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HISTÓRIAS DA IDADE DE OURO de Cristian MUNGIU, Razvan MARCULESCU, Ioana URICARU

Sinopse

Apesar de a propaganda comunista referir os 15 anos do regime ditatorial de Ceauþescu (1918-1989) como uma época de ouro, estes foram os piores e mais difíceis anos de se viver na Roménia.

Com argumento e produção de Cristian Mungiu (vencedor da Palma de Ouro em Cannes na edição de 2007 com o filme "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias") e realizado por Ioana Uricaru, Hanno Höfer, Razvan Marculescu, Constantin Popescu e Cristian Mungiu, esta é uma colectânea de vários filmes, inspirados em histórias reais, que pretende delinear, de uma maneira cómica e por vezes surrealista, a história do Comunismo na Roménia, deixando descortinar o passado a partir das histórias de cada personagem.

Download do Dossier

Ficha Técnica

Título original: Amintiri din Epoca de Aur (França/Roménia, 2009, 155 min.)
Realização: Cristian Mungiu, Razvan Marculescu, Ioana Uricaru
Interpretação: Diana Cavallioti, Radu Iacoban, Alexandru Potocean
Argumento: Cristian Mungiu
Produção: Cristian Mungiu, Oleg Mutu
Música: Hanno Höfer, Laco Jimi
Fotografia: Liviu Marghidan, Oleg Mutu, Alexandru Sterian
Montagem: Dana Bunescu, Theodora Penciu, Ioana Uricaru
Estreia: 13 de Maio de 2010
Distribuição: Midas Filmes
Classificação: M/12
Página Oficial: http://www.contesdelagedor-lefilm.com/

Críticas

Histórias da Idade de Ouro - Goodbye Ceausescu
Luís Miguel Oliveira, Público de 14 de Maio de 2010

A catarse do regime comunista romeno passa aqui, como a catarse da Alemanha de Leste passava em "Adeus Lenine", pelo anedotário.

Todo o cinema da "nova vaga romena" (como, com propriedade ou sem ela, lhe chama o léxico crítico internacional) tem repousado, em parte substancial, numa relação com o passado recente da Roménia, e concretamente com o falecido regime comunista. Com frequência - como no filme de Cristian Mungiu sobre duas raparigas à procura de um aborto clandestino, "4 Meses, 3 Semanas e 2 dias" -, esse passado e esse regime são até mais do que um não-dito, são um "não- aludido": limitam-se a estar lá, e a gente sabe que o facto de estarem lá é, em última análise, uma chave importante (ainda que não obrigatoriamente fundamental).

Com "Histórias da Idade de Ouro", filme em cinco episódios, todos escritos por Cristian Mungiu mas realizados por ele e outros quatro colegas, dá-se, talvez pela primeira vez, um nome à coisa, assim ostensivamente posta no centro das atenções: é a "idade de ouro", terminologia agora empregue com óbvia ironia, mas dantes, no tempo da propaganda de Ceausescu, levada muito a sério. Portanto, cinco histórias sobre a vida de todos os dias (anos 70, anos 80) durante o regime do "conducator". Uma aldeia que se prepara afincadamente para receber a visita de dignitários do estado; um repórter fotográfico que tem de retocar as fotos tiradas durante a visita de Giscard d''Estaing a Bucareste (apagar o chapéu ao francês ou acrescentar um a Ceausescu: é o episódio mais voltado para o surrealismo propagandístico); as atribulações de um zeloso activista empenhado na alfabetização de uma aldeia inteira; um rapaz e uma rapariga envolvidos num esquema vigarista (o episódio mais longo e mais sisudo); e o melhor de todos, que não é "A Morte do Senhor Lazarescu" mas podia ser (se a personagem se chamasse Lazarescu) "a morte do porco do senhor Lazarescu": uma impecavelmente tensa incursão pelo absurdo quotidiano, com uma família (citadina) desesperada para matar o porco que lhe foi oferecido (resolvem gaseá-lo na cozinha do apartamento).

Em todos, as personagens são olhadas com doçura - mesmo os censores do episódio com o fotógrafo, ou o empenhadíssimo alfabetizador - retratadas numa mistura de ingenuidade crédula, falta de jeito, e instinto de sobrevivência. É por isso que, mesmo sem sabermos o lugar que ocupa na Roménia actual a "memorabilia" do regime comunista, às tantas nos ocorre o célebre "Adeus Lenine": a catarse também passa pelo anedotário.

