CINECLUBE DE JOANE

Dezembro 2025
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Paul Thomas Anderson
4 DEZ 21h45
de Kleber Mendonça Filho
11 DEZ 21h45
de Thierry Frémaux
18 DEZ 21h45
de Alexander Horwath
30 DEZ 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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30 21h45

HENRY FONDA FOR PRESIDENT Alexander Horwath Traz Outro Amigo Também

Ensaio pessoal sobre os EUA a partir da vida e obra do actor Henry Fonda. Os seus papéis fundem-se numa figura fascinante e dividida. Um homem reservado, que acreditava não ter “boas respostas para nada”, torna-se no motor improvável de uma história paralela. A sua voz, gravada na última entrevista que deu, em 1981, e os seus avatares no ecrã guiam-nos pelo passado e presente da América, da aldeia de Fonda ao Pacífico, passando pela região centro-oeste; de 1651 à década de 1980 e à presidência de outro actor. Muitos lugares, tempos e personagens concebem uma república invisível – os Estados Unidos de Fonda.

Titulo original: Henry Fonda for President (Austria/Alemanha, 2024, 180 min)
Realização e Argumento: Alexander Horwath
Produção: Ralph Wieser, Irene Höfer, Andreas Schroth
Fotografia: Michael Palm
Montagem: Michael Palm
Classificação: M/12
Era uma vez Henry Fonda na América, Vasco Câmara, Publico Inclua-se Henry Fonda for President numa lista dos melhores filmes sobre a política americana.
12 de Janeiro de 1976, 17.º episódio da quarta temporada da sitcom Maude, CBS-TV: Maude/Bea Arthur meteu na cabeça que Henry Fonda era "the quintessential american" e por isso faz campanha para uns Estados Unidos de Fonda. "Henry Fonda a Presidente."
Se se lembram, Maude Findlay era ferozmente liberal. Votava Democrata, sempre esteve do lado dos direitos cívicos, da igualdade racial e de género. Senhora de voz áspera, era o contraponto da docilidade que emperrava a prima Edith/Jean Stapleton, com quem Maude se encontrara em episódios de All in the Family/Uma Família às Direitas, bunker do reaccionarismo, do imobilismo pois essa era a sitcom de Archie Bunker/Carroll O'Connor — Maude (1972-1978) foi um spin-off, uma derivação, de All in the Family (1971-1979).
Nesse 17.º episódio, então: Henry Fonda perdia-se em Tuckahoe, Nova Iorque, e batia à porta de Maude. À visão do poster que incitava Henry Fonda for President, o actor respondia como nos filmes quando colocava a mão no rosto para se proteger da ameaça de pathos: com a sua proverbial dúvida auto-reflexiva. Foi assim o Maude's Mood, episódio que decorreu em duas partes em Janeiro de 1976.
Nesse ano, Travis Bickle/Robert De Niro, de crista mohawk, tentava assassinar um candidato presidencial para se fazer notar à mulher que o seduzira e para dar um safanão à solidão (Taxi Driver, Martin Scorsese). "Inspirando-se" nele, John Hinckley Jr., para se fazer notar perante Jodie Foster, dispararia em 1981 contra Ronald Reagan, o actor conservador que um ano antes — afinal foi ele e não Henry Fonda... — entrara na Casa Branca. Fazia-se instrumento da Divina Providência, Reagan.
Fora governador da Califórnia, terra a que o okie Tom Joad de As Vinhas da Ira/Grapes of Wath, romance de John Steinbeck e filme de John Ford (1940), chegara durante a Depressão com família e pertences pendurados na carrinha. Nesse filme-cântico dos deserdados, Tom Joad era interpretado por... Henry Fonda. Foram estas as suas famosas palavras finais naquele plano com os olhos ardentes que reconhece a violência do capitalismo, a luz tremeluzente da liberdade e a conquista incerta que é a democracia: "I’ll be everywhere — wherever you look. Wherever they’s a fight so hungry people can eat, I’ll be there. Wherever they’s a cop beatin’ up a guy, I’ll be there...". Os barracões onde os imigrantes se alojavam e em que Ford filmou ainda existem. Mas hoje não são habitados por okies, pelos habitantes do Oklahoma que nos anos 30 chegavam à Califórnia para as vindimas (o termo alargou-se depois a qualquer habitante dos estados ao longo da Route 66 que fugia das tempestades de areia e da fome). Hoje ocupam-nos imigrantes do México. E há de novo um candidato presidencial republicano, Donald Trump, que se anuncia de forma messiânica. Promete encarregar-se da grande devolução à procedência dos ilegais que estão a "envenenar o sangue" da nação.
