CINECLUBE DE JOANE

Novembro 2020
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Atendendo à situação de calamidade estabelecida no âmbito da pandemia da doença covid-19, foram aplicadas um conjunto de "medidas especiais" aos 121 municípios com mais restrições, onde se inclui a obrigatoriedade de encerramento dos equipamentos culturais às 22h30.

Assim, e até alteração da situação vigente, as sessões promovidas pelo Cineclube de Joane na Casa das Artes de Famalicão passam a ter início às 19h00.


Programa mensal

de Werner Herzog
5 NOV 19h00
de Nanni Moretti
12 NOV 19h00
de Paulo Carneiro
19 NOV 19h00
de Oliver Laxe
26 NOV 19h00

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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5 19h00

FAMILY ROMANCE, LLC. Werner Herzog


sessão em parceria com o festival binnar que inclui a actuação da contrabaixista italiana Caterina Pallazzi, com uma performance de música e projecção do artista F. Sccachiolli

A Family Romance LLC. é uma empresa que oferece serviços muito peculiares: actores que podem substituir os clientes em situações de necessidade, sejam elas profissionais ou pessoais. Yuichi Ishii, um dos funcionários, tem agora a responsabilidade de substituir o pai desaparecido de Mahiro, uma menina de 12 anos que enfrenta graves dificuldades em lidar com a ausência paterna. \ Reflexão sobre a solidão, isolamento e artificialidade nas sociedades modernas, este é um drama ficcional, de inspiração documental, realizado pelo veterano Werner Herzog ("Grizzly Man", "Rescue Dawn - Espírito Indomável", "Polícia sem Lei", "Rainha do Deserto").

Título original: Family Romance, LLC. (EUA, 2019, 89 min.)
Realização, Argumento e Fotografia: Werner Herzog
Interpretação: Mahiro Tanimoto, Ishii Yuichi
Produção: Roc Morin
Musica: Ernst Reijseger
Montagem: Sean Scannell
Distribuição: Legendmain Filmes
Estreia: 12 de Março de 2020
Classificação: M/12
Family Romance, LLC: alugam-se memórias, afetos e ... identidades Hugo Gomes, C7nema

Werner Herzog abdica da sua tão celebre (e satirizada até à exaustão) narração naquele que é possivelmente um dos seus filmes mais espirituosos e ternos dos últimos anos.
Partindo em viagem para às metrópoles japonesas, Tóquio como destino assumido, o cineasta alemão vai ao encontro de algo bizarro segundo a perceção ocidental: uma empresa onde é possível alugar um "familiar", um "amigo" ou qualquer outra forma de afeição. Isto, num país onde a solidão é mais que tudo, uma parte integra da rotina, da existência e do individualismo silenciado. Todavia, nem todos desejam viver sob esses sacrifícios coletivos em prol da nação e, como tal, a "Family Romance, LLC" foi criada para responder às necessidades de alguns.
Ideia inconcebível para quem, como é o caso de muitas realidades da ala ocidentalizada do mundo, a noção de família ou de intimidade são territórios sagrados e indissociáveis à natureza do indivíduo. Herzog vem para alimentar os mitos de exotismo e estranheza quase nos antípodas da sociedade japonesa, e através disso busca a alma do negócio e - por sua vez - o abalo sísmico para com o mesmo. No epicentro desse mesmo estudo está Yuichi Ishii, presidente executivo da empresa que é requisitado para uma das mais árduas tarefas da instituição (contratado por uma mulher solitária para pretender ser o pai da sua filha adolescente).
Por mais bizarro e incomodo que este filme aborde, durante a sua investigação, os efeitos desse isolamento afetivo apenas resolvido pela farsa, manifestam-se as consequências existenciais de Ishii, que questiona constantemente a sua posição enquanto ser humano e a verdadeira essência da sua alma, contagiada pelas diversas vidas de passagem (o próprio compara-se com um camaleão e procura na ideia fixada da morte a resposta para os seus males).
O profissionalismo e rigor pelo qual os japoneses são mundialmente encarados são ingredientes que valham para a cedência do ator improvisado em relação ao seu bem-estar. Mas nem sempre essa camada supostamente fria é impenetrável. Herzog, que começa por interessar-se pelo negócio e o seu processo de execução, abdica (mais uma cedência!) do seu caso de estudo para acompanhar esta crise identitária e as necessidades que vão sendo descobertas em Ishii. A partir daí, o filme encena-se em prol de um teatro de crueldade e de martirologia, pois para consolidar almas inquietas e quebradas pela distância sentimental, o nosso protagonista imola a sua felicidade, o conforto de um lar, os afetos genuínos, e não somente dramatizados. Um dos melhores filmes de Werner Herzog nos últimos 10 anos.