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PROGRAMAÇÃO: Maio de 2012

Filme
MAI
3
Foto
Rainer Werner FASSBINDER

Filme
MAI
9
Foto
Werner HERZOG
* ENTRADA LIVRE!


Filme
MAI
11
Foto
Vicente Alves do Ó


Filme
MAI
23
Foto
Akira KUROSAWA
* ENTRADA LIVRE!

Filme
MAI
24
Foto
Theo ANGELOPOULOS
* ENTRADA LIVRE!

Filme
MAI
31
Foto
Jean-Pierre Dardenne, Luc DARDENNE
* TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM!

Sala de exibições Pequeno auditório
Casa das Artes de V. N. de Famalicão
Parque de Sinçães - V. N. de Famalicão

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PAISAGEM NA NEBLINA de Theo ANGELOPOULOS

Sinopse

Sessão inclui apresentação e debate com JOÃO CATALÃO, programador da CLARABOIA, agenda cultural da Casa do Professor de Braga.

A viagem de iniciação de dois miúdos que fogem de casa em direção à Alemanha em busca do pai que não conhecem. O pai pródigo, que regressa a casa em muitos dos filmes de Angelopoulos, deixará assim os seus filhos à deriva. Durante a viagem descobrirão o mundo, com o bem e o mal, a verdade e a mentira, o amor e a morte, o silêncio e a palavra, ao mesmo tempo que inventam o seu universo secreto. Como Alexandros contará a Voula: “No início havia o caos...”. Um filme sobre o vazio, o desespero e as fraquezas da sociedade contemporânea, pontuado por referências a outros trabalhos do realizador, que se revela como uma experiência única de cinema. [Cinemateca Portuguesa] Leão de Prata no Festival de Veneza.

Download do Dossier

Ficha Técnica

Título Original: Topio Stin Omichli (Itália, França, Grécia, 1988, 127 min)
Realização: Theo Angelopoulos
Interpretação: Tania Palaiologou, Michalis Zeke, Stratos Giorgigoglou, Eva Kotamanidou,
Argumento: Theo Angelopoulos, Tonino Guerra, Thanassis Valtinos
Produção: Theo Angelopoulos, Eric Heumann, Amedeo Pagani, Stéphane Sorlat
Musica: Eleni Karaindrou
Fotografia: Giorgos Arvanitis
Montagem: Yannis Tsitsopoulos

Críticas

Memórias da Grécia e da Europa
João Lopes, Cinemax

Com a morte de Theo Angelopoulos desaparece aquele que foi um dos principais embaixadores do cinema (e da cultura) da Grécia: através dos seus filmes, somos levados a repensar as relações entre o individual e o colectivo.

Infelizmente, nos últimos tempos, sobretudo graças à acção de muitos lugares-comuns mediáticos, a palavra "Grécia" quase só serve para conotar uma ideia de confusão e irrisão. Com a inesperada notícia da morte do realizador Theo Angelopoulos, podemos pelo menos recordar que há mais Grécia para além da agitação dos telejornais.

Durante muito tempo, Angelopoulos foi mesmo o principal embaixador do cinema grego e, em boa verdade, da cultura do seu país. Nos anos 70 e 80, em especial, o seu trabalho impôs-se como desafio às normas tradicionais de abordagem da história, cruzando o individual e o colectivo através de uma linguagem tão arrojada como sedutora.

"A Viagem dos Artistas" (1975), entre nós estreado no Festival da Figueira da Foz, pode ser tomado como símbolo eloquente do melhor dos seus conceitos de mise en scène. Evocando os tempos da Segunda Guerra Mundial e as suas sequelas sociais e morais, Angelopoulos cria longas cenas registadas em planos-sequência, recriando as próprias coordenadas espaciais e temporais, cruzando de forma subtil as memórias da Grécia e da Europa. Em boa verdade, no seu filme, pode saltar-se de uma época para outra sem sair do mesmo plano.

Ironicamente, a sua consagração com a Palma de Ouro de Cannes, em 1998, aconteceu com um dos seus filmes mais retóricos, "A Eternidade e um Dia", de algum modo "imitando" os momentos mais fortes dos seus títulos anteriores. Em 1995, com o magnífico "O Olhar de Ulisses", arrebatara o Grande Prémio do Júri, também em Cannes: com Harvey Keitel no papel central, deambulamos pelas memórias dos irmãos Manakis (pioneiros do cinema), numa viagem que se transfigura numa reflexão sobre as convulsões políticas de toda a região dos Balcãs.

O cineasta grego que filmava na Grécia e sobre a Grécia
Luís Miguel Oliveira, Público de 26 de Janeiro de 2012

Estava a rodar "O Outro Mar", quando foi atropelado por uma motocicleta. O cineasta era o vulto maior de uma cinematografia que permanece desconhecida para o resto da Europa. A sua obra reflecte a história grega.