Camarada, a vida é bela... no cinema (entrevistas)
14.05.2010 - Rui Catalão, em Bucareste

Um colectivo de realizadores romenos filmou cinco episódios que são outros tantos regressos à Roménia de Ceausescu na sua fase mais terminal (e mais anedótica). "Histórias da Idade de Ouro" não é uma operação de branqueamento, é uma operação de resgate de um tempo a que só foi possível sobreviver com humor, negro. Rui Catalão, em Bucareste

A juventude é de ouro! Mesmo nos anos de maiores carências e restrições, como os que se viveram antes da queda do regime de Ceausescu, havia aquilo a que chamamos felicidade. "Histórias da Idade de Ouro" (no original romeno: "Amintiri din epoca de aur"), o filme que um colectivo de novos realizadores romenos (Hanno Höfer, Razvan Marculescu, Cristian Mungiu, Constantin Popescu e Ioana Uricaru) realizou a partir de um argumento de Cristian Mungiu e que esta semana se estreia em Lisboa, é um título menos irónico do que nostálgico.

Em plena repressão comunista, no seu período mais cego, que viria a revelar-se terminal, os jovens continuaram a ser jovens. É esse olhar, brincalhão mas não ingénuo, terno mas não branqueador, que é resgatado nestas "recordações", que são afinal mitos urbanos, lendas do comunismo.

Mas que "recordações" são estas? A quem pertencem estes anos dourados? "As histórias nem sequer pretendem ser verdadeiras. E que sejam verdadeiras ou não, não é relevante. Falam de um período verdadeiramente difícil da história da Roménia e a intenção é citar o tipo de humor de que o romenos precisaram para sobreviver a esse tempo." Quem responde, por e-mail, é Cristian Mungiu, o único dos realizadores envolvidos que não encontrei pessoalmente neste regresso a Bucareste.

Em 2003, quando visitei o país pela segunda vez, estreava o seu primeiro filme, "Ocidente": lembro-me de uma cena no McDonald's, com uma mãe encantada a dizer à filha que se enriquecesse podia comer ali todos os dias. Algumas semanas depois de Mungiu vencer a Palma de Ouro em Cannes, com "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", em 2007, vi-o carregado com sacos de compras, à saída do mercado, na Piatsa 1 Mai. Corria o boato de que a Palma de Ouro o tinha salvado de apuros legais. Tinha angariado um subsídio do Centro Nacional de Cinematografia para fazer outro filme, mas optara por investir o dinheiro em "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias".

"Histórias da Idade de Ouro" pareceu-me o ponto de ligação entre as suas primeiras longas- metragens. Porque não as filmou antes? "Escrevi-as de facto entre 'Ocidente' e '4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", mas demorámos muito tempo a reunir o dinheiro. Decidi então que era melhor filmar primeiro '4, 3, 2' - representava melhor a minha visão actual do cinema", explica.

"Histórias..." foi tratado publicamente como um filme colectivo, e de facto começou por ser uma ideia de quatro colegas da escola de cinema, admiradores de Milos Forman, mas o argumento é de Mungiu e a produção também. Convidar os ex-colegas foi uma homenagem à origem da ideia, mas também uma forma de promover os ex-colegas: "Achei que poderia ser útil para eles e para o projecto."

Durante os três anos que vivi em Bucareste, morei na Strada Clucerului, perto da qual Mungiu tem os escritórios da sua produtora, assim como a sua casa (dai tê-lo visto às compras). "Sempre aluguei um escritório a dez minutos de casa, ou vice-versa. Não gosto necessariamente de viver em Bucareste desde que a cidade se tornou agressiva e caótica", diz. A minha primeira entrevista, agora, estava marcada para aquela mesma rua, no Hotel Residence, com o realizador Razvan Marculescu, que acabou por não aparecer nessa manhã porque vivia nos subúrbios e não conseguia entrar na cidade, devido à greve dos transportes públicos. Quando à tarde o encontrei, e ele me deu boleia até à Universitate, enquanto me falava do projecto para a sua primeira longa- metragem, gastámos 35 minutos a fazer um percurso que eu fazia diariamente a pé em menos de meia-hora.

