CINECLUBE DE JOANE

Setembro 2024
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Stéphan Castang
5 SET 21h45
de Thien An Pham
12 SET 21h45
de Marco Bellocchio
19 SET 21h45
de Maurice Pialat
26 SET 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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12 21h45

NO INTERIOR DO CASULO AMARELO Thien An Pham Traz Outro Amigo Também

Inesperadamente, Thien recebe a notícia da morte da cunhada e fica responsável por cuidar do sobrinho Dao, de 5 anos. Regressa à aldeia onde nascera, para organizar o funeral, e ir à procura do irmão, e pai de Dao, que partira há anos. À medida que emerge do que parece ser um longo estado de dormência, torna-se claro que a busca que Thien empreende não é apenas pelo seu irmão, mas também por ele próprio. Neste filme-casulo sentimo-nos transportados para uma outra realidade e embrenhados numa descoberta transcendental despertada por uma catástrofe. Vencedor da Caméra d’or no Festival de Cannes de 2023, No Interior do Casulo Amarelo é uma magnífica e surpreendente primeira obra.

Título Original: Bên trong vo kén vàng (Vietname/França/Espanha/Singapura, 2023, 175 min)
Realização, Argumento e Montagem: Thien An Pham
Interpretação: Le Phong Vu, Nguyen Thi Truc Quynh, Nguyen Thinh, Vu Ngoc Manh
Fotografia: Dinh Duy Hung
Produção: Tran Van Thi, Jeremy Chua
Estreia: 11 de Abril de 2024
Distribuição: Leopardo Filmes
Classificação: M/14
Da serenidade plena, Inês Lourenço, DN Primeira obra de um cineasta vietnamita que se revela, No Interior do Casulo Amarelo tem o dom da contemplação justa. Venceu a Caméra d’Or na Quinzena dos Realizadores de Cannes, e esse prémio diz muito sobre a beleza desta jornada espiritual.
O plano de abertura de No Interior do Casulo Amarelo é como um simples ato de ilusionismo: vemos a retaguarda de um campo de futebol, a câmara parece centrar-se no “assunto”, que é um rapaz a fazer aquecimento ao lado da baliza, mas pouco depois começa a seguir o homem vestido com um fato de lobo, que será a mascote de uma das equipas, até chegar a uma zona de restauração ao ar livre, paredes-meias com o campo, onde essa figura perde protagonismo para uma conversa de fundo sobre vida eterna e saídas da cidade para a montanha... Não é logo muito claro que se identifique quem está a falar. E só perceberemos mais tarde que aquele diálogo entre três amigos no meio de um ambiente repleto de distrações - desde o Campeonato Mundial a passar na televisão à menina que publicita uma nova marca de cerveja - tem um eco específico naquilo que vai ser o filme.
Primeira longa-metragem do vietnamita Thien An Pham, vencedor da Caméra d’Or no Festival de Cannes, esta é uma obra que prende a nossa atenção desde o início, através do tal jogo de perspetiva (é o espectador que decide o seu foco), mas também pela via de uma leitura imperturbável da realidade. Basta dizer que a sequência descrita termina com o som de um acidente na estrada, sem que a câmara acuse grande agitação.
Sim, o momento chegará em que se define um protagonista: Thien, um dos jovens da conversa no ambiente barulhento de Saigão, recebe a notícia da morte da cunhada e fica responsável pelo sobrinho pequeno, com quem segue para a sua aldeia de infância, onde é organizado o funeral, e onde este homem acabará por mergulhar em memórias e sonhos, enquanto tenta ainda localizar o seu irmão, que abandonou a falecida mulher.
Por vezes sem separar claramente o que é do domínio da realidade e o que é do domínio onírico, Thien An Pham aconchega-nos na jornada-casulo (de fora para dentro) de uma personagem que está prestes a sofrer uma qualquer metamorfose. Será como a transformação de George Bailey (James Stewart) em Do Céu Caiu Uma Estrela, o clássico de Frank Capra citado aqui como “um daqueles filmes que já não se fazem”? À sua maneira, sim; por caminhos mais misteriosos.
Diante da contemplação de No Interior do Casulo Amarelo, é quase inevitável evocar um Apichatpong Weerasethakul ou um Tsai Ming-liang, e recorrer à bengala do slow cinema, para “dar uma ideia” do que se trata. Mas vale a pena também reforçar que o filme de Thien An Pham não se fica pelo rótulo. Estamos na presença de um novo cineasta que filma com a paciência de um pintor à procura da tonalidade certa, a fim de trazer à vertigem do olhar um estado de alma tão prolongado quanto passageiro. É um projeto de lentidão que insiste em resgatar um ritmo perdido - a atual “cultura” dos filmes longos não corresponde necessariamente a um princípio de respiração lenta -, e uma crença na unidade do plano que, por sua vez, se sente na confiança dos movimentos vagarosos. Ninguém disse que a transcendência se dá num estalar de dedos, ou com pompa e circunstância. A duração de um plano pode conter o segredo de um cosmos interior: eis o espetáculo da serenidade.