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Cinquenta anos depois, Luciana Fina revisita as imagens da Revolução dos Cravos em Portugal, reconsiderando a transição do fascismo para a libertação e o processo de construção de um novo país, para a sua emancipação e o seu futuro. É um tributo ao cinema que interferiu na história e que restitui hoje a hipótese de um momento extraordinário. O filme atravessa a asfixia do salazarismo e da PIDE, as ocupações estudantis de 1969, o Movimento das Forças Armadas de 1974, os sonhos, programas e perspectivas do PREC, o "Verão Quente", a descolonização.
SEMPRE | Nota de Intenções de Luciana Fina "Tantos anos depois é como dar notícias de um lugar que não existe, informações sobre um tempo que de facto existiu." (Robert Kramer 1995)
Resgatar as imagens do cinema que acompanhou a preparação e o processo da revolução significa também interrogar o cinema, os seus gestos e uma ideia de futuro. As imagens e os sonhos desse tempo reclamam a nossa presença.
A reutilização de imagens de arquivo convoca a essência e as faculdades da montagem, o confronto com a memória e a tentativa de gerir hoje os seus significados. Voltar a ver não diz respeito ao passado, é uma exploração das possíveis deslocações entre o passado e o presente. É no plano da arte combinatória da montagem, entendida aqui como uma maneira de produzir sentido através da combinação de elementos e tempos heterogéneos, que procuro a tensão de um cinema reflexivo e simultaneamente generativo, para que se abra o encontro entre o Outrora e o Agora.
O procedimento, próximo ao da memória, não é um retorno do idêntico, mas algo que restitui a possibilidade daquilo que foi. O que parece estar em causa é a possibilidade de tornar o acabado novamente inacabado, respigar a imagem suspensa, permitir ao que se passou de se reinventar, recolocando assim em campo a hipótese, ou o direito, em cheque hoje, de imaginar o futuro. Escrevia Walter Benjamin em As Passagens de Paris: “Cada facto histórico apresentado dialeticamente se polariza e se torna um campo de forças onde se esvazia a querela entre a sua história anterior e a sua história ulterior. Ele torna-se este campo de forças quando a actualidade penetra nele.” Outrora e Agora, entre o passado e o presente poderá também acontecer uma ideia de futuro.
Com o 25 de Abril, muitos realizadores e documentaristas entram em campo para observar e participar na mudança do país. Nos ecrãs do cinema e da televisão começa a revelar-se tudo aquilo que vivia na constrição da invisibilidade e da censura. A interlocução com a população, as suas vidas, as culturas rurais e operárias assumem um papel central e formas diversas, com filmes que encontram a sua expressão entre um cinema de poesia, o cinema-directo, de intervenção ou de inspiração neorrealista. No processo de construção da nova sociedade, com o espírito colaborativo das cooperativas de produção, ou ainda individualmente, torna-se imperativo intrometer-se na história, documentar, mas sobretudo pensar e formular ideias para a emancipação no campo da educação, da arte e da cultura, o trabalho, a emancipação da mulher, a descolonização, a reforma agrária, a habitação, o próprio cinema e os média.
O filme conduz-nos através da asfixia do salazarismo e da PIDE, as ocupações estudantis de 69, o Movimento das Forças Armadas de 74, os sonhos, os programas e as perspectivas do PREC, o Verão Quente, a descolonização e, sobretudo, repropõe os gestos de grandes cineastas que entraram em acção juntamente com artistas, compositores e radialistas. Nesses anos de transição, de construção do futuro, o cinema português vivia também um capítulo crucial da sua história. Sons inerentes ao momento histórico actual, às manifestações pelo direito à habitação, ao trabalho digno e à cultura, à questão colonial e à questão da mulher, inscrevem-se por entre as imagens do passado.