CINECLUBE DE JOANE

Janeiro 2024
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Catherine Breillat
4 JAN 21h45
de David Fincher
11 JAN 21h45
de Edgar Pêra
18 JAN 21h45
de Kinuyo Tanaka
25 JAN 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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4 21h45

NO VERÃO PASSADO Catherine Breillat

Anne (Léa Drucke) é uma advogada experiente e bem-sucedida que tem em mãos um caso de uma menor vítima de abuso sexual. Tem um casamento feliz com Pierre, com quem tem duas filhas adoptivas. A sua vida, até aí tranquila e confortável, é virada do avesso quando Theo (Samuel Kircher), o filho adolescente que Pierre teve no primeiro casamento, se muda para sua casa. A convivência natural entre Anne e o insinuante Theo vai-se estreitando aos poucos, até dar lugar a um desejo descontrolado que, inevitavelmente, culminará com a destruição daquela família. Com realização de Catherine Breillat – dez anos depois de “Abus de Faiblesse”, com Isabelle Huppert e Kool Shen –, um drama sobre culpa, abuso de poder e manipulação que readapta o filme “Rainha de Copas”, realizado em 2019 pela dinamarquesa May el-Toukhy.

Título Original: L'été dernier (França/Noruega, 2023, 100 min)
Realização: Catherine Breillat
Interpretação: Léa Drucker , Samuel Kircher, Olivier Rabourdin
Argumento: Catherine Breillat, Pascal Bonitzer
Fotografia : Jeanne Lapoirie
Montagem : François Quiqueré
Produção : Saïd Ben Saïd, Caroline Blanco, Rene Ezra, Sophie Roudaut, Clifford Werber
Estreia: 19 de Outubro de 2023
Distribuição: Alambique Filmes
Classificação: M/14
A teoria da vertigem João Lopes, DN Apresentado na secção competitiva do último Festival de Cannes, No Verão Passado é a história de uma paixão assombrada que escapa a qualquer lei social ou narrativa - para a realizadora Catherine Breillat, o cinema nasce desse assombramento.
Na imagem de abertura de No Verão Passado, o rosto de Anne (Léa Drucker), uma advogada especializada em casos de abuso de adolescentes, enche o ecrã. Com um misto de exigência factual e didatismo legal, ela questiona uma adolescente sobre o número de rapazes com quem já teve relações sexuais. Na sua nudez emocional - reforçada por ser a desarmante abertura do filme -, a cena funciona como uma espécie de matriz dramática para o que se vai seguir.
Catherine Breillat, 75 anos não filmava desde Abus de Faiblesse (2013), aventurando-se aqui num remake de um filme dinamarquês, Rainha de Copas (May el-Toukhy, 2019). Ela tem plena consciência da delicadeza da história que tem para contar, da sua capacidade de perturbação moral e também dos clichés mediáticos, em particular sustentados pelo populismo televisivo, que tendem a envolver, esquematizar e carregar de pitoresco as narrativas com elementos desta natureza.
Isto porque a mesma Anne que começamos por conhecer como modelo da lei, da sua transparência e também da sua contundência, vai ser protagonista de uma odisseia capaz de desmanchar o equilíbrio familiar que encontrou com Pierre (Olivier Rabourdin) e as duas pequenas filhas adotivas do casal. Assim, tudo vai ser abalado pela chegada de Théo (Samuel Kircher), filho do primeiro casamento de Pierre, a viver uma encruzilhada de muitos problemas "típicos" de uma adolescência à deriva - em pouco tempo, Anne deixa de ser a relutante madrasta de Théo para se tornar sua amante, numa relação passional pontuada por uma intensa entrega sexual.
Que fazer com estas personagens? A pergunta afigura-se central no trabalho de Breillat, que também assina o argumento, com a colaboração de Pascal Bonitzer (argumentista e cineasta, com um curriculum admirável de crítico de cinema nas páginas dos Cahiers du Cinéma). E tanto mais central quanto se transfere para o espectador: de que falamos quando falamos do impulso amoroso?

Uma história de loucura


Léa Drucker é uma atriz espantosa, por certo das mais talentosas e versáteis do atual cinema francês - lembremos apenas as suas composições em O Quarto Azul (Mathieu Amalric, 2014), Custódia Partilhada (Xavier Legrand, 2017), que lhe valeu um César de melhor atriz, ou ainda Close (Lukas Dhont, 2022), filme distinguido com o Grande Prémio de Cannes.
A sua Anne não é, de modo algum, uma "mensageira" de temas, muito menos causas, nem pode ser entendida a partir de qualquer simbologia "panfletária", feminina ou feminista. Mesmo não ignorando a complexidade afetiva e social dos processos e julgamentos em que a personagem trabalha, No Verão Passado nada tem que ver com um entendimento do cinema como mero veículo "ilustrativo" de problemas para serem discutidos em qualquer debate televisivo mais ou menos interessante. O que Breillat coloca em cena, muito para lá do valor específico do labor da lei, é a dimensão intratável do desejo de Anne por Théo. Nessa medida, ela não representa nenhum "modelo", individual ou coletivo, já que este é um cinema fiel à ideia segundo a qual nenhum grupo, ideologia ou programa político pode condensar a dimensão irredutível, porventura selvagem, da identidade de cada um - homem ou mulher.
Daí o choque emocional que nasce da personagem de Théo, quase sempre elidido nos resumos que o filme suscitou quando, no passado mês de maio, surgiu na competição do Festival de Cannes. De facto, a sinopse de No Verão Passado como um drama centrado na crise do casal Anne/Pierre acaba por rasurar a personagem de Théo, ocultando a dimensão, também intratável, do seu amor louco - no sentido em que tal amor, insensato e escandaloso, arrasta uma loucura literalmente inconfessável (esta palavra serviu, aliás, de título de trabalho do projeto de Breillat: "Inavouable").

Tentação e medo


Samuel Kircher, filho de Irène Jacob, atriz que associamos sempre à obra de Krzysztof Kieslowski (A Dupla Vida de Véronique, Três Cores: Vermelho), é impressionante no modo como nos oferece um Théo visceralmente trágico, mesmo na futilidade do seu comportamento. Também no seu caso, estamos muito longe de qualquer estereótipo do adolescente que se esgota no uso do telemóvel, na escuta do hip-hop e no consumo de filmes de super-heróis...
Convém, por isso, acrescentar que No Verão Passado será tudo o que se quiser menos um objeto "sociológico". Para Breillat, o mundo não é feito de categorias de comportamento que, depois, cada ser humano confirma com variações mais ou menos previsíveis. A certa altura, no primeiro diálogo mais íntimo de Anne e Théo, ela explica-lhe a enigmática consciência que tem dos limites do seu próprio mundo: "A vertigem não é o medo de cair, mas o medo da tentação irreprimível da queda." E remata esta definição, classificando-a como "a minha teoria da vertigem".
Este é um cinema atento e, num certo sentido, apaixonado pelas mais radicais diferenças individuais, fazendo lembrar, na produção francesa, a singularíssima herança de Maurice Pialat (1925-2003). O que, convenhamos, nos leva a concluir que a história dos filmes continua a existir como um labirinto de muitas cumplicidades - o argumento de Polícia (1985), em que Pialat dirigiu Gérard Depardieu e Sophie Marceau, foi escrito por Breillat.