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Karsh, de 50 anos, é um importante empresário de tecnologia. Inconsolável desde a morte da sua esposa Becca, inventa uma tecnologia revolucionária: um sudário equipado com câmaras que permitem aos familiares manter o contacto visual com os seus entes queridos falecidos. Uma noite, vários caixões são profanados, incluindo o de Becca. Karsh tenta encontrar os responsáveis, descobrindo nesse processo uma conspiração que colocará a sua empresa em risco. Uma obra que explora o horror da simples fragilidade humana e reflecte sobre a relação entre o corpóreo e o digital.
David Cronenberg e o que vem depois da vida, nada David Cronenberg na sessão de apresentação de The Shrouds, por Vasco Câmara, (Publico) Ateu e realista: eis como se declarou e como classificou o seu cinema. The Shrouds, seu último filme, saído do luto pela morte da mulher, é um dos candidatos ao palmarés do Leffest.
O que acontece depois da morte? David Cronenberg diz que tem novidades para nós: nada. Ele já experimentou: "É como numa intervenção cirúrgica — não é como dormir, nem sequer sonhamos; desaparecemos". "Oblivion" total; não existe o afterlife.
Não é novidade alguma. Foi sempre isso que nos disseram os filmes do convictamente ateu e existencialista cineasta de Toronto que tem hoje 81 anos. É o que ele nos diz também, em particular, em The Shrouds, título com que concorre ao palmarés do Lisboa Film Festival que será anunciado este sábado à tarde por um júri de 5 membros que inclui os realizadores Mario Martone (presidente) e Jonás Trueba. Foi o seu regresso ao cinema depois de dois anos a cuidar da esposa com quem viveu 42 anos, Carolyn, que morreu em 2017. De quem tem três filhos, dois deles, Cameron e Caitlin, também cineastas.
Como os filmes habitam uma zona de imperceptibilidades e estão susceptíveis a interpretações, atirado assim, a um pequeno grupo de jornalistas que se deslocaram esta sexta-feira ao Olissippo Lapa Palace Hotel, sede oficial do Leffest, para uma conferência de imprensa, o redondo e inescapável oblivion tem possibilidades fulminantes. Reajusta a acepção de "espiritualidade" no contexto cronenberguiano, não lhe deixando espaço. E não permite qualquer dúvida.
The Shrouds — a estreia portuguesa, ditam os acordos de distribuição internacionais, acontecerá em Abril de 2025 — começou por ser um projecto de série de seis ou oito episódios para streaming, possibilidade que fascina o realizador por aproximar um filme de um romance. A versão convencional de duas horas, Cronenberg equipara-a quanto muito ao conto. Não se concretizou a série, mas o pitching em Los Angeles serviu para alguma coisa. Aconteceu o filme. Em que Vincent Cassel, na sua versão de David Cronenberg — no cabelo, no ritmo pausado, no sotaque de Toronto, na contenção e mesmo na supressão do que habitualmente existe de avassalador e de apaixonado no actor — interpreta um homem de negócios que desenvolveu uma tecnologia que permite que os vivos acompanhem as vicissitudes dos corpos dos seus entes queridos: a forma como se decompõem. Cassel, no filme, é como Cronenberg — um viúvo. Proprietário de um restaurante construído sobre um cemitério. Tal como o realizador, a personagem de Vincent, aqui na sua terceira colaboração com o realizador canadiano depois de Eastern Pomisses (2007) e de Um Método Perigoso (2011), teve de arranjar um escape para o seu trabalho de luto.
Depois de achar que não trabalharia mais, Cronenberg teve ainda tempo para este filme (e desenvolve já outro projecto) que dedicou à sua vida com a morte da mulher Carolyn. À sua versão muito própria — não é o "filme de luto" sentimental como os que por aí há, diz ele — da raiva, do sentimento de culpa por ter sobrevivido, da argumentação que se força mas que nunca é satisfatória para se tolerar o intolerável ("A minha sogra ainda é viva, tem 97 anos. Porque é que ela está viva e a minha mulher não?"), das teorias da conspiração em que se envolvem médicos e hospitais para encontrar um responsável pela dor.
Isso dá, em The Shrouds, um sentido de humor que várias vezes é mal-entendido pelos espectadores do cinema de Cronenberg, é mesmo a história habitual dessa relação, e a uma declinação do thriller conspirativo que resulta num labirinto que tem sido considerado inconsequente mesmo na sua derrisão.
"A vida é assim"
Em Cannes, festival em que o filme teve a sua estreia mundial, The Shrouds foi, segundo o realizador, mal compreendido. Questão da específica população que o frequenta, segundo ele, mais formal (mais sisuda, é isso?), ao contrário dos festivais de Nova Iorque e de Toronto, onde os espectadores finalmente riram. Embora o público português não seja propriamente conhecido pela sua desenvoltura, parece que terá sido assim também no Leffest, segundo Cronenberg. É a quarta vez que vem a Lisboa a um festival de que gosta, descontraído, algo caótico, classifica, onde se podem encontrar pessoas fora da área específica do cinema, como foi o caso do escritor Don DeLillo, de quem adaptaria em 2012 Cosmopolis, que foi produzido por Paulo Branco.
Quanto ao que a recepção crítica tem escrito sobre o facto de o thriller conspirativo não fazer sentido, Cronenberg responde: "Sim, não faz, mas a vida é assim". Isto é, o seu filme, e o seu cinema, é intrinsecamente "realista". "Body horror", a etiqueta que se vulgarizou até porque se apresentaram entretanto discípulas de que Cronenberg até está orgulhoso como se está orgulhoso da descendência, e são elas Julia Ducournau (Titane) e Coralie Fargeat (A Substância), não lhe serve. "Padrinho do body horror? Não sei o que isso quer dizer. O meu cinema é realista". Tanto quanto Donald Trump lhe parece uma invenção de um louco. E como tal não quer desperdiçar tempo com ela.