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Depois da morte da mãe, as irmãs Nora e Agnes deparam-se com o regresso de Gustav, o pai de ambas, à cidade de Oslo, de onde partiu anos antes, na sequência do divórcio. Realizador famoso, mas com a carreira suspensa há algum tempo, Gustav sempre manteve com as filhas uma relação distante e difícil. Ao oferecer a Nora, actriz de teatro, o papel principal no seu novo filme, cujo argumento se baseia na história da sua própria mãe, Gustav desperta memórias dolorosas e ressentimentos provocados pela sua ausência. Quando Nora recusa a proposta, a escolha recai sobre Rachel Kemp, uma jovem estrela de Hollywood. Mas essa decisão não vai ajudar a cicatrizar as feridas ainda abertas. Em competição no Festival de Cinema de Cannes, onde foi distinguido com o Grand Prix, este drama familiar recebeu nove nomeações para a edição de 2026 do Óscares, entre eles o de melhor filme, melhor actriz para Renate Reinsve, melhor actor secundário para Stellan Skarsgård e melhor realizador para Joachim Trier — que, em 2022, já tinha sido nomeado por “A Pior Pessoa do Mundo”, também protagonizado por Reinsve.
Valor Sentimental Por Inês Lourenço, Metropolis O crescimento de Joachim Trier como realizador parece agora uma verdade insofismável. Se o filme anterior, A Pior Pessoa do Mundo (2021), se tornou um fenómeno pela revelação em Cannes da atriz Renate Reinsve, suscitando ainda assim um ligeiro ceticismo quanto à sua “esperteza” contemporânea enquadrada numa Oslo vibrante, Valor Sentimental surge como a confirmação séria de que a parceria de longa data dos noruegueses Trier e Eskil Vogt, na escrita de argumentos originais, atingiu um novo patamar de excelência. Em primeiro lugar, por essa coisa bonita de conferir a uma casa o protagonismo mudo da ancestralidade.
É então através de um espaço doméstico, repleto de estratos de memória das gerações anteriores, que Trier nos leva à matéria bergmaniana escondida numa racha de parede ou na angústia de uma atriz antes de entrar em palco. A partir da barriga da casa, vamos chegar às dores de quem a habita, ou habitou, com duas irmãs (uma interpretada, mais uma vez, por Reinsve, a outra por Inga Ibsdotter Lilleaas) que retomam o contacto com o pai, Gustav Borg, um realizador famoso de regresso ao lar de família, enquanto gerem interiormente as mágoas pessoais em relação a essa figura quase sempre ausente das suas vidas.
Assumido pelo sueco Stellan Skarsgård com as doses certas de egocentrismo e tristeza, o tal realizador apresenta à filha que é atriz (Reinsve) o projeto de um novo filme, pretendendo oferecer-lhe o papel principal. Mas perante a recusa, e depois de o acaso o juntar com outra jovem atriz de Hollywood (Elle Fanning), numa espécie de interlúdio felliniano, Borg vai escavando a possibilidade de fazer o filme na mesma, com essa intérprete estrangeira, ao mesmo tempo que sente na pele a estranheza de trabalhar numa produção com dinheiros e diretrizes da Netflix…
Aqui, Sentimental Value podia ter-se deixado seduzir pelo mero comentário às atuais lógicas de produção de filmes. Mas em vez disso, Joachim Trier recentra continuamente a história da família, seja através de uma voz off que narra as recordações da casa – surgindo desta feita, depois de Bergman e Fellini, uma óbvia inspiração em Woody Allen –, ou através da conclusão a que chega, a certa altura, a atriz americana, ao perceber que o filme que Borg deseja fazer perde alma e sentido se for falado em inglês… Neste momento em específico, confesso, lembrei-me de outro filme de Trier que não vingou, em grande parte, e precisamente, por ser falado em inglês e francês: Ensurdecedor, de 2015.
Valor Sentimental, por sua vez, troca as voltas a qualquer esquematismo dramático, confiando numa simbiose silenciosa entre o tempo acumulado da casa, a tragédia sussurrante nas suas paredes, e a família que se encaminha para a reconciliação por intermédio da lente. O cinema cura? Todos sabemos a resposta.