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PROGRAMAÇÃO: Abril de 2012
Sala de exibições
Pequeno auditório
Casa das Artes de V. N. de Famalicão
Parque de Sinçães - V. N. de Famalicão
UMA SEPARAÇÃO de Asghar FARHADI
Sinopse
Nader (Peyman Moaadi) e Simin (Leila Hatami) há muito que sonham em emigrar, de
maneira a proporcionarem melhores oportunidades a Termeh, a filha de 11 anos. Quando a
ocasião surge, ele decide abandonar os planos para poder continuar perto do seu pai (Ali Asghar-
Shahbazi), que se tornou totalmente dependente devido à progressão da doença de Alzheimer.
Simin, porém, determinada a tudo pela filha, resolve optar pelo divórcio e partir sem ele. É então
que Nader contrata Razieh (Sareh Bayat), uma jovem de um bairro pobre que, na companhia da
sua filha pequena, se compromete a cuidar do idoso. Mas, no dia em que chega a casa do
trabalho e encontra o pai desacompanhado, sem os cuidados da empregada, a fúria tomará conta
de Nader que, sem querer ouvir as explicações de Razieh, acabará por cometer um erro com
consequências devastadoras.
Quinta longa-metragem do iraniano Asghar Farhadi, o filme foi o grande vencedor da 61.a edição do Festival de Berlim, arrecadando o Urso de Ouro para melhor filme e os Ursos de Prata para melhores actriz e actor.
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Ficha Técnica
Título original: Jodaeiye Nader az Simin (Irão, 2011, 123 min.)
Realização e Argumento: Asghar Farhadi
Interpretação: Leila Hatami, Peyman Moadi, Shahab Hosseini, Sareh Bayat
Produção: Negar Eskandarfar, Asghar Farhadi
Música: Sattar Oraki
Fotografia: Mahmoud Kalari
Montagem: Hayedeh Safiyari
Estreia: 15 de Dezembro de 2011
Distribuição: Alambique
Classificação: M/12
Críticas
Um melodrama que chega do Irão
João Lopes, Cinemax
Depois de Kiarostami ou Panahi, mais um nome vindo do cinema iraniano: Asghar Farahdi. O seu filme "Uma Separação" é um brilhante retrato conjugal e ganhou o prémio máximo do Festival de Berlim de 2011.
Reparem na fotografia [protagonistas do filme]: ela chama-se Leila Hatami; ele é Peyman Moaadi. Não parece possível que, em geral, os meios de comunicação façam manchetes com os seus nomes. E, no entanto, ambos foram premiados (melhor actriz + melhor actor) no Festival de Berlim de 2011. Mais do que isso: o filme que protagonizam, "Uma Separação", de Asghar Farahdi, arrebatou o Urso de Ouro, o prémio máximo desse certame.
Esta distância em que vivemos face a muitas coisas (filmes e não só...) que, afinal, estão disponíveis diz bem da dificuldade de atentarmos nos outros e nas suas diferenças. E também na sua singular proximidade. "Uma Separação" é um filme que nos ajuda a ver/pensar isso mesmo. Que é como quem diz: uma crónica íntima de um processo de divórcio, com todas as marcas da sociedade iraniana e, ao mesmo tempo, com um poder universal de comunicação que lhe confere uma vibrante emoção.
O que está em cena é, afinal, um clássico melodrama. A saber: marido e mulher tentam superar a sua relação à beira da ruptura e a única via possível parece ser mesmo o divórcio. Farhadi filma os seus notabilíssimos actores com uma atenção metódica que nos faz perceber uma inevitável duplicidade: a que se estabelece entre os conflitos específicos do espaço conjugal e a necessidade (ou a preocupação) de manter para o exterior uma determinada imagem do próprio universo familiar.
Autores como Abbas Kiarostami, Jafar Panahi ou Mohsen Makhmalbaf já nos tinham permitido compreender que há, no Irão, uma admirável energia criativa, capaz de gerar um cinema colado às complexidades da vida social, aos seus conflitos e também aos seus silêncios. Asghar Farahdi é mais um nome a acrescentar a essa lista: um cineasta que conhece o valor do realismo, mas que sabe também gerir as subtilezas do drama.
O efeito borboleta
Jorge Mourinha, 15 de Dezembro de 2011
Filme de primeira água sobre um divórcio que descamba para um conflito judicial, “Uma Separação” não é “Kramer contra Kramer” em Teerão - mas é um filme que tem conquistado o Ocidente por todas as razões certas
É um dos “casos do ano”. Podia sê-lo por todas as razões erradas (já lá vamos), felizmente não: Urso de Ouro e prémios de Melhor Actor e Melhor Actriz para o conjunto do elenco em Berlim 2011, um milhão de espectadores em França, candidato oficial à nomeação ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, “melhor filme estrangeiro do ano” para os críticos de cinema nova-iorquinos e para a National Board of Review americano, aclamação crítica e sucesso público um pouco por onde tem estreado.
O êxito de “Uma Separação” podia ser indissociável da origem iraniana do filme de Asghar Farhadi; não é certo que lhe seja inteiramente alheio, mas a verdade é que este não é o “filme iraniano do costume”, e por difícil que seja vê-lo sem levar em conta a sua nacionalidade, a verdade é que o seu sucesso não se deve apenas à boa consciência ocidental. É que “Uma Separação” é realmente um grande filme, que lida, muito simplesmente, com a verdade, a partir do momento em que um acontecimento aparentemente anódino - um pedido de divórcio - despoleta um efeito-borboleta de consequências imprevisíveis.
Simin sai de casa porque Nader não lhe dá o divórcio; este precisa que alguém tome conta do seu pai, que sofre de Alzheimer, enquanto trabalha, e contrata Razieh, cujo marido está desempregado; quando regressa a casa um dia, Nader dá pelo pai amarrado à cama