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Philippe Lemesle atravessa um período particularmente terrível da sua vida. Director de uma multinacional, vê-se pressionado para despedir 58 trabalhadores. Apesar da sua posição delicada, faz o que pode para proteger os seus funcionários, tentando encontrar outros modos de economizar sem pôr em causa os empregos. Mas toda a dedicação à empresa, especialmente a pressão destes últimos meses, causou um grande afastamento da mulher, que lhe pediu o divórcio, e do filho instável de ambos. Com argumento e realização de Stéphane Brizé (“Em Guerra”, “A Lei do Mercado”), um filme dramático que fala sobre a pressão do trabalho na vida pessoal e da necessidade de priorização. O elenco conta com a participação de Vincent Lindon (também protagonista de “A Lei do Mercado”), Sandrine Kiberlain, Anthony Bajon, Marie Drucker e Guillaume Draux.
Da vida dos extraterrestes modernos (e liberais) De que mundo aqui se fala? Dos gabinetes de empresa que são como cápsulas espaciais, sem ligação a mais nada a não ser à sua própria entropia. Luís Miguel Oliveira, Publico de 16 de Junho de 2022 Um Outro Mundo, chama-se o novo filme de Stéphane Brizé, retomando um conhecido slogan da esquerda mundial dos últimos anos mas parando antes da sua conclusão — a parte em que se diz que esse “outro mundo” é “possível”. Um título “truncado”, portanto, que pode ser uma medida do pessimismo de Brizé (e é-o certamente), mas que também pode ser lido (sem quereremos perder demasiado tempo com jogos semânticos) de maneira mais descritiva: é “outro mundo”, quase outro planeta como nos filmes de ficção científica, aquele que o seu filme mostra, o mundo dos gabinetes e corredores da administração da delegação francesa de uma grande multinacional americana. Para o comum mortal, é como estar a ver e ouvir extra-terrestres, representantes efectivos de “um outro mundo” completamente desligado da realidade humana, palpável e conhecida. E esse é um dos temas do filme, provavelmente o seu tema central.
Mas, antes de lá irmos, recapitulemos um pouco. Stéphane Brizé tem sido um observador constante e impiedoso do mundo laboral sob as regras do capitalismo liberal (ou neoliberal, ou ultraliberal, ou como se lhe queira chamar), e Vincent Lindon o seu intérprete de eleição. Foi ele o protagonista do excelente A Lei do Mercado e do não tão conseguido Em Guerra, filme anterior. É importante notá-lo porque Um Outro Mundo é um pouco o reverso de Em Guerra, ou pelo menos põe Lindon num papel simetricamente oposto: em Em Guerra ele era um dirigente sindical em luta contra o programa de despedimentos iniciado pela empresa em que trabalhava, em Um Outro Mundo ele é um executivo que foi encarregado de delinear um programa de despedimentos. É como se Brizé passasse Lindon para o outro lado do espelho. Mas fosse, na mesma, incapaz de o tratar mal. Lindon, mesmo se “colonizado” pelo pensamento e pela linguagem dos extraterrestres para quem trabalha, permanece humano, e o movimento do filme encaminha-o para a redescoberta da sua humanidade (ou, se quisermos ser menos grandiloquentes, para a descoberta mais simples de uma dignidade que há muito tinha esquecido que podia existir dentro dele) — um entorno pessoal, com um divórcio complicado e um filho com distúrbios psiquiátricos bastante graves, que o filme trata como “paragens” angustiantes (o divórcio é aliás a primeira “paragem”: o filme abre com a cena de uma reunião de Lindon com a mulher e os advogados), funciona como um caminho paralelo, um contraste, uma psicobiografia da personagem que é importante para ir dando a sua fragilidade por dentro da carapaça que profissionalmente enverga, e preparando o terreno para o acto de contrição final.
Até porque mesmo um alto quadro pode, subitamente, descobrir-se numa posição “proletária”. Há sempre um tubarão maior no patamar seguinte da cadeia alimentar — e mesmo o big boss americano, que a certa altura aparece para uma cena de videoconferência, se lamenta de ele próprio ter “um patrão”, e depois dá o nome desse patrão, “é Wall Street”. Mas Wall Street é uma abstracção e é esse o ponto central do filme. O mundo laboral, no capitalismo contemporâneo, tornou-se uma abstracção, uma arbitrariedade (os accionistas exigem um aumento de 2% dos lucros, e porquê 2%?, ninguém sabe ou tenta explicar, ficou assim determinado e pronto), uma violenta obscenidade. Abstracção, arbitrariedade e obscenidade que são o foco das inúmeras cenas de reunião entre executivos, funcionários da empresa, representantes dos trabalhadores, dadas com um sentido de realismo inexcedível e que reflectem um mundo onde a realidade se faz de percentagens e folhas de Excel, sem qualquer ligação a uma substância humana, ou respeito por ela. Há pelo menos uma cena em que Lindon lida directamente com um grupo de operários, e percebe-se bem por que razão Brizé quis dar corpo visível aos operários, mas até faria sentido se nunca os mostrasse, porque eles, vistos do topo, são uma espécie de empecilho aos 2% de lucro, e seguramente, como diria John Ford, they are expendable, são homens e mulheres para queimar. Quando a realidade é uma abstracção numérica, o humano também se torna uma abstracção numérica.
Um Outro Mundo é, romanescamente, uma história de conversão e arrependimento (serão os planos de fecho o “outro mundo”, finalmente?), mas o seu centro, e grande parte do seu interesse, é esta descrição da vida dos extraterrestres (“they live”, “eles vivem”, como diria outro John, o Carpenter), filmados no seu habitat natural — gabinetes que são como cápsulas espaciais, sem ligação a mais nada a não ser à sua própria entropia.