As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.
Indique o seu email para receber as condições e outras informações sobre como poderá tornar-se sócio e subscrever a nossa newsletter regular com a programação do cineclube e outra informação relevante.
Também se poderá inscrever ou saber mais deslocando-se à bilheteira de uma das nossas sessões. Ao tornar-se sócio usufrua das vantagens e descontos nas nossas atividades.
Trataremos o seu email com carinho e não o partilharemos com mais ninguém nem o utilizaremos para outros fins que não os acima descritos. Para fazer o nosso conteúdo chegar até si utilizamos o Mailchimp, pelo terá de concordar com termos de serviço do mesmo.
O filme conta uma história de determinação, talento e obsessão. Marty, um simples e determinado vendedor de sapatos, revela-se um prodigioso jogador de pingue-pongue, fazendo história no desporto e transformando-se numa lenda dos torneios profissionais e clandestinos, assim como nos constantes confrontos com as autoridades. O argumentista Ronald Bronstein e o realizador Josh Safdie, que já tinham colaborado em “Vão-me Buscar Alecrim” (2009), “Heaven Knows What” (2014), “Good Time” (2017) e “Diamante Bruto” (2019), inspiram-se na vida de Marty Reisman (1930-2012), aqui com o apelido Mauser e interpretado por Timothée Chalamet, num papel que lhe valeu o Globo de Ouro e o Critics Choice Award. Gwyneth Paltrow, Odessa A’zion, Kevin O’Leary, Tyler, The Creator, Abel Ferrara, Fran Drescher, Penn Jillette e Sandra Bernhard completam o elenco.
Marty Supreme tem imaginação, ritmo e um boneco de plasticina: Timothée Chalamet Luis Miguel Oliveira, Publico de 21 de Janeiro de 2026 Em Marty Supreme, que se estreia esta semana em Portugal, Josh Safdie volta às personagens que anseiam por dólares, sem grandes escrúpulos.
Os irmãos Safdie podem ter seguido caminhos a solo depois de Diamante Bruto, mas os filmes continuam a ser irmãos. Marty Supreme é um filme irmão de The Smashing Machine (o filme de Benny recentemente estreado): personagens encontradas num desporto de nicho tão nicho que é como uma catacumba (o ténis de mesa em Marty Supreme), a reconstituição de época (os anos 50, neste caso), e tanto o desporto como a época a servirem para um mergulho numa dinâmica capitalista de baixa extracção, luta pela vida todos os dias, a obsessão por um singelo punhado de dólares, a canseira para conseguir esses dólares.
São retratos mais ou menos críticos de um individualismo que dispensa escrúpulos excessivos (o Marty de Josh mente e engana toda a gente o tempo todo), mas sobretudo, sempre com muita ambiguidade, um elogio, mais fosco do que reflector, da “independência”. Pode-se dizer que este “Marty supremo”, personagem inspirada numa figura de culto no meio do ténis de mesa americano, mais do que pela ganância, é movido por um desejo feroz de preservação da sua independência — mas quantos compromissos, quantas rendições a interesses alheios, são necessários à preservação da independência sem implicarem que esta deixe de o ser? Irmão de The Smashing Machine, Marty Supreme é como ele filho de Diamante Bruto, o último filme que os Safdie assinaram em conjunto, onde Adam Sandler corria de esquema em esquema na eterna canseira de garantir a independência do seu pequeno comércio de diamantes.
A “independência” no cinema americano já foi uma coisa mais nítida do que é hoje, mas é curioso como os cineastas dessa órbita tendem a reflecti-la. Quando Abel Ferrara (a exuberante imaginação na escolha do elenco é uma das virtudes do filme) aparece como actor para o segmento narrativo mais delirante, que envolve banheiras que caem de um andar para o outro, um cão desaparecido e a chantagem para a sua devolução, batemos com a mão na testa: claro!, isto é o Go Go Tales de Josh Safdie, assim como Go Go Tales era o A Morte de um Apostador Chinês de Ferrara — toda a contraditória moralidade implicada pela preservação da independência.
Obviamente, também espreita o Scorsese urbano dos anos 70, com as suas personagens de “rua”, o Scorsese que encontrou (também) o desporto em O Touro Enraivecido, uma matriz talvez ainda mais nítida em Smashing Machine, mas já o dissemos, são filmes irmãos. Parece-nos um “irmão” mais desenvolvido, o de Josh: sem a tentação “antropológica” de filmar um actor-rocha (The Rock), fica com o seu oposto, o boneco de plasticina que Timothée Chalamet cada vez mais é. A partir daí, tem imaginação (o argumento deve ter uma ideia por linha), tem pertinência histórica e sociológica (a classe operária judaica na Nova Iorque de 1950; o capitalismo a ajustar- se à Guerra Fria), tem um inexcedível sentido do ritmo, como se o filme corresse ainda mais do que a sua personagem, tem aquela forma de recriar o mundo (seja a Manhattan dos anos 50 sejam os torneios de pingue-pongue no Japão) que é como uma maquete hiperdetalhada que continua a existir, e a viver, mesmo depois de se desligar a câmara, tem, em suma, o vigor e a tensão de um match point num jogo de ténis de mesa.
Marty Supreme acaba muito bem: o choro do bebé, o filho que Marty finalmente assume, a formar um coro com o choro de todos os bebés na maternidade — ou seja, uma história individual a encontrar, in extremis, uma história colectiva.