Tudo isto é apenas uma árvore da frondosa floresta chamada Henry Fonda for President, documentário de Alexander Horwath. É um ensaio — só podia vir de um historiador, Horwath, que foi director da Viennale. Mas também é um road movie, uma monografia, um retrato psicológico de um actor com a contemplação da sua gestualidade, um olhar sobre a utopia americana e a irreprimível violência que percorre uma ideia de país. É aquele passado a caminhar inexoravelmente por este presente. Está muito para além do documentário biográfico, portanto, percorrendo esplendidamente caminhos principais e laterais, romanticamente acreditando no presságio das datas e dos lugares, utilizando a filmografia como eco da biografia, o facto e simultaneamente a divagação. Eis então a grande marcha dos Fonda pela América — lembrámo- nos do precioso Sherman's March (1986), em que Ross McElwee percorreu com os seus fracassos amorosos os caminhos da campanha sulista de William Sherman (1820-1891), general do Exército da União, durante a Guerra Civil.
Utilizando como ligação a voz de Fonda (1905-1982) numa entrevista um ano antes de morrer, e em que o actor se mostra fordiano em algumas respostas (exemplo: acha que há uma parte de Tom Joad em si? "Não!"), Henry Fonda for President começa pelas origens da família Fonda e utiliza um template de puzzle com peças de diferentes naturezas ao longo de densas, estimulantes e imaginativas três horas de duração.
1651, Países Baixos, aí os Fonda começaram. Vêm depois 1776, com a chegada a Nova Iorque (imagens de Drums Along the Mohawk/Ouvem-se os Tambores ao Longe, de John Ford, 1939, aventuras de uma família na América da Guerra Civil), e 1837, em Springfield, Illinois. Foi aí que Abraham Lincoln viveu e exerceu advocacia entre 1837 e 1861, quando se tornou Presidente dos EUA — e eis então as imagens da mais mítica das presenças de Fonda, Young M. Lincoln/A Grande Esperança (Ford, 1939): ele e o realizador esculpiram os gestos da personagem, a sua timidez, a unidade telúrica dada pela lei, pelos livros e pelo machado.
Depois do idealismo, marcha-se até 1871 e 1881, até ao Arizona, até Fort Apache e Tombstone. São datas e lugares onde se começa a questionar a violência reprimida na América e em Fonda. A virilidade problemática problematiza-se também. São os locais e as datas em que se passavam Forte Apache (Ford, 1949) e My Darling Clementine (Ford, 1946), westerns elegíacos mas já mordidos pelo contramito. Veja-se este "sinal": 100 anos passaram entre a conquista do Oeste e o envolvimento americano na guerra do Vietname. Forte Apache e Tombstone vivem hoje das ruínas da mitologia. Por lá ainda andam Wyatt Earp, o homem da lei, e Doc Holliday, o pistoleiro, em paradas para turistas. É fácil encontrar a máscara de Donald Trump no cortejo.
Nebraska, 1905: nascia Henry Jaynes Fonda. A caminho do Oeste, o avô parara em Grand Island. Henry é portanto um midwesterner, com as suas características taciturnas, de tipo introvertido. Uma das suas mulheres diria: Henry "é o grito que nunca foi gritado, a gargalhada que nunca foi solta". Em On Golden Pond/A Casa do Lago (Mark Rydell, 1981), Jane Fonda, a filha, tocava o pai no braço (Henry, no filme pelo qual lhe deram finalmente o Óscar). Ele retribuía velando o rosto com a mão. A nova moralidade da Califórnia esbarrava contra a velha moralidade do Nebraska. Tão formador quanto o território foi um acontecimento: em 1919, em Omaha, Henry presenciou o linchamento de William Brown, rapaz negro acusado de violação que fora arrancado aos calabouços e enforcado pela populaça e queimado. O liberalismo assombrado pela dúvida começou aí a ser forjado. E a consciência de que a escravatura enformava a cultura e a economia americanas.
Em 1934 tivemos actor, na Broadway e (um ano depois) em Hollywood: The Farmer Takes a Wife. Em 1939, com As Vinhas da Ira, estamos com Steinbeck na Route 66. O escritor descreveu-o assim: o homem que nos alcança mas que é inalcançável; gentil mas capaz de súbita violência; ríspido na crítica aos outros mas autocrítico.Alistou-se na Marinha, durante a II Guerra, e antes e depois disso The Ox-bow Incident (William Wellman, 1942) e Daisy Kenyon (Otto Preminger, 1947) surgiram soturnos, cheios de dúvida, sem triunfalismos. Foi então que Fonda se aproximou do sistema judicial e da política — 12 Homens em Fúria (Sidney Lumet, 1957) e The Best Man (Franklin J. Schaffner, 1964, este sim, como candidato à presidência que desiste de pactuar com a máquina) — e das war rooms da Guerra Fria (Fail Safe, 1964, Lumet). Foi nestes anos também que "na realidade" Reagan chegou ao governo da abençoada Califórnia. E enquanto os filhos, Jane e Peter, continuaram de forma radical o questionamento e o liberalismo do pai, Henry voltou- se para a sua violência reprimida e doou os seus olhos azuis à brutalidade americana: Era uma Vez no Oeste/Once Upon a Time in the West (1968). A provocação de Sergio Leone, ao dar-lhe o papel de um mercenário sádico, estarreceu os espectadores: "Jesus Christ, it's Henry Fonda!" Agora que se multiplicam listas, o formato domesticado dos nossos dias, com os "melhores filmes sobre a política americana" ou os "melhores filmes sobre as eleições americanas", que se meta lá este soberbo Henry Fonda for President.