Para todos os efeitos Theo Angelopoulos era o rosto do cinema grego, o vulto maior de uma cinematografia que permanece, para o resto da Europa, largamente desconhecida. Outros gregos adquiriram projecção internacional, Costa-Gavras ou Nico Papatakis, por exemplo, mas como cineastas "emigrantes", com obra feita em França ou nos EUA. Se se tratasse de nomear um grego a filmar na Grécia (e sobre a Grécia), mesmo que fatalmente submetido às regras das co- produções que baralham a nacionalidade dos filmes, o nome a destacar seria Angelopoulos. Morreu ontem, aos 76 anos, vítima de atropelamento, perto de Atenas.

Hoje, há alguns jovens cineastas gregos a conseguirem penetrar nos circuitos internacionais, e até num meio tradicionalmente exíguo (e tão pouco atreito à variedade geográfica) como é o circuito comercial português - Yorgos Lanthimos, de quem aqui vimos "Canino", é um exemplo. Mas isso não muda o essencial: hoje, como durante as últimas décadas, Angelopoulos confundia- se com a própria ideia do cinema grego.

Nascido em 1935, a sua infância sofreu com as atribulações da vida grega da época, a II Guerra Mundial e a Guerra Civil, no dealbar da qual o pai "desapareceu" depois de ter sido preso, episódio que marcou o jovem Theodoros e a que muito anos depois, já conhecido pelo diminutivo Theo, viria a aludir, obliquamente, em mais do que um filme.

Como o seu contemporâneo Costa-Gavras (só dois anos mais novo do que ele), também o jovem Angelopoulos se deixou fascinar pelas luzes de Paris e pelas suas promessas de cultura e modernidade. Mas se Costa-Gavras ficou por França, Angelopoulos voltou à Grécia. Na sua passagem por Paris (e depois de estudos de Direito em Atenas), estudou Antropologia na Sorbonne (onde foi aluno de Lévi-Strauss), cinema no IDHEC (à época, anos 1950/1960, a principal escola de cinema francesa, procurada por inúmeros candidatos a cineastas de aquém e além fronteiras), e, depois, cruzando antropologia e cinema, foi discípulo de Jean Rouch num estágio no Museu do Homem. Angelopoulos referiu-se várias vezes a Rouch como sendo um seu "mentor", o que é curioso, porque o seu cinema se afastou progressivamente do preconizado por Rouch, não sendo o "cinema directo" do cineasta-antropólogo francês a referência mais imediata a surgir no espírito de quem quer que depare com os filmes de Angelopoulos.

O que é ser grego?

O cineasta construiu a sua obra em reflexão sobre temas extraídos da história grega contemporânea, postos em articulação, directa ou indirecta, com o legado da Grécia clássica. Quase todos os seus filmes - "O Thiassos"/"A Viagem dos Artistas", de 1975, porventura o mais célebre, mas também "Alexandre, o Grande", de 1980, "Viagem a Citera", de 1983, "O Olhar de Ulisses", de 1995, porventura o melhor - interrogam justamente o que é "ser grego", o que é lidar com uma história pessoal e circunstancial e ao mesmo tempo com um passado avassalador.

Dentro dessa temática, Angelopoulos encontrou algumas figuras que usou e repetiu frequentemente: a errância, personagens que não param de caminhar e de viajar, pequenas "epopeias" desenroladas dentro de um circuito frequentemente fechado; e o insucesso, o inacabamento, sítios aonde não se chega, objectivos que não se cumprem, coisas que não se concluem.A Viagem dos Artistas, sobre umatroupede actores em caminhada para lado nenhum com uma peça que nunca conseguem verdadeiramente montar, é a expressão perfeita deste conjunto de motivos, mas O Olhar dos Ulisses, o filme em que Harvey Keitel calcorreava os Balcãs à procura do "cinema original" (umas bobines perdidas dos pioneiros do cinema grego, os irmãos Manakis) perante as imagens da dissolução de um tempo (era a época da "implosão" jugoslava) e dos seus símbolos (a poderosíssima imagem de um busto de Lenine, agora pateticamente à deriva), associava a temática de Angelopoulos a um olhar, cheio de Zeitgeist, sobre a Europa sua contemporânea.

Estilisticamente, era um cultor do plano-sequência, um dos últimos grandes estetas do plano- sequência, do plano longo e coreografado, "gramática" a que talvez não seja estranha a influência de cineastas do Leste europeu, do russo Tarkovski ao húngaro Miklos Jancsó - e pondo as coisas assim, o cinema de Angelopoulos sempre teve um travo mais "oriental" do que "ocidental", como que exprimindo as fronteiras geográficas e culturais da Grécia.

À notícia da sua morte, atropelado por uma motocicleta, enquanto rodava um filme que se chamaria "O Outro Mar", lembramo-nos de que foi ele o autor de um dos mais espantosos planos- sequência dos últimos anos. Precisamente, o final de "O Olhar de Ulisses", as personagens a desaparecerem na neve e no nevoeiro de Sarajevo, até que no ecrã não restava mais do que uma imensidão branca.

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