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Marina ficou órfã de ambos os pais, que morreram de complicações decorrentes da sida, quando era muito pequena. Agora, já com 18 anos, desloca-se até Vigo, na Galiza, para se encontrar com os avós paternos a fim de obter a assinatura necessária para se candidatar a uma bolsa de estudos numa faculdade de Barcelona. Ao ser acolhida por aquela família, que lhe é praticamente desconhecida, Marina divide-se entre a alegria da proximidade e o intensificar da dor pela falta dos progenitores. Entre encontros com os avós, tios, primos e outros parentes, vai descobrindo novas versões do passado familiar. E enquanto tenta reconstruir a história de amor dos pais, vive também o seu primeiro amor. Estreado no Festival de Cannes, este drama sobre perda e traumas transgeracionais fecha a trilogia assinada por Carla Simón, que se iniciou com “Verão 1993” (2017) e continuou com “Alcarràs” (2022, Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim), cujos argumentos são inspirados na sua própria história de vida num registo autoficcional.
Romeria: Carla Simón e a memória Jorge Pereira Rosa, c7nema, Num Festival de Cannes carregado de alegorias e retornos aos anos 80 para retratar a epidemia do Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Sida/Aids), nomeadamente nos filmes “The Plague”, “Alpha” e “La misteriosa mirada del flamenco”, a vencedora do Urso de Ouro de 2023, Carla Simón, adicionou mais um projeto sobre o tema, regressando assim a algo que já tinha explorado em “Verão 1993”, o filme que a projetou como uma das mais talentosas cineastas espanholas da atividade. Se juntarmos a “Verão 1993” os filmes “Alcarràs” e este “Romeria”, a trilogia de Simon, sublinhada pela memória, está completa, recebendo Cannes um novo objeto marcante sobre a questão, como o foi há dois anos “Aftersun”, onde uma mulher procurava entre os resquícios fragmentados da memória pelo pai.
Nunca largado o seu olhar que muitas vezes tem génese documental, com imagens gravadas em câmaras de vídeo da época que retrata, e mirando consecutivamente com tanto de antropológico como de sociológico a paisagem galega, Simón embarca numa história de busca de identidade na forma de uma jovem de 18 anos, Marina (Llúcia Garcia a irradiar o ecrã), que parte para o local para se encontrar com a família biológica. Procurando o reconhecimento notarial que é filha de um homem que, por entre a toxicodependência, a Sida e a Hepatite C, faleceu, nesta dolorosa viagem que revela surpresas e dissabores, Marina vai preenchendo o seu puzzle de vida e também a dos pais, cuja história, anos depois, ainda atormenta a família, como uma memória que querem apagar desde o tempo em que ela ainda não o era.
Consumida pela paranoia em torno da Sida nos anos 80, que era sinónimo de ostracização social, a família foi escondendo dos olhares alheios (e mesmo de dentro da família) o que se passava com eles. Consumidores e traficantes de droga, nomeadamente heroína, este casal seguiu a rota de tantas outras vítimas da epidemia. O que restou deles, além das memórias que todos guardam num local especial da mente, é Marina, que foi entretanto adoptada por uma família que também escondeu dela o destino dos seus pais biológicos.
Sensorial, sem perder o uso da palavra que conta, “Romeria” revela-se um filme notável que navega entre duas eras separadas pelo tempo, mas não pelos genes e dores. E aqui a memória que se busca não é apenas a da protagonista, mas a dos outros que viveram uma era.