Mitos urbanos

Este foi o primeiro Inverno em cinco anos que passei fora da Roménia. Regressei na segunda semana de Primavera, numa "quarta-feira ligeira". A primeira situação que fixei ocorreu ao fim da tarde, em frente a uma dessas vendas de refrigerantes, cigarros e comida rápida. Um homem pequeno, da cor da cidade (castanho acinzentado, poeirento), teve uma contracção, agarrou-se ao peito, o corpo robusto curvou-se, fez meia pirueta e caiu no passeio. Quando passei por ele, segurava o coração com a mão direita e tinha um cigarro na mão esquerda. Paragem cardíaca? As empregadas da venda: "Ele faz sempre isto!" Afastei-me a olhar para trás, curioso relativamente à reacção dos outros peões. Minutos depois, o homem cor da cidade rolou sobre o corpo, desceu do passeio (dando passagem a uma senhora) e "estacionou" na berma da estrada, entre dois carros. Segui para o Teatro Nacional.

No elevador das traseiras do teatro, reencontro a ascensionista, sentada (como sempre) a fazer ponto cruz. Terceiro piso. Estou no Centro Nacional de Dança, onde hoje acontece o "Miercurea lejera" (a quarta-feira ligeira). Foi neste espaço, feio e desajustado, mas com a acústica e a grandeza de três igrejas, e janelas tão grandes que mais parecem miradouros da cidade, que tive a minha segunda juventude, acompanhando um grupo de bailarinos que procuraram criar, de raiz, uma comunidade de dança contemporânea (com tudo o que de transdisciplinar, político, activista e auto-reflexivo está implicado no adjectivo "contemporânea"). Foi também no programa "Miercurea lejera" que me apercebi da força que subjaz ao sentido de pertença a uma comunidade: ali, a linha que separa os artistas do público é (quase) apagada. As apresentações são meio improvisadas ou quase amadoras e, no entanto, a frescura, a expectativa (quem irá surpreender?) e o próprio público que vai enchendo a "sala ronda" (de facto, uma ferradura de paredes brancas com uma cúpula de vidro) criam uma atmosfera muito "tudo é possível".

Paul Dunca, presença habitual no "Miercurea Lejera", volta a ser a surpresa da noite: mete-se com as pessoas individualmente, descompõe quem chega atrasado, faz-lhes perguntas, exige que o divirtam, que não o aborreçam, enfim, que dêem espectáculo. Figura plástica, camaleónica, em tudo se desenrasca: não é grande bailarino nem actor, mas é grande a ser Paul Dunca. Pode ser "drag queen" numa discoteca, fazer entrevistas para a MTV, aparecer num desfile de moda ou numa promoção comercial, envolver-se em acções cívicas junto de asilos para crianças ou velhos, fazer documentários sobre dança na comunidade cigana ou participar como actor em "Histórias da Idade de Ouro".

Hanno Höfer, com quem me encontro na manhã seguinte, no terraço do Museul T Tsaranului (Museu dos Camponeses) também fez teatro em jovem, mais propriamente no Teatro Alemão de Timishoara, cidade onde nasceu em 1967, e para onde voltou quando a casa dos pais ficou destruída em Bucareste, no terramoto de 1977. Descendente de famílias alemãs, numa cidade onde coabitam ainda romenos, húngaros e sérvios, estudou três anos na Alemanha. Voltou em 94. Fez o circuito normal dos realizadores: publicidade, televisão, videoclips. É o autor da banda sonora de "Histórias" e tem uma banda, os Nighloosers, que já tocou duas vezes em Portugal: no cabaré Maxime, em Lisboa, e na inauguração da escola de cinema, na Amadora. Muito ocupado? "Podia trabalhar mais. Sou free-lancer, mas há períodos em que não tenho nada para fazer."

Hanno Höfer recusa revelar qual dos episódios filmou. Segredo de polichinelo: antes de trabalhar comigo em 2008, Paul Dunca trabalhou com ele, no papel de aprendiz do fotógrafo oficial de Ceausescu... E não ficou nada contente por a sua voz ter sido dobrada por um actor profissional. Confronto Hanno Höfer com esta história e comparo-a ao episódio que ele filmou (sobre uma fotografia manipulada para que Ceausescu não ficasse a perder, em altura ou imponência, para Giscard d'Estaing), mas não se interessa pelo jogo manipulativo: "As dobragens são normais em cinema". E a fotografia da visita oficial, que foi tão alterada ao ponto de revelar, à vista nua, e na primeira página do "Scânteia" (jornal oficial do partido), a própria manipulação? É lenda ou aconteceu mesmo? "Podes ir ao arquivo e verificar. Pessoas com quem falei, algumas das quais trabalhavam no jornal, disseram-me que era verdade. O meu pai trabalhava lá [no edifício onde se concentravam todos os jornais da cidade], noutro jornal, e também me disse que era verdade..."

