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O MIÚDO DA BICICLETA de Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne

Sinopse

Cyril, de 12 anos, foi abandonado pelo pai numa casa de acolhimento para rapazes, sem qualquer explicação. Fragilizado e cheio de revolta, acaba por se tornar amigo de Samantha (Cécile de France), uma cabeleireira a quem ele consegue persuadir em acolhê-lo aos fins-de- semana. Decidido a reencontrar o pai, o rapaz convence-a a procurá-lo, crente de que encontrará a explicação que precisa para aquele afastamento. Porém, nem tudo acontece como previsto e Cyril vai ter de aprender a receber o amor de Samantha e encontrar novas razões para continuar...

Realizado pelos irmãos Dardenne, foi o filme vencedor do grande prémio do Júri na edição de 2011 do Festival de Cannes.

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Ficha Técnica

Título original: Le Gamin au Vélo (França, 2011, 97 min.)
Realização e Argumento: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Interpretação: Thomas Doret, Cécile De France, Jérémie Renier, Olivier Gourmet
Fotografia: Alain Marcoen
Montagem: Marie-Hélène Dozo
Produção: Jean-Pierre e Luc Dardenne e Denis Freyd
Estreia: 22 de Dezembro de 2011
Distribuição: Leopardo Filmes
Classificação: M/12

Críticas

Reimaginar a família com os irmãos Dardenne
João Lopes, Cinemax, 22 de Dezembro de 2011

Num certo sentido, podemos resumir o novo filme dos irmãos Dardenne, "O Miúdo da Bicicleta" ("Le Gamin au Vélo"), como a história imaginária de uma família. Ou talvez, melhor: a história de uma família imaginada.

Não por acaso, no seu centro está um rapaz à deriva, Cyril (Thomas Doret), por assim dizer imaginando o que a sua família poderia ter sido. Por um lado, o pai (Jérémie Renier) vive num constantemente distanciamento de Cyril, repelindo a possibilidade de o retirar do asilo que o acolheu; por outro lado, a relação com Samantha (Cécile de France) funciona como uma espécie de maternidade ambígua, protectora e sempre mais longe do que parece.

Provavelmente, nas mãos de cineastas mais dados à ilustração "sociológica" dos comportamentos, "O Miúdo da Bicicleta" não passaria de uma deambulação mais ou menos moralista sobre a crise do espaço familiar (não é verdade que a demissão de pensar os nossos problemas se traduz na proliferação histérica e caótica da palavra "crise"?).

O certo é que Jean-Pierre e Luc Dardenne não filmam a norma, mas a excepção. Em boa verdade, no seu cinema qualquer ser humano é tão singular (e tão belo) que é sempre uma excepção.

E não é das menores maravilhas deste filme que a bicicleta que o título refere seja uma verdadeira personagem, ou melhor, um objecto que, como um íman, atrai as emoções de todas as personagens. Quando descobre que o pai vendeu a sua bicicleta, Cyril inicia uma verdadeira e dramática aventura para a recuperar. E não é banal o que está em causa: sem a bicicleta, Cyril talvez nem sequer consiga conceber a possibilidade de alguma relação, familiar ou seja com quem for.

Distinguido com o Grande Prémio do Festival de Cannes (2011), "O Miúdo da Bicicleta" constitui, obviamente, a confirmação exemplar de um rigor de mise en scène que faz dos Dardenne um caso à parte no panorama da produção europeia. A partir de "A Promessa" (1996), eles construíram uma obra que é, de uma só vez, uma visão clínica das zonas menos visíveis do quotidiano do seu país, a Bélgica, e uma celebração invulgar das contínuas possibilidades do realismo.

É a exigência realista que liga os seus filmes, de "Rosetta" (1999) a "O Silêncio de Lorna" (2008), passando por "O Filho" (2002) e "A Criança" (2005). O realismo, entenda-se, não é filmar as coisas como elas se apresentam, mas partir do seu reconhecimento para tentar compreender aquilo que estão para além da sua própria visibilidade. É, acima de tudo, uma tradição plural que nos ajuda a resistir ao espontaneísmo superficial que triunfou nos discursos e linguagens de raiz televisiva. Para os Dardenne, ser realista é uma ética cinematográfica.

Entrevista com Jean-Pierre e Luc Dardenne

Qual a origem de O MIÚDO DA BICICLETA?

Luc: Tivemos essa história nas nossas cabeças durante muito tempo: uma mulher que ajuda um rapaz a emergir da violência que o mantém prisioneiro. A primeira imagem foi a deste rapaz, este ser em tumulto, suavizado graças a outro ser humano.

Jean-Pierre: Primeiro imaginámos Samantha como uma médica mas mudámos de opinião e decidimos que ela seria uma cabeleireira, instalada no seu bairro desde há bastante tempo.

Este é um filme muito comovente sem nunca cair em sentimentalismos.

Jean-Pierre: Graças a Deus!

Luc: Nunca quisemos que o público percebesse porque é que a Samantha se sentia arrastada por Cyril. Não queríamos explicações psicológicas. Não queríamos que o passado explicasse o presente. Quisemos que o público pensasse: “Ela está a fazer isto!”. E isto já é bastante.

