CINECLUBE DE JOANE

Maio 2022
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Audrey Diwan
5 MAI 21h45
de António da Cunha Telles
12 MAI 21h45
de Hilal Baydarov
19 MAI 21h45
de Joseph Losey
26 MAI 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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19 21h45

Entre a Morte Hilal Baydarov

O jovem Davud deixa a sua casa e parte em busca de uma família que dê alento e sentido à sua vida. Durante as 24 horas de um dia, vai-se cruzando com pessoas que lhe mostram a inconstância da existência. Até que, resignado, decide regressar ao lugar onde sempre viveu. Ali, ele encontra o verdadeiro amor. Mas, agora, pode já ser demasiado tarde. Um “road movie” realizado por Hilal Baydarov (cineasta de Baku, capital do Azerbaijão, que foi aluno de Béla Tarr em Sarajevo) que, com este filme se estreou na competição de Veneza. A produção executiva cabe ao mexicano Carlos Reygadas e à norte-americana Joslyn Barnes.

Título original: In Between Dying (Mexico/EUA/Azerbaijão, 2020, 88 min.)
Realização e Montagem: Hilal Baydarov
Interpretação: Orkhan Iskandarli, Rana Asgarova, Huseyn Nasirov
Argumento: Hilal Baydarov, Rəşad Səfər
Produção: Elşən Abbasov, Hilal Baydarov, Carlos Reygadas, Joslyn Barnes
Fotografia: Elşən Abbasov
Música: Kənan Rüstəmli
Distribuição: Legendmain
Estreia: 11 de Junho de 2021
Classificação: M/14
Hilal Baydarov entre a terra e o céu _ entrevista ao realizador Há sinais do film noir e do road movie: um tipo foge, a mafia persegue-o. Ele anda atrás do Amor, as mãos acabam sempre sujas de sangue. In Between Dying é este vaivém entre o céu e a terra, entre o transcendente e os gangsters de série B. O que importa no filme de Hilal Baydarov é esta incerteza. Vasco Câmara, Publico de 11 de Junho de 2021 Hilal Baydarov passou das ciências à música, e da música à poesia e ao cinema. Entre as medalhas de torneios liceais de matemática em Baku, capital do Azerbaijão, e a escola de cinema de Béla Tarr em Sarajevo, liderou a equipa do Azerbaijão em olimpíadas de informática, tirou o seu master em Ciências Informáticas. A procura era sempre a mesma. “Cedo demais”, segundo o próprio, começou a perguntar pelo sentido da vida. Hilal Baydarov tem hoje 34 anos.
“Desde criança que penso na vida, no que ando a fazer aqui. Desde a juventude que estou obcecado com isso”. Não é que a matemática, a poesia, a música e agora o cinema lhe tivessem respondido de forma definitiva. Mas, estando “tudo muito ligado”, em cada uma dessas áreas experimentou a mesma “incerteza”, a mesma “escuridão” da vida. “E é a incerteza que nos dá inspiração, a incerteza na viagem pelo desconhecido. Os meus filmes são sempre isso”.
Inspiremo-nos então na incerteza de In Between Dying/Entre a Morte. É a segunda longa- metragem de ficção do cineasta do Azerbaijão, depois de Hills Without Names (2018). Um e outro são os dois extremos de um intervalo que estava a ser preenchido com documentários, e sempre viajantes e sempre caminhantes e ainda regressos a casa no fim desse périplo, como em When the Persimmons Grew que o DocLisboa 2019 exibiu. Não se pode com isto escamotear, no entanto, que para Baydarov “não há diferença entre a ficção e o documentário” e que ele só compreende se fez uma coisa ou se fez outra quando está na mesa de montagem a trabalhar sobre o seu material. Neste momento, por exemplo, está a trabalhar na pós-produção do próximo filme, Crane Lantern, que, tal como este In Between Dying, tem produção executiva do mexicano Carlos Reygadas. Por isso é uma da madrugada em Lisboa quando Hilal Baydarov nos fala a partir da Cidade do México.
A comédia e a vida
Inspiremo-nos então na incerteza de In Between Dying. Isso quer dizer o quê? Que cada espectador deve estar na experiência sem se precipitar a declarar do que é que ela trata. Na versão do intérprete do filme, Orkham Iskandarli, e recordando o que disse em conferência de imprensa no Festival de Veneza onde In Between Dying competiu, esta coisa de ver filmes deve implicar “matar o ego” e “não fazer perguntas, ou então não se sente o ritmo”. O que pode ser então In Between Dying? Podemos chegar lá pelo género? Sim, há marcas do film noir e do road movie, porque há um tipo que foge e uns tipos da mafia que o perseguem. Nessa viagem circular de um dia que parece abranger o mundo, Davud, é esse o nome da personagem interpretada por Orkham Iskandarli, deixa o odor de sangue em tudo aquilo em que toca. O sangue acontece-lhe. É involuntário, fica-lhe nas mãos.
