CINECLUBE DE JOANE

Junho 2026
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de François Ozon
4 JUN 21h45
de Carla Simon
11 JUN 21h45
de David Borenstein e Pavel Talankin
18 JUN 21h45
de Radu Jude
25 JUN 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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18 21h45

MR. NOBODY CONTRA PUTIN David Borenstein e Pavel Talankin

Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o governo de Vladimir Putin pediu às escolas que exacerbassem o patriotismo e justificassem o ataque perante os alunos. Requeria, para isso, provas de vídeo que mostrassem que tais guias estavam a ser cumpridas. Pavel Talankin, um professor de Karabash, cidade industrial na zona de Chelyabinsk Oblast, passou dois anos a filmar as suas actividades na escola, a forma como a própria escola se foi transformando numa máquina de propaganda e recrutamento para o exército russo. Em 2024, acabou por sair da Rússia, isto com a ajuda da produção deste documentário que co-assinou com David Borenstein, tendo vencido o Óscar de melhor longa documental na cerimónia de 2026.

Titulo original: Mr. Nobody Against Putin (Alemánha/Chéquia/Dinamarca, 2025, 90 min)
Realização: David Borenstein e Pavel Talankin
Argumento: David Borenstein
Narração e Fotografia: Pavel Talankin
Produção: David Borenstein, Helle Faber, Alžběta Karásková, Radovan Síbrt, Lucie Kon
Montagem: Nicolaj Monberg, Rebekka Lønqvist
Estreia: 5 de Março de 2026
Distribuição: Risi Film
Clasificação: M/12
Mr. Nobody contra Putin: a toupeira que veio do frio Vasco Câmara, Publico de 4 de Março de 2026 Pavel Talankin era um peão do regime russo, foi toupeira como nos livros de espiões, exilou-se e agora pode receber um Óscar.
Pavel Talankin, 34 anos, é protagonista do que podia ser uma fábula capriana russa que, por causa da ditadura de Vladimir Putin, atravessa cenários kafkianos.
Mr. Nobody é ele: uma declinação de Mr. Smith.
Mr. Nobody contra Putin também é a história de Karabash: uma cidade industrial com pouco mais de dez mil habitantes, situada nos Montes Urais — cidade pequena, a sua fundição de cobre fez a Unesco estampá-la com a etiqueta de "cidade mais poluída da terra".
Pavel vive aí, trabalha aí. Num T2 no centro da cidade, com os seus 427 livros. É coordenador de eventos na escola primária. É uma espécie de Michael Moore a olhar para a sua cidade, mas um Michael Moore benigno, mais ingénuo e menos visível porque downsized. Karabash é a sua Flint, Michigan, a fundição de cobre está no lugar da General Motors daquele filme de Moore de 1989, Roger & Me.
Mr. Nobody contra Putin é o seu Roger & Me. Putin & Pavel. Também é uma história de iniciação. Com emanações de John Le Carré. Porque Pavel decide a determinado momento deixar de desabafar a solidão sozinho com a câmara de vídeo e tornar-se uma toupeira.
O momento-choque: Fevereiro de 2022. Pavel passa a usar o seu colaboracionismo, o de alguém que sem precisar de fazer muito pode dar consigo como "peão do regime", como um disfarce.
Pavel aprende assim o que é o olhar. Como videógrafo da escola, aparenta filmar uma coisa estando a filmar outra: "o abismo em que a escola" se tornou com a nova política federal de educação patriótica decretada por Vladimir Putin.
Eis flagrantes do fascismo: a propaganda da "operação militar especial" da Rússia sobre a Ucrânia; o revisionismo histórico; ex-alunos arrastados para a guerra e as lições de tiro e de lançamento de granadas dadas pelos mercenários do Grupo Wagner; a lei da prisão perpétua por traição ao Governo assinada por Putin; os prémios, apartamentos de luxo, a quem vende a alma ao regime; o kitsch de memória estalinista, em suma.
Aparentar filmar uma coisa estando a filmar outra: pode também ser uma outra definição para a sempre intraduzível e inexplicável mise-en-scène.
Entra em cena um estrangeiro, um cineasta americano que vive em Copenhaga. Força-se aqui uma elipse e passamos um pouco à frente nas explicações: a dado momento, David Borenstein, no Ocidente, coordena a transformação de Pavel Talankin, estava ainda o russo nos Montes Urais, em cineasta. Pavel ia filmando, David recebia o material em ficheiros e encaminhava o olhar. A transformação completa-se depois: no Verão de 2024, o russo exila-se na Dinamarca com o resto do material filmado em mais ficheiros.
Mr. Nobody contra Putin é hoje um documentário de Pavel Talankin e David Borenstein candidato ao Óscar. Mr. Pavel vai a Hollywood. A inspiração de Frank Capra regressa para reclamar o que é seu do título.
É um filme cheio de disfarces e promessas à superfície, o que pode motivar uma desconfiança sobre a própria superficialidade do objecto. Não deixaremos de questionar por isso se alguém de facto olha. O fluxo não se atém propriamente a uma determinação formal. A sedução e a familiaridade têm os automatismos de quem trata por "tu", sem perguntas, sem dúvidas, como extensão do corpo apenas, o agarrar numa câmara.
A mutação, em vez disso, produz-se no subterrâneo. Mr. Nobody contra Putin, mais a sua pele farsante, adensa-se, é tocado pelo tétrico e pelo trágico, mostra a tomada de consciência de uma personagem. Quando ela, como num western, ganha a coragem que falta à cidade. Será quando Pavel sente a "vontade incontrolável de matar alguém". Começou a surgir-lhe em Fevereiro de 2022.