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Numa longínqua região montanhosa de Portugal, vive uma família cujos contactos com o mundo
exterior são raros. Os seus membros são quase vestígios de uma outra era. O seu isolamento vai
ser perturbado pela chegada de uma equipa de etnólogos, com quem vão tentar manter-se numa
relação distante, mesmo hostil. Cópia digitalizada pela Cinemateca Portuguesa – Museu do
Cinema
As emoções da infância que nascem de novo, sob outras formas, com outros rostos, outras. O
trabalho intenso para que as transmutações surjam e permaneçam na obra inteira e já
independente de nós. (António Reis, Margarida Martins Cordeiro)
Alguns dirão que neste filme nada se passa, que não há narração. Serão os mesmos que a não saberão achar no diálogo de Platão, na ode de Píndaro ou no Babel e Sião de Camões. “Fraqueza da humana sorte: / que quando da vida passa / está recitando a morte”. “Recitar a morte”, do Ulisses de Homero ao Ulisses de Joyce foi o único e supremo fito da narratividade. “Ana” é, entre muitas outras coisas, o filme da compreensão disso. Se se lembra na ausência, é porque o seu espaço não é o da memória, “senão o da reminiscência”. Continuando – e concluindo – em Camões: é o filme que sobe da sombra ao real “da particular beleza / para a beleza geral”. João Bénard da Costa, Diário de Notícias, 1 de janeiro 1983
Na sua recusa de uma narrativa tradicional contada, “Ana” documenta apenas um lugar e a sua gente, descontínuo, fragmentado, frágil, intenso na contaminação necessária, mergulhando na vibração do tempo que decorre. Mas quem é e o que significa esta mulher? Que sentido têm os seus gestos, os seus passeios, as suas falas graves, o seu grito de morte “Miranda! Miranda!”, nome de animal e de burgo velhos? “Ana” é a essência, palavra completa como uma amêndoa, princípio, meio e fim em três simples letras. Palavras-chave, também, enigma e solução. Nome de mulher. Nome de filme. “Ana”, de António Reis e Margarida Cordeiro. Luís de Pina, 13 de maio 1985