, e de certa maneira é, um "documentário" sobre uma "troupe" de actores amadores a representarem um texto teatral). A questão que nos ocupa durante o primeiro quarto de hora é: como é que o universo de preocupações rohmerianas se vai inscrever neste universo despreocupado, feito de passeios bucólicos, festas e canções? Ora isso é a história de Astrea e Celadon. Desconfiada da infidelidade de Celadon (que ele nega terminantemente), Astrea proíbe-o de lhe voltar a aparecer pela frente. Desesperado, Celadon atira-se ao rio. Salvo por um grupo de ninfas que o transportam para o seu castelo, Celadon viverá daí em diante no dilema entre tentações e princípios: ser fiel ao amor por Astrea (que implica ignorar o apelo carnal das ninfas) e, mais difícil ainda, recuperá-lo respeitando a interdição decretada pela rapariga.

Como tantas personagens de tantos filmes de Rohmer, estas vivem obcecadas por questões de ética e moral comportamental, confrontando-as, na mesma intensidade auto-justificativa das personagens dos "Contos Morais" ou das "Comédias e Provérbios", com aquilo que as ameaça (em termos simples, o que se opõe a esse excesso de consciência é o desejo: "o inconsciente é o corpo", como, desconfiado da psicanálise, Rohmer uma vez explicou). As personagens discutem a própria "essência" do amor, e há no filme um cantorbufão- fauno que só lá está para isso, com a mesma profundidade com que o druida expõe as diferenças entre os deuses romanos e os deuses gauleses, numa pequena aula de teologia sobre a impossibilidade de haver mais do que um Deus. Mesmo neste território bucólico e mítico, tudo é razão e tudo é racionável, mas ao mesmo tempo tudo está sempre ameaçado pelo confronto com o mundo - mas que importa isso, se haverá sempre uma nova explicação, e mesmo Astrea chegará ao fim convencida de que foi por intervenção divina (e porque "as palavras fazem coisas") que Celadon, na formidável sequência final, se re-materializou à sua frente? Como variação vagamente paródica do universo rohmeriano típico, "Os Amores de Astrea e Celadon" é um filme tocado pela graça. Essa graça terá uma explicação, mas para já, desfrutemos.

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