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PROGRAMAÇÃO: MAIO 2016
Sala de exibições
Pequeno auditório
Casa das Artes de V. N. de Famalicão
Parque de Sinçães - V. N. de Famalicão
ANOMALISA de Duke Johnson e Charlie Kaufman
Sinopse
Michael Stone ganhou fama e fortuna com o seu livro de auto-ajuda “Como Posso Ajudá-
lo a Ajudá-los?”. Todavia, ele é um homem melancólico, misantropo e amargurado com a sua
própria vida. Quando se desloca ao Connecticut (EUA) para uma palestra, conhece Lisa, uma
pessoa muito especial por quem se apaixona profundamente. Em poucos dias os dois vivem uma
intensa história de amor e Michael sente-se renascer. Porém, ele é um pai de família respeitado e,
mais tarde ou mais cedo, chegará momento de regressar à sua existência de sempre...
Realizado por Charlie Kaufman e Duke Johnson, um filme de animação em "stop motion"
para o público adulto que recria a peça homónima também da autoria de Kaufman (sob o
pseudónimo de Francis Fregoli). No filme, podemos ouvir as vozes de David Thewlis,
Jennifer Jason Leigh e Tom Noonan.
Ficha Técnica
Título original: Anomalisa (EUA, 2015, Cores, 90 min.)
Realização: Duke Johnson, Charlie Kaufman
Interpretação: David Thewlis (Voz), Jennifer Jason Leigh (Voz), Tom Noonan (Voz)
Produção: Rosa Tran, Duke Johnson, Charlie Kaufman, Dino Stamatopoulos
Argumento: Charlie Kaufman
Musica: Carter Burwell
Fotografia: Joe Passarelli
Montagem: Garret Elkins
Classificação: M/12
Estreia: 21 de Janeiro de 2016
Distribuição: NOS Audiovisuais
Um filme animado para adultos
João Lopes, DN
Surpresa absoluta: no universo da animação cinematográfica, claramente dominado pelas produções (melhores ou piores, não é isso que está em causa) que visam, antes de tudo o mais, os espectadores infantis, eis que surge um filme com bonequinhos animados (pela técnica clássica de "stop motion") que nos conta uma história de adultos e para adultos. Surpresa relativa, enfim: sobretudo como argumentista - de Queres Ser John Malkovich? (1999) ou O Despertar da Mente (2004) - o realizador Charlie Kaufman é responsável por alguns dos projectos mais originais da produção americana das últimas duas décadas.
Agora associado a Duke Johnson, um especialista em técnicas de animação, Kaufman apresenta- nos o mundo banal de um autor de livros de "auto-ajuda", transfigurando-o numa viagem aos confins da intimidade, aí onde podemos contemplar, por vezes com infinita mágoa, a verdade mais radical das relações humanas. Anomalisa não se parece com nada que conheçamos e fica, desde já, como uma das grandes estreias de 2016.
Anomalisa (2015) de Duke Johnson e Charlie Kaufman
Ricardo Vieira Lisboa, à pala de Walsh, 21 de Janeiro de 2016
Se Siegfried Kracauer está muitas vezes interessado na imagem documental e nas news reels não deixa de ser verdade que o cinema fantástico, o cómico ou a fábula também o interessaram. Sobre a obra de René Clair e Jean Vigo o interesse do filósofo fixava-se na forma como a lógica do sonho se inseria na lógica do real ou de como a fábula se tornava porosa a esse real. Ou seja, aquilo que a imagem em movimento do cinema fantástico pode revelar ao espectador é não tanto um olhar sobre o real mas uma sensação deste, talvez mais próxima que a obtida pela simples observação mediada pelo cinema. Sirvo-me disto para poder abordar a opção tomada por Charlie Kaufman pelo cinema de animação em Anomalisa (2015).
Há uma regra não escrita de que o bom cinema de animação é aquela cuja história não podia ser contada de outra forma (por exemplo uma história sobre pinguins que dançam sapateado) e que se pode generalizar para: todo o bom filme é aquele que descobre o dispositivo certo para a história que quer contar. Não querendo discutir de que modo é ou não verdadeira tal afirmação, parece-me que Anomalisa é um filme que repudia, pelo menos à primeira vista, essa regra, já que a história de um homem que viaja a Cincinatti para proferir uma palestra para trabalhadores de call center e que na noite anterior, no hotel, descobre o amor da sua vida para logo depois o deixar escapar não tem praticamente nenhuma das típicas necessidades fantásticas que o cinema de animação permite mais facilmente concretizar. Aliás, Kaufman e Johnson deliciam-se em mostrar banalidades: logo a começar pelo plano contínuo que acompanha o protagonista do check-in no lobby do hotel ao quarto, assiste à micção e observa uma muda para roupas mais confortáveis, plano esse que deve ter cerca de cinco minutos. Se a animação (quase) não serve aqui os desejos de fantasia, serve no entanto outro aspecto (e adequa-se assim à natureza da história): o de representar de forma tocantemente real a intimidade na sua... banalidade. De novo numa cena bastante longa os realizadores observam um primeiro (e que será único) encontro sexual com todos os seus típicos azares e inibições, o cabelo que se prende debaixo de um braço, a mão que tentando ser sedutora acaba por fazer cócegas, a pancada da nuca na cabeceira, a boca que não faz o que devia com a pressão apropriada. A animação serve então a Kaufman e Johnson como efeito de distanciamento do real que permite, paradoxalmente, um efeito de realidade que a imagem de natureza fotográfica, pela sua inevitável crueza, tende a não conseguir representar sem causar uma afronta à intimidade. Esta é a grande força de Anomalisa, força que é rara no cinema de animação e que portanto consiste – como o título do filme dá a entender – numa bela anomalia.
Outro aspecto de interesse no discurso do filósofo alemão passa pelo fascino deste com The Gold Rush (A Quimera do Ouro, 1925) é a forma como o personagem de Chaplin é profundamente kafkiano na sua fragmentação, “he lost his self, and this is why he cannot experience what we call life”. Talvez não se pudesse descrever de forma mais certeira Michael Stone. Ele é um homem que perdeu algo ou no qual algo deixou de funcionar: todos os rostos do mundo viraram o mesmo e todas as vozes do mundo falam com o mesmo timbre como se houvesse sofrido um impacto no lóbulo temporal e padecesse de prosopagnosia (literalmente, algo que também acontece à personagem de James Bond neste último tomo da série, confirmando essa dúvida sobre a psicótica indiferença do espião pela vida humana). Michael como Chaplin e Bond são incapazes de sentir a vida como nós, o que os diferencia é a forma como reagem a essa sua incapacidade, para Micael é a depressão, a visão niilista, a esperança numa revelação amorosa (para os outros é a inconsciência do mundo e a sociopatia, dois lados da mesma moeda). Mas se estas são características do protagonista, certo é também que são características do próprio cinema de Charlie Kaufman: o restaurante repleto de pessoas com o rosto de John Malkovich em Being John Malkovich (Queres Ser John Malkovich?, 1999) já anunciava a voz omnipresente de Tom Noonan ou o personagem de Nicolas Cage em Adaptation (Inadaptado, 2002) chamado, nem de propósito Charlie Kaufman, com as suas frutrações sexuais e uma constante aversão a si e ao mundo. Anomalisa é pois também uma glitch no tom do cinema de Kaufman, já que se o texto é o mesmo sempre, agora já somos capazes de rir – nervosamente – com ele. E rimos porque nos reconhecemos.




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