Mas Davud é, simultaneamente, uma personagem atraída por algo de matricial: um amor redentor que não é certo que exista fora da sua mente. O Amor. Eis então quadros elegíacos, com a mulher amada, a família, um cavalo, como se tivessem sido directamente libertados por O Sacrifício (1986), de Andrei Tarkovsky, para virem pairar sobre a caminhada de Davud. Como um vaivém constante entre o céu e a terra, o género “transcendental” paira sobre estes gangsters de série B. Baydarov não faz cerimónia alguma e nesta conversa vai directo a pièces de resistance. “Tenho problemas com os realizadores de agora. Tento trazer de volta a tradição do art cinema, Bresson, Bergman, o grande Tarkovsky, Dreyer, Mizoguchi, Sokurov, que me ensinou muito...” Mas é da promiscuidade entre os opostos, a terra e o céu — as pantomimas do thriller vs. a gravidade cerimoniosa do art cinema, por exemplo, tal como o dostoievskiano Davud ao ir atrás dos quadros mentais do Amor acaba a mostrar que haverá sangue — que In Between Dying encontra a sua linguagem.
Como propunha Orkham Iskandarli, o ritmo, o ritmo... é ir por aí, oscilando entre o movimento peripatético das figuras, as suas armas e suas acrobacias, e a voz interior com o seu fluxo da poesia. De onde resulta uma vibração cómica, burlesca mesmo, que resgata o que aqui se passa ao cerimonioso “filme de festival” como fenómeno endogâmico e de copycat.
Sim, não podemos rasurar a impressão humorística. É marca de selvajaria do filme. Também da sua ternura. Aqueles pobres e beckettianos mafiosos que perseguem Davud estão igualmente em aventura existencial. Chegam tarde, quando já há sangue, e cabe-lhes, como a um coro, explicar o que acabou de se passar e o que os deixou tão perplexos quanto o espectador.
Hilal Baydarov partilha que a contradição viva é regra da vida e uma das leis do seu corpo. “A vida está cheia de contradições, algo que obedece à grande lição dos romancistas russos. Quis que isso coubesse no filme. Penso, por exemplo, em Dostoiévski que dizia que se não contássemos com a comédia na vida só ficaríamos então com o drama. Na vida real gosto de entertainment, com os meus amigos e com a minha família. Mas não sei o que se passa depois com o cinema, quando pego numa câmara de filmar: começo logo a pensar em coisas pesadas. Não posso fugir deste dilema, não posso fugir de mim próprio”.
Sempre on the road
Não fujamos dele, aproximemo-nos. Algumas coisas a saber sobre Hilal Baydarov (mesmo não sabendo delas pressentimo-las ao ver o filme). Nunca filma um script. “Só escrevo frases”. Quando se junta com os actores, que são também seus cúmplices ou amigos (Orkham Iskandarli tem mesmo sido o seu duplo), ninguém sabe onde a estrada os levará e que outras estradas se abrirão nas montanhas que encontram enquanto procuram o filme, os seus diálogos e situações. Davud, o nome da personagem, era o nome com que Hilal, em jovem, assinava os seus poemas.
“Tenho de confessar: somos a mesma pessoa, Davud sou eu. Não há diferença entre a minha vida e a das personagens. Davud é também o nome que chamavam a Orkham Iskandarli, que é meu amigo. Davud sou eu e é ele. E a mãe do filme é a minha própria mãe. Somos um grupo de pessoas, pegamos na câmara e partimos. E ao encontramos as paisagens definimos as personagens. É preciso o elemento surpresa. Sem surpresa não há arte. Detesto as coisas calculadas. Estivemos sempre on the road. O acidente de moto [em que às tantas se envolve Davud] é real, aconteceu-nos”. Por isso, também, uma mesma actriz interpreta três personagens que Davud encontra durante a viagem. “Não consegui encontrar mais ninguém. Verdade.”
Com o seu “não há diferença entre a minha vida e a das personagens” está bem entendido que o realizador de In Between Dying não se expõe a confessar qualquer envolvimento com a mafia do Azerbeijão. Está é a dizer que a sua vida e a da sua família e amigos são uma base para a fantasia que é um filme. “É claro que há filmes realistas de temática social. Mas esses não me interessam. O que me interessa é o sonho. Todas as personagens e todas as cenas não são reais. São um sonho.”
Já quanto ao “devemos fazer um filme que nos magoe” — a pergunta era: porquê sempre os restos de thriller nos seus filmes? —, não quisemos lutar contra a opacidade dessa resposta já que ela lhe fica tão bem.
Há mais: Hilal, como certamente se percebe já pelo rol de idiossincrasias, não é homem para jurar pela distinção entre actores profissionais e não profissionais. “Os melhores actores são a minha mãe e o meu amigo. Para mim os actores são actores. Não vejo diferença entre os que fazem disso profissão e os que não fazem. Tal como não vejo diferença entre documentário e ficção. É- me difícil falar com certas pessoas. Isto é: há pessoas com quem falo mas com quem me seria muito difícil filmar. Porque é um processo difícil. Podemos estar semanas sem filmar nada e de repente, em 30 minutos, surgir a hipótese de filmarmos tudo. Para a maior parte das pessoas isto será muito aborrecido: estarmos todos juntos à espera que algo nos surpreenda. Mas temos de estar preparados para isso. Imagine eu dizer a um ‘actor profissional’: ‘não há nevoeiro, vamos antes dar uma volta’”.
Não sabemos dizer sobre o que é In Between Dying. Talvez seja um documentário sobre a procura de um sentido para um encontro entre um realizador, elementos da sua família e amigos. Em que, claro, haverá sangue.