CINECLUBE DE JOANE

Dezembro 2025
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Paul Thomas Anderson
4 DEZ 21h45
de Kleber Mendonça Filho
11 DEZ 21h45
de Thierry Frémaux
18 DEZ 21h45
de Alexander Horwath
30 DEZ 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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11 21h45

O AGENTE SECRETO Kleber Mendonça Filho

Brasil, 1977. Marcelo, um especialista em tecnologia na casa dos 40 anos, está em fuga. Chega a Recife na semana do carnaval, na esperança de reencontrar o filho, mas logo percebe que a cidade está longe de ser o refúgio não violento que ele procura. O Agente Secreto é o filme mais recente do realizador Kléber Mendonça Filho, de quem mostramos os anteriores O Som ao Redor (2013), Aquarius (2016), Bacurau (2019) e Retratos Fantasmas (2023).

Título Original: O Agente Secreto (Brasil, 2025, 150 min)
Realização e Argumento: Kleber Mendonça Filho
Interpretação: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone,
Produção: Emilie Lesclaux, Kleber Mendonça Filho, Wagner Moura, Brent
Fotografia: Evgenia Alexandrova
Montagem: Matheus Farias, Eduardo Serrano
Estreia: 6 de Novembro de 2025
Distribuição: Nitrato Filmes
Classificação: M/16
Kleber Mendonça Filho e o thriller fantasma: O Agente Secreto, Vasco Câmara em Cannes, Público de 18 de Maio de 2025 É um filme com título de thriller mas a acção é sobretudo um fantasma. Complexo, tortuoso, com o herói clássico habitado por Wagner Moura, trouxe o cineasta brasileiro de volta à competição de Cannes.
A curiosidade de Kleber Mendonça Filho tem sido perceber através das conversas e entrevistas com a imprensa internacional o que é que O Agente Secreto comunica da História brasileira. Têm-lhe dito que é um filme "misterioso", mas "universal". Têm sido simpáticos. Dizemos-lhe que O Agente Secreto é um filme sobretudo sinuoso — o PÚBLICO está com o realizador do Recife, 56 anos, nas instalações da Unifrance, a dez minutos da passadeira vermelha do Palais des Festivals onde em 2016 a equipa de Aquarius desfilou em competição empunhando cartazes de apoio a Dilma Rousseff, contra o "golpe de Estado" que o Brasil experimentava, e que em 2019 foi percorrida por Kleber e pelo seu co- realizador Juliano Dornelles antes de receberem os dois o Prémio do Júri por Bacurau. Sim, têm sido generosos. As duas horas e quarenta minutos de O Agente Secreto tem das construções mais complexas e propositadamente deceptivas — até no sentido do logro wellesiano — que por aqui se viu. É um filme com ambição de fresco, rasgado que foi definitivamente o minimalismo de O Som ao Redor (2012). Mas é um filme foragido, um filme até de falso título em que várias personagens têm nomes falsos, um filme que se esconde. Como a personagem interpretada por Wagner Moura. É um filme tortuoso como a memória. Com os seus pequenos golpes de teatro que aqui são golpes de cinema.
O melhor a fazer é vê-lo pelo menos duas vezes. Não é um conselho gratuito. Experimentámo-lo: o filme cresce enormemente. Melhor: alastra.

Época de Pirraça


Brasil, 1977, "uma época de grande pirraça". É a legenda inicial perante uma bomba de gasolina e um cadáver. Os ingleses traduziram "pirraça" por "great mischief"; os franceses por "semée d'embuches". Uma época de maquinações, armadilhas, dificuldades. Antes disso, houve uma espécie de apanhado do audiovisual da era, imagens fixas de telenovelas, shows de televisão e suas estrelas, Escrava Isaura, Tarcísio Meira e Gloria Menezes, Os Trapalhões... nenhum deles identificado. "Inicialmente era para ser mesmo só imagens de telenovelas", diz Kleber. Depois é que o Volkswagen carocha amarelo conduzido pela personagem de Wagner Moura pára para abastecer a viatura de gasolina e depara com um cadáver que está ali há dias. O homem da estação não foge porque pode perder o emprego, mas se ficar arrisca-se a ser importunado pela polícia quando nada teve a ver com o tiroteio. Engana-se: a polícia finalmente aparece mas não liga nada ao cadáver, importuna é Wagner Moura. Brasil, 1977.
Esta é a sequência que nos apanha desprevenidos logo de início e o realizador revela que foi escrita há 25 anos. Era o argumento de uma curta-metragem que nunca foi apoiada por qualquer concurso e que Kleber teve agora "a liberdade de a usar num filme" em que teve "a liberdade de fazer" o que quis. Preparando-se para que os primeiros espectadores, amigos e produtores, o questionassem: "Mas o que está ali a sequência a fazer?". Porque sabe a preâmbulo, a um momento hermeticamente selado, sem nada a ver com o que depois se vai seguir — Tarantino faz isso às vezes. Mas é ao contrário: coloca o espectador perante as tonalidades ideais de um percurso agónico. Inoculado por esse vírus, sentirá à flor da pele o sabor da sociedade brasileira de 1977 sem ter de levar com qualquer um programa social e político, porque não há nada de programático nem, aliás, de informativo no filme. Como se o mundo que ele cria estivesse calado, afásico.
Kleber insistiu: aquela sequência faz sentido ali ou está a mais? "Todos defenderam a sua inclusão."