A história reencontrada

Incomodado com as correntes de ar, interrompido pelo trânsito entre a Piatsa Victoria e a 1 Mai, pela música nos altifalantes e pelos meus apartes, Hanno foi-se. O seu lugar foi ocupado logo a seguir por Constantin Popescu, 37 anos, cabelo comprido, grisalho, barba crescida. Acabou recentemente a sua primeira longa-metragem, "Light Principle", com argumento de Razvan Radulescu (escreveu "A Morte do Sr. Lazarescu", o filme que revolucionou a produção de cinema romeno, a sua orientação estética e também a sua recepção internacional). Conta-me que nasceu no hospital Elias, no bairro onde nos encontramos, e que até ao ano passado sempre ali vivera, numa casa nacionalizada entretanto devolvida ao proprietário original.

Curiosa inversão da injustiça: desde a minha primeira visita a Bucareste, em 2002 (quando os donos do asfalto esburacado não eram ainda os carros que obstipam a cidade, mas matilhas de cães vadios), sempre escutara histórias de pessoas que ficaram sem as suas casas, nacionalizadas pelo partido comunista. As casas nacionalizadas são de resto a razão que me foi avançada para o facto de haver tantos cães vadios na cidade: como os proprietários eram realojados em apartamentos, tinham de abandonar os animais de estimação...

Os cães vadios são uma das irritações de "Tica" Popescu com a cidade. "Ninguém sabe o que fazer deles".

Pinta de guerrilheiro latino-americano, Popescu é um afável contador de histórias, discorre-as como contas de um rosário... Pergunto-lhe sobre a família: o pai sempre trabalhou no cinema, é produtor executivo; a mãe, que foi tradutora na embaixada cubana, é espanhola, de origem basca; e a avó materna lutou na guerra civil ao lado dos comunistas. Passamos a falar em espanhol.

Quando conheceu Cristian Mungiu (é o único realizador de "Histórias" que não foi seu colega na escola de cinema), Popescu trabalhava na sua primeira curta. "O Apartamento" é também um mito urbano acerca de um caixeiro viajante que tinha uma amante no mesmo prédio em que vivia com a mulher. "Cometeu um erro. Todos os dias se levantava às 6h para despejar o lixo. Um dia, antes de partir de viagem, despejou o lixo, voltou a casa para tomar o pequeno-almoço com a mulher, saiu, deu a volta ao prédio e subiu ao oitavo andar, onde vivia a amante. Mas na manhã seguinte, depois de despejar o lixo, entrou na casa da mulher em pijama e com o balde do lixo. Os apartamentos eram todos iguais, a mobília, os acessórios, como caixas chinesas. Era fácil confundi-los."

O tilintar das garrafas de vidro nas grades metálicas: é o som do primeiro plano no episódio "Lenda do Miliciano Lacom"; e é também uma memória obsessiva em Constantin Popescu: "Havia uma leitaria perto de casa, [mas o leite] só se podia comprar às 6 da manhã. Nunca esquecerei o tilintar daquelas nove garrafas de vidro dentro da grade. O vendedor trazia-as empilhadas umas nas outras e puxava-as com um ferro". Outra cena do episódio que mexe com o seu passado é a dos miúdos que disputam a mesma colega, procurando oferecer-lhe a melhor sanduíche: "Eu nem era um miúdo pobre, há que sublinhar. Quando ia para a escola, a minha mãe fazia-me uma sanduíche com duas fatias de pão branco com queijo, mas tinha um colega... os pais dele trabalhavam para a propaganda, e ele levava sempre seis fatias com salame de Sibiu, que era muito raro e impossível de encontrar nas lojas."

Popescu trabalha actualmente num argumento a partir de "A Colónia Penal", de Kafka, enquanto procura dar continuidade ao seu projecto dedicado a figuras da resistência romena durante o comunismo. "É uma parte da história que nos estava vedada, só em 2002 é que soube que havia lutadores nas montanhas. A vida na Roménia entre 1947 e 1962 foi muito estranha e imagino que as pessoas tenham curiosidade."

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