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Salvador Mallo, personagem interpretado por Antonio Banderas, é o aclamado diretor de cinema a horas vagas. As suas memórias levam-no até à sua infância na cidade valenciana de Paterna, nos anos 60, junto com os seus pais, os seus primeiros amores, o seu primeiro desejo, a sua mãe, a sua mortalidade, o seu primeiro amor em adulto em Madrid nos anos 80, a dor da separação quando o amor ainda estava no seu ponto alto. Dor e Glória estreou no Festival de Cannes, onde Antonio Banderas recebeu o prémio de melhor actor.
Almodóvar e Banderas com dores e glória em Cannes, Vasco Câmara em Cannes, Público de 18 de Maio de 2019Um realizador em encontro introspectivo com os seus fantasmas escolheu um actor a precisar de reavaliar a sua carreira. Antonio Banderas é Pedro Almodóvar em Dor y Gloria. Momento pudico e encantatório na competição de Cannes.
Na manhã depois da gala gloriosa, o que incomoda a chuva a Pedro Almodóvar e uma dor nas costas a Antonio Banderas? Brincadeira de realizador e de actor, eis o dia seguinte à recepção de Dolor y Gloria na competição do Festival de Cannes, que se prolonga nas críticas de jornais e revistas e no encontro com jornalistas que os carregam ao colo. Há possibilidade de algum tempo mais com os pés acima do chão, então. Podem estes dias, sim. Antes de os pés terem de ser colocados firmemente no solo – Pedro Almodóvar “dixit”, é esse o seu lema, a maneira de lidar com o sucesso.
É ele o realizador. O actor é Antonio Banderas, que em Dolor y Gloria é um cineasta, chamado Salvador, mas no fundo é ele, Pedro. Deprimido, solitário, com dores nas costas e sem desejo, cheio de adições, comprimidos e heroína, que substituem o cinema que lhe faz falta, que ele julga já não ser capaz de fazer; com a memória de uma mãe que não se orgulhou do seu filho. E com os seus outros fantasmas. Os dos amantes, que se perderam e de que sobram os rastos nos textos e nos filmes que fez.
As roupas e a casa deste Salvador de Dor y Gloria são como as de Pedro. “Mas cuidado”, avisa Almodóvar. “Que não se leve isso de forma demasiado literal”. (No caso dele, a adição que lhe resta é apenas o cinema). O filme está-nos sempre a avisar que é para tomar cuidado. E é o que o torna a coisa mais bonita que Pedro Almodóvar apresenta em muitos anos. É um filme em que um realizador, a sua vida e as pessoas da sua vida são projectados, mas em que cada sinal de autobiografia é, ao mesmo tempo, desmaterializado por uma dimensão encantatória. A ficção como construção de pudor – sobre isso, a sequência em que Salvador (Banderas) recebe um ex- amante (Leonardo Sbaraglia), dois homens de 50 anos excitados, coisa talvez pouco vista nos filmes, como se vem notando, mas não é isso, a proeza, que interessa mais, é a delicadeza, como um sonho reconciliatório; ou ainda o momento do primeiro desejo sexual do jovem Salvador, na Espanha dos anos 60 (os olhos do miúdo que se fecham para se proteger da intensidade do que irrompe, mas as pernas que depois não aguentam...), uma sequência de que Almodóvar está orgulhoso, “ainda por cima por estar a dirigir um miúdo”.
“Pudor” é uma palavra de Banderas e de Penélope Cruz (interpreta a mãe de Salvador no passado) ao darem conta do que sentiram com as personagens em mãos. Fê-los colocar menos questões ao seu realizador do que em outros filmes – era suposto ser a vida dele, como podiam querer indagar sobre isto ou aquilo? O caso de Banderas é comovente, porque, tendo sido o objecto de desejo do cinema de Almodóvar em cinco filmes dos anos 80, tendo estado separados profissionalmente (que não pessoalmente) durante décadas e em continentes diferentes, têm-se vindo a encontrar recentemente nos filmes (A Pele que Habito e Os Amantes Passageiros), mas é em Dor y Gloria que se consuma algo à altura de uma história de amor: um cineasta que se atreve a um encontro introspectivo com os seus fantasmas escolhe um actor em momento de redescoberta pessoal, cortesia de um ataque cardíaco há dois anos e de uma reavaliação do que andou a fazer como “latin lover” aventureiro em Hollywood.
Em termos de impacto num festival como o de Cannes, talvez se tenha que regressar, no caso de Almodóvar, a 1999, a Tudo Sobre a Minha Mãe, que era o favorito para a Palma de Ouro desse ano – não ganhou, e ainda há quem considere que teria sido um daqueles momentos de comunhão entre o prémio máximo e a adesão popular que os festivais procuram. Qualquer texto sobre a competição desta 72.a edição por estes dias fala do favoritismo de Dor y Gloria, mas falta muito, falta ainda meio festival para acontecer. Quanto à conversão de um cineasta “barroco” num cineasta introspectivo, nada convincente em Julietta (2016) por exemplo, aí, sim, Dor y Gloria leva a palma, a delicadeza é a sua natureza.