CINECLUBE DE JOANE

Outubro 2019
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Alex Ross Perry
3 OUT 21h45
de Pedro Almodovar
10 OUT 21h45
de Akira Kurosawa
24 OUT 21h45
de Tiago Guedes
31 OUT 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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24 21h45

RAN - OS SENHORES DA GUERRA Akira Kurosawa

Este grandioso filme de Akira Kurosawa adapta a peça Rei Lear aos temas e ambientes do Japão Medieval, com o episódio de um velho guerreiro que decide repartir as suas terras pelos três filhos, desencadeando uma luta de poder entre os irmãos, que termina de forma trágica. Da mestria de Kurosawa resulta uma extraordinária e excêntrica fusão entre um dos maiores clássicos literários do ocidente e um estudo minucioso da história do Japão do século XVI.

Título original: Ran (Japão/França, 1985, 160 min.)
Realização: Akira Kurosawa
Interpretação: Tatsuya Nakadai, Akira Terao, Jinpachi Nezu
Argumento: Akira Kurosawa, Hideo Oguni e Masato Ide
Fotografia: Takao Saito, Shoji Ueda
Produção: Serge Silberman e Masato Hara
Distribuição: Midas Filmes
Estreia: 18 de Julho de 2019
Classificação: M/12
A guerra do trono, Jorge Mourinha, Publico de 18 de Julho de 2019

Em 1985, Kurosawa filmou uma versão sui generis do Rei Lear de Shakespeare. Agora em cópia restaurada, Ran confirma-se como obra maior de uma carreira que não foi parca em clássicos.
Raros são os filmes que, não sendo os últimos, respiram tanto um perfil de testamento como este Ran. Em rigor, Akira Kurosawa (1910-1998) ainda faria mais três filmes depois: Sonhos (1990), Rapsódia em Agosto (1991) e Ainda Não! (1993). Nenhum deles, contudo, tem o “peso”, a gravitas da história do senhor Hidetora, que tinha três filhos e lhes entregou as chaves do reino — e também da destruição do que tanto sangue tinha custado a ganhar. Um velho que vê o mundo a mudar e, julgando poder evitar a dissolução do reino, acaba por acelerá-la enquanto ganha consciência da transitoriedade do poder.
Ran, palavra japonesa que significa “caos”, é a história do velho Lear de Shakespeare, o “leão no Inverno” que desbarata o reino, que Kurosawa transpôs para o Japão medieval. É uma tragédia tolhida pelos códigos feudais que o mestre japonês filmou em exteriores nipónicos usados como um palco de teatro, com a imemorial natureza a servir de cenário aos esforços fúteis dos homens para a conquistarem (quantas ruínas de edifícios humanos aqui se vêem). A meio caminho entre uma gloriosa explosão de simbolismo cromático que remete para a opulência operática de um Visconti, por exemplo, e a estilização rígida, codificada e depurada do teatro Noh (muito visível nas extraordinárias interpretações de Tatsuya Nakadai e Mieko Harada), Ran corre da luz para a sombra, do sol para a tempestade, da vida para a aridez, à medida que a casa de Ichimonji se devora autofagicamente com os filhos a lutarem entre si pelo título feudal.
Falámos acima de “teatro” mas, se é verdade que há uma dimensão teatral, performativa, no filme, ela não anula — antes amplifica — a magnífica dimensão cinematográfica de Ran. Basta ver a espantosa sequência do genérico para perceber como tudo está precisamente agendado (Kurosawa é igualmente creditado como montador), como os planos se estendem ou se compactam consoante as necessidades narrativas, como o filme gere magistralmente o tempo para nos instalar no seu interior e para nos dar a medida exacta da tragédia. Ran foi rodado e estreado numa altura em que muitos dos grandes mestres do cinema do século XX encerravam as suas carreiras com filmes que pareciam então extemporâneos e que o tempo veio permitir reavaliar (a Passagem para a Índia de Lean e o Era uma Vez na América de Leone são ambos de 1984, por exemplo), que pediam a grandiosidade de uma sala que hoje já praticamente não existe. Esse crepúsculo é um subtexto indissociável do “fim de uma era”; talvez hoje lhe prestemos uma atenção diferente, e se é verdade que o que Kurosawa fez a seguir não era menos “testamentário” do que este, a dimensão desmedida, épica de Ran empresta-lhe um carisma especial.
A verdade é que a guerra pelo trono dos Ichimonji não ganhou uma ruga. E Ran recebe, nesta versão restaurada e projectada em 4K digital, o reconhecimento definitivo como um dos filmes maiores de uma carreira que, entre Rashomon — Nas Portas do Inferno, Os Sete Samurais, Yojimbo o Invencível, Dodeskaden ou Kagemusha — A Sombra do Guerreiro, não foi parca em clássicos. Só falta o ecrã gigante (como o do Mundial, onde estreou em 1986) que lhe faça justiça. Mas isso já seria pedir demais.