Os tubarões


Temos de falar o quanto antes de Tubarão, de Steven Spielberg. É uma presença obsessiva em O Agente Secreto. As personagens querem ir ver esse filme ou foram ver esse filme, os miúdos que não têm idade esconjuram a ansiedade desenhando o cartaz. Kleber adora o filme, não o viu na estreia porque era demasiado novo, viu-o em 1983 em VHS e ficou transtornado. "É um grande filme e não posso esquecer que sou de uma cidade que tem praia com problemas com tubarões — cerca de 200 vítimas em 35 anos, isso faz parte da realidade do Recife."
Esses números e esses factos, e esses filmes nos cinemas do Recife, como The Omen/O Presságio (Richard Donner, com Gregory Peck, 1976), Pasqualino das Sete Beldades (Lina Wertmüller, 1975) ou Dona Flor e os Seus Dois Maridos (Bruno Barreto, 1976) apareceram com a pesquisa feita no Arquivo Público de Pernambuco, onde Kleber leu anúncios classificados de jornais, notícias de política e da polícia, as páginas do cartaz dos cinemas, até os horóscopos. Foi um trabalho paralelo e contemporâneo ao de Retratos Fantasmas (2023), o documentário de um cinéfilo sobre a sua cidade. "Um ajudou o outro", concede Kleber.
A sensação é então a de que O Agente Secreto é uma ficção construída sobre uma base afectiva, as memórias de uma cidade e das suas salas de cinema, e porque há filmes nessa base, a percepção da aventura de Armando, que afinal também se chama Marcelo (a personagem de Wagner Moura), é filtrada, estimulada, corrompida por eles.
Agente Secreto: com o que nos acena esse título? Com espionagem, com thriller, com acção. É sobre essas expectativas defraudadas, e sem qualquer apelo nostálgico do cinema — "não é mesmo uma homenagem ao cinema", diz Kleber, e tem toda a razão — que chegamos com Wagner Moura ao Recife. Ele foge de um passado embaciado, confuso, e tenta colar os pedaços da sua vida pessoal. Renovará a sua relação com o filho, que está desejoso para ter a idade legal de ver Tubarão. Mas as ameaças de morte furarão a muralha de uma protecção algo misteriosamente construída à volta de Wagner, não sendo aliás certo o que é acontecimento e o que é perturbação ou psicose interiorizada daquele tempo. O argumento joga com o que acrescentam as expectativas do espectador. Quando um centro e um cenário narrativos parecem estabilizados, o filme move-se para outro.
A quietude clássica de Wagner elege-o como perfeito ecrã para o espectador poder projectar a sua ansiedade. "Escrevi a personagem a pensar em empatia. E escolhi o Wagner porque ele é extremamente empático e é um astro de cinema." Kleber diz ter-se apercebido da existência dessas criaturas quando, na rodagem de Aquarius, sentiu "uma coisa muito estranha" com a visão dos primeiros enquadramentos do rosto de Sonia Braga, algo que se passava ao nível das maçãs do rosto.
Mas dentro da ideia clássica de herói, Kleber não queria uma personagem "que puxasse da arma muito depressa. Tornou-se algo de muito natural isso, o puxar de uma arma", tanto quanto o amor e o sexo metem medo sobretudo a um oligarca dos imaginários chamado Hollywood ou, mais recentemente, Netflix. "Acho que devíamos sempre atrasar esse momento do puxar da arma", defende Kleber. É como se esses gestos, no filme, fossem resíduos, fantasmas.
Sobrepõe-se ainda outro nível em O Agente Secreto: a aventura de um mundo pré-Google está a ser seguida, lida e consultada nos arquivos por personagens jovens da actualidade. É hoje que vive o filho adulto de Armando/Marcelo (personagem interpretada também por Wagner Moura). Que nada sabe do seu pai, pouca memória tem dele. O edifício em que trabalha foi em tempos um cinema e exibiu Tubarão. O Agente Secreto alinha por um pessimismo nato quanto à perenidade da memória. Quanto a isso, Kleber é veemente: no que diz respeito à memória da ditadura brasileira, ela foi "quebrada oficialmente pela amnistia de 1979, que perdoou os crimes políticos cometidos entre 1961 e 1979. "Apagou tudo da cabeça das pessoas. E teve um efeito ruim na psicologia do Brasil como nação: qualquer merda que se faz pode ser esquecida."
O sucesso recente de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, renovou, para além da histeria pré- Óscares, uma ligação com "muita gente jovem" que percebeu "o que a ditadura podia fazer às pessoas. Essa memória fora apagada". Impõe-se então, por causa de Agente Secreto, a pergunta: pode um filme mudar o estado do mundo? "O cinema não muda o mundo. Mas pode fazer com que algumas questões sejam conversadas."