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Em 2014, na região do Donbass, situada no leste da Ucrânia, decorre uma guerra entre grupos separatistas. Aqui, a sociedade começa a degradar-se à medida que os efeitos da propaganda e da manipulação começam a surgir. Este filme, embora de ficção, é constituído por vários episódios inspirados em acontecimentos reais, ocorridos entre os anos de 2014 e 2015, nos territórios ocupados. Seleccionado como o filme de abertura na seção Un Certain Regard no Festival de Cannes de 2018 (onde recebeu o prémio de Melhor Realizador), este é um drama actual com assinatura do cineasta bielorruso Sergei Loznitsa – autor de “No Nevoeiro” ou de “A Praça”, este último também centrado nos conflitos na Ucrânia. Valeriu Andriuta, Lyudmila Smorodina, Olesya Zhurakivska, Lyudmila Smorodina e Boris Kamorzin dão vida às personagens principais.
O filme que Sergei Loznitsa rodou na Bacia do Donets há quatro anos está nas salas. Não para informar, sintetizar ou explicar o inferno do presente. “Donbass” só o adensa Francisco Ferreira, Expresso A primeira sequência de “Donbass” é ficção ou é realidade? Sim, aquela sequência de abertura que começa num camarim de teatro e tudo, em que há quem trate do make-up, do penteado, e em que visitas hostis vêm reclamar não se sabe bem o quê, enquanto ao espelho se jura pela credibilidade do espetáculo porque uma representação está prestes a acontecer... E depois a câmara vem para a rua, atrás de um grupo de pessoas que se esconde como pode, até há repórteres de TV à mistura, estamos debaixo de fogo. E o fogo deixou marcas. E vítimas. Há quem diga que já não consegue viver assim, nem ficar descansado sempre que as crianças ficam no infantário.
É ficção ou é realidade? A questão é que ambos estão no mesmo patamar. É esta a força do filme. Ficção e realidade não se distinguem. Tal como não se percebe se a mulher indignada que despeja um balde de merda em cima de um político naquela assembleia de junta de freguesia (ou coisa que o valha) tem, ou não tem (em princípio deveria ter) a razão do seu lado.
A Bacia do Donets ocupada pelos russos e filmada por Loznitsa já é em 2018 um faroeste irrespirável em que dois campos rivais rivalizam na aleatoriedade e no absurdo. O que o cineasta ucraniano aqui faz é retratar o desespero dessa incomunicabilidade. Este filme narra, em 13 sketches, um conflito em curso desta região do sudeste da Ucrânia entre forças governamentais, apoiadas por máfias locais, e separatistas pró-russos, apoiados por outras máfias equivalentes e mercenários a soldo de Putin.
O que têm os sketches em comum? É que são histórias inverosímeis, daquelas que só visto porque contadas não se acredita. E contudo, o filme lá vai chamando a audiência à razão e dizendo “isto é autêntico!” E é mesmo: cada história é inspirada em factos ocorridos entre 2014 e 2015 nos territórios ocupados em que a guerra agora estacionou.
Quando este filme se estreou em Cannes 2018, na secção Un Certain Regard (onde foi premiado, aliás), Loznitsa tinha uma espécie de lema que dizia isto: “No Donbas, a guerra é chamada de paz, a propaganda é erguida como verdade e o ódio finge ser amor.” Não havia aqui vítimas e carrascos, o lado dos bons e o lado dos maus, e quase não havia vivalma que se aproveitasse, pois todas eram corruptas.
Foi então possível identificar que uma das leituras do filme ligava a degeneração sociopolítica e humana daquele território ao derrube de valores que haviam sustentado o Império Soviético. E que, atrás do cortejo de excentricidades de Loznitsa (em que o sentido de humor, ainda que cáustico, também entra em jogo), atrás deste fresco alucinado e a tender para uma cruel misantropia, há já — evidentemente — uma guerra civil a decorrer.
É certo que este filme-mosaico, circense, caleidoscópico, feito de várias situações abertas a uma teatralização do macabro e do grotesco, tem um resultado desigual e um desequilíbrio de tom que Loznitsa habitualmente evita nos seus documentários (se na ficção resvala, como documentarista é implacável). Chamei-lhe em 2018 um “Iosselliani enjorcado” e a opinião não mudou.
Contudo, revisto agora, “Donbass” ganha enquanto experiência premonitória. Aliás, o que é chocante é pensar como foi possível vê-lo e admitir que poderia haver outro desfecho para este conflito que não o da guerra atual. Não se espere de “Donbass” um filme que ‘explique’ o que se está a passar. O didatismo não é o seu forte. O que aqui está em causa é a antecâmara de uma tragédia. Em toda a sua complexidade, com toda a sua ambiguidade.