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Orsolya, oficial de justiça em Cluj, na Transilvânia (Roménia), teve como responsabilidade despejar um idoso que ocupava ilegalmente a cave de um prédio antes da sua demolição. Ao perceber que a sua acção levou o pobre senhor ao suicídio, depara-se com uma grande dificuldade em gerir o sentimento de culpa por ter contribuído para a tragédia. Com um título inspirado no clássico "Europa 51" (1952), de Roberto Rossellini, e distinguido com o Urso de Prata para melhor argumento no Festival de Cinema de Berlim, Kontinental '25 tem realização do romeno Radu Jude, vencedor do Urso de Ouro em 2021 com "Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental" e do Prémio Especial do Júri em Locarno, em 2023, com "Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo".
A Europa como remorso em Kontinental ‘25 Luís Miguel Oliveira, Publico de 8 de Janeiro de 2026 O realizador Radu Jude importa o padrão do filme Europa 51, de Roberto Rossellini, para o seu Kontinental ‘25.
Com que se parece a Europa actual quando vista da Roménia? Certamente, não com o mesmo que parece quando se vê de Berlim, Paris ou Lisboa. E no entanto... E no entanto há um sentido de universalidade, de universalidade “continental”, e alcançá-lo, com maior ou menor ironia, é o propósito sinalizado logo no título do filme de Radu Jude, Kontinental '25 – o continente, em 2025, visto de Cluj, no coração da Transilvânia.
O título é uma glosa de um filme de Roberto Rossellini, Europa 51, como se torna evidente numa cena num bar onde há um cartaz desse filme a emoldurar o diálogo entre as personagens (lado a lado com um cartaz de Kuhle Wampe, esse filme do final de Weimar que foi escrito por Bertolt Brecht, nome que também é evocado durante o diálogo da cena).
Europa 51, que se dirigia ao coração de uma Europa embevecida pela impressão de prosperidade dos “milagres económicos” que acompanharam a reconstrução do pós-guerra, foi possivelmente o filme mais politicamente escandaloso do seu autor: radicalmente cristão, punha uma mulher da alta burguesia (Ingrid Bergman) a desfazer-se da sua fortuna, doada aos pobres, em gestos filmados como a interrogação das possibilidades de uma santidade “moderna”. A personagem acabava internada num hospício pelo próprio marido: na Europa de 1951, tamanha bondade só podia significar uma forma de loucura (e claro que o filme foi acusado de ser “comunista”, e obrigado a estrear em Itália com vários cortes).
No continente de 2025 não se passa nada de tão drástico a nível pessoal, mas a Radu Jude importa o padrão do filme de Rossellini. A sua protagonista é uma funcionária de um tribunal, que tem a missão de fazer cumprir as suas decisões, dar seguimento a ordens de despejo, por exemplo. É por aí que o filme começa: um desgraçado qualquer, que durante as primeiras cenas vagueia por bosques e jardins e parece que vai ser o protagonista, suicida-se depois de ser despejado do tugúrio que lhe servia de abrigo. Orsolya, assim se chama a personagem (interpretada por uma actriz excelente, Eszter Tompa), entra em crise pessoal, plena de dúvida, quando confrontada com o resultado da sua acção. Segue-se um périplo por Cluj, que vai ancorando numa sucessão de diálogos (excelentes e densos, sem nunca perderem a impressão de casualidade) com outras personagens, filmados em planos longos, estáticos, cheios de peso – porventura, aquilo que mais liga Kontinental '25 aos fundamentos da “nova vaga romena” dos anos 2000.
Apesar da preponderância dos diálogos, não há “exposição”, não há um sentido linear a extrair das palavras do filme, nem o filme é uma lição de moral política ou económica. A questão da caridade vem à baila num dos diálogos, mas é quase como comédia, a comédia da caridade moderna, os dois euros mensais pagos através das apps do telemóvel para um mar de causas, as ONG, Gaza, a Ucrânia... Jude não questiona a sinceridade da sua personagem, mas subtilmente equipara a caridade à anulação da revolta – é o diálogo onde se cita Brecht e a sua reacção aos processos de Moscovo e à notícia de que a paranóia estalinista estava a executar inocentes: “são os inocentes os que mais merecem morrer”, dizia, porque sendo a revolta contra Estaline um imperativo moral a “inocência” volvia-se numa “culpa”. Mas Estaline sempre era um rosto a personificar todo um estado de coisas. No continente '25, que rosto pode servir para o vudu da revolta? Bem pode Orsolya falar de Putin, de Viktor Orbán (a personagem vem da minoria húngara da população romena), mas nada se materializa: tal como a caridade, também o objecto de antagonismo é uma nuvem.
A grande nuvem da “modernidade”, de certa forma – e talvez estes países do leste europeu estejam mais próximos da Itália de 1951 do que nós aqui para as bandas ocidentais da Europa. No seu périplo por Cluj, Radu Jude multiplica os enquadramentos que dão sinais de uma “modernidade”, urbanística por exemplo, que parece desligada da História. Será por isso que vai duas vezes a um estranho “parque jurássico” nas colinas que circundam Cluj, um reino de dinossauros mecânicos meio-patéticos – uma História “abstracta”, pré-humana, feita espectáculo de feira popular? Ou que filma os gadgets da modernidade (robots, carrinhos telecomandados, barulhos e imagens de telemóvel, televisores invariavelmente sintonizados em futebol) como uma “interferência”, a tecnologia como uma melga a zumbir aos ouvidos?
No diálogo final, com um padre, Orsolya percebe que sempre entendeu mal uma passagem dos Evangelhos, que diz que os que têm muito, mais terão, e aos que não têm nada tudo será tirado. O padre explica-lhe que não se trata de posses materiais, mas de posses espirituais. O filme de Jude, ao cabo de um passeio labiríntico, encontra-se em cheio com o de Rossellini, antes de se fechar em imagens de rotundas de Cluj, pejadas de cartazes de uma qualquer campanha eleitoral, a bandeira romena sempre ao lado da bandeira da UE.