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Edgardo Mortara nasceu em 1851, em Bolonha (Itália), no seio de uma família judia. Após ter ficado doente, uma empregada, julgando que ele estava à beira da morte, baptizou-o às escondidas. Segundo a doutrina católica da época, o baptismo era considerado um sacramento irrevogável, tornando a criança parte da Igreja Católica. Quando as autoridades da Igreja tomaram conhecimento disso, tinha ele seis anos, decidiram que a criança tinha de ser retirada à sua família judaica. Edgardo foi então levado à força de sua casa e entregue à custódia do Papa Pio IX e criado como católico. Os pais, desesperados, fizeram de tudo para recuperar o filho, apelando a todas as instituições. O caso correu mundo e causou indignação e protestos generalizados, com muitos líderes políticos, intelectuais e membros da comunidade judaica a oporem-se à decisão papal. Estreado no Festival de Cinema de Cannes, este drama biográfico tem realização do italiano Marco Bellocchio e conta a história verídica de Edgardo Mortara (1851- 1940).
Interior, noite: O Rapto é um dos píncaros da arte de Marco Bellocchio Luis Miguel Oliveira, Publico de 17 de Abril de 2024 Depois do magistral Exterior, Noite, o italiano Marco Bellocchio volta à grandeza. O Rapto é uma obra maior num percurso de 60 anos.
É admirável, não há melhor palavra, o empenho do octogenário Marco Bellocchio no encargo que, quase solitariamente (não parece haver outro em Itália a fazê-lo com a mesma consistência), tem assumido nestas últimas décadas: ir de frente à história italiana e aos seus fantasmas. O empenho, e já agora, o ritmo, se pensarmos que O Rapto aparece pouco tempo depois de Exterior, Noite, a sua magistral pintura mural do rapto de Aldo Moro em 1978. Novidade, em O Rapto, serão a época e o contexto históricos escolhidos por um cineasta que tem trabalhado sobretudo o século XX italiano: mergulhamos nos meados do século XIX, em pleno risorgimento, nas vésperas da unificação italiana, da extinção dos Estados Papais e consequente remoção de grande parte dos privilégios políticos territoriais do Vaticano.
Este contexto, cuja descrição já faz meio filme (e não falamos apenas de “cenários” ou de “reconstituição”, mas de uma proposta credível para dar o ar que se respirava), serve de fundo à narração de uma história de base verídica que não pode ser desligada desse contexto histórico.
A saga do jovem Edgardo Mortara, um pouco caída no esquecimento mesmo se foi politicamente de uma importância crucial (e “global”: até na América foi notícia, dizem as personagens) para a quebra da solidariedade de vários estados europeus com o Vaticano. Mortara era um garoto de uma família judia de Bolonha, que um dia foi baptizado pela criada católica, que gostava tanto do rapaz que temia que ele fosse para o “limbo”. Pelas leis em vigor no território papal, uma criança cristã não podia ser educada num ambiente não cristão, o que autorizava o Vaticano a retirá-la da custódia familiar para se encarregar da sua educação. E foi isto, “o rapto”, tornado célebre não por ser raro (o filme sugere que se tratava de uma prática comum) mas porque o pai Mortara (fabuloso Fausto Russo Alesi, que vimos em Exterior, Noite na pele de Francesco Cossiga) fez muito barulho, popularizou a história, passou anos a tentar recuperar o filho.
De uma perspectiva histórica, temos, portanto, e para além do século XIX, uma reflexão do judaísmo em Itália (e, evidentemente, do anti-semitismo) e do poder institucional do catolicismo. De uma perspectiva mais pessoal, se o “autorismo” (quer dizer: o rasto das preocupações de um cineasta com uma obra que já corre há praticamente 60 anos) ainda é admissível para alguma coisa, temos essa questão nuclear na filmografia de Bellocchio, a família e, dentro dela, a figura do pai.
Tudo está em duplicado, aqui, a pequena família judia e a grande família católica, o pai Mortara e o Papa pai (Pio IX, interpretado também fabulosamente pelo actor Paolo Pierobon), e o jovem Edgardo é dado como uma figura progressivamente dilacerada por um sentimento de pertença completamente virado do avesso, à medida em que (e a história corre ao longo de um período de cerca de 20 anos) se vai tornando um “católico” e esquecendo a origem judia. É a sua revolta que se dilacera, também: os pais a matar são dois, como Bellocchio, que nunca terá sido um bom católico, mas foi sempre um bom freudiano, sinaliza por mais do que uma vez, numa delas (a cena em que Edgardo derruba Pio IX, ao melhor estilo de um acto falhado) de forma violentamente brilhante. É uma figura trágica, este Edgardo, condenado a ser um estranho em qualquer lugar, sempre na ânsia de “salvar” os outros – que poderosa é essa cena, praticamente no epílogo, em que tenta por sua vez baptizar a mãe moribunda, mas é rechaçado por ela, e de seguida escorraçado pelo resto da família. Depois disso, já só saberemos dele pelas legendas dos créditos finais, que nos resumem o resto da sua vida.
O carácter sepulcral do catolicismo institucional do século XIX é dado de forma expressiva: este é um filme de “interior, noite”, com um ambiente de cripta, pleno de imagens de morte (a começar pela daquele corpo morto pregado numa cruz que tanto começa por intrigar o muito jovem Edgardo), imagens que se multiplicam, que por vezes parecem ser a intromissão de um pesadelo (numa espécie de proto-giallo…), que conferem aos corredores do Vaticano uma atmosfera cavernícola, necrófila (“culturas da morte”, para usar uma expressão em voga, há muitas).
É um filme de onde está ausente qualquer forma de alegria, de gozo na vida, dominado pela austeridade e pelo sacrifício identitários (a comunidade judaica também não é particularmente luminosa, e tudo isto corresponderá à perspectiva de Bellocchio sobre a religião, toda ela).
E, por fim, O Rapto não se mede apenas com a história do século XIX, mas com a sua cultura e com os grandes marcos (cinematográficos) que a evocaram. Daí que nos pareça um filme viscontiano e operático (o uso da música é magnífico), tão crescentemente Senso como Verdi, num elã vertiginoso que Bellocchio sustém, nessa vertigem progressiva, impecavelmente. Podemos dizer: O Rapto é um dos píncaros da sua arte.