Cyril está sempre em movimento. Ele é incansável.

Jean-Pierre: Sim, ele está muitas vezes na sua bicicleta... Este miúdo sem quaisquer laços corre atrás de amor sem o saber.

As relações entre pais e filhos destacam-se muitas vezes nos vossos filmes: “A Promessa”, “A Criança”, “O Filho”. Porquê?

Luc: Somos todos “filhos de” ou “filhas de”...

Jean-Pierre: A nossa sociedade glorifica o indivíduo. Talvez seja como uma reacção a este facto que regressamos tantas vezes à ideia de vínculo. Mesmo que nem sempre seja biológico, como acontece com Samantha e Cyril.

Apesar da violência da história de Cyril o filme tem um lado luminoso.

Jean-Pierre: Sim, procurámos encontrar alguma fluidez. Filmámos no Verão, o que é uma novidade para nós.

É difícil filmar a bondade?

Luc: Diante dela, a maldade é sempre mais entusiasmante (risos). Era muito importante não retratarmos uma bondade cliché, claro, mas sim mantermo-nos o mais próximos possível desta ideia de abertura e troca.

Jean-Pierre: Filmar uma personagem que tem os melhores sentimentos de outra pessoa no coração não sucede habitualmente connosco. Filmar no Verão ajudou-nos a dar ao filme alguma claridade e suavidade. E Cécile de France reúne estas qualidades naturalmente.

É pouco habitual trabalharem com actores conhecidos.

Luc: Nada foi programado. Nunca escrevemos com um actor específico em mente. Mal terminámos o argumento começámos a pensar em actrizes e em Cécile em primeiro lugar. Com ela sabíamos que evitaríamos toda a psicologia... que o seu corpo e rosto seriam suficientes. Entregámos-lhe o argumento e ela aceitou logo. Ela fez-nos algumas perguntas relativamente às motivações da sua personagem. Dissemos-lhe que a Samantha estava ali, e ponto final. Ela acreditou em nós.

Ela parece ter redescoberto o seu sotaque belga...

Jean-Pierre: Sim! Fomos muito cuidadosos com o sotaque. Não queríamos o efeito “chegou a actriz francesa!”. A Cécile é belga, não nos esqueçamos disto. Ela cresceu não muito longe da região onde o filme se desenrola mas o seu sotaque é ligeiro e não quisemos exagerá-lo.

Como encontraram Thomas Doret, o rapaz que interpreta Cyril e que está quase sempre no ecrã?

Jean-Pierre: Com o método habitual quando se procuram actores daquela idade: pusemos um anúncio nos jornais e depois organizámos um casting com centenas de crianças.Thomas apareceu no primeiro dia, foi o quinto que vimos e chamou logo a atenção.

Luc: Desde o início ficámos impressionados com a expressão dos seus olhos, com o seu ar teimoso, o seu aspecto concentrado...

Jean-Pierre: Ele tinha também uma capacidade admirável para aprender os diálogos... e ele tinha muitos. Desde os primeiros testes sentimos que ele era a personagem. Ele tinha um entendimento intuitivo do seu papel. Algo imediatamente preciso e pungente, sem nunca choramingar.

Luc: Ele foi o único a estar de forma consistente durante as 6 semanas de ensaios. Ele tornou-se um líder! Sabia todas as cenas de cor ainda antes de o termos chamado. E quando se enganava ficava verdadeiramente chateado. O Thomas é cinturão castanho no Karate! Isso ajuda-o na concentração e com a memória.

Em O MIÚDO DA BICICLETA temos a cidade mas também a floresta que a rodeia...

Luc: Imaginámos um triângulo geográfico para este filme: a cidade, a floresta e o posto de combustível. A floresta é, para Cyril, um local de atracções perigosas, o local onde ele pode aprender a ser um pequeno criminoso. A cidade encarna o passado com o seu pai e o presente com a Samantha. O posto de combustível é um espaço de transição, onde o enredo sofre muitas reviravoltas.

Jean-Pierre: Quisemos construir o filme como uma espécie de conto de fadas, com vilões que fazem com que o miúdo perca as suas ilusões, e com Samantha, que surge quase como uma fada-madrinha. Durante pouco tempo, chegámos mesmo a pensar dar o título “Um Conto de Fadas dos nossos dias” ao filme.

Pela primeira vez usam música, ainda que com moderação...

Luc: É muito raro nos nossos filmes e hesitámos durante muito tempo. Num conto de fadas é necessário haver um desenvolvimento com emoções e novos começos. Pareceu-nos que a música, em certos momentos, pode funcionar como uma carícia tranquilizadora para Cyril.

Estão de regresso a Cannes, onde já conquistaram duas Palmas de Ouro (por “Rosetta”, em 1999, e “A Criança”, em 2005). O que significa para vocês o Festival?

Jean-Pierre: É muito importante mostrarmos os nossos filmes aqui. É muito agradável voltarmos cá, de cada vez. Adoramos a onda de adrenalina que apenas existe em Cannes.

Luc: O nosso cinema deve muito ao festival. A nossa história continua aqui, uma história feliz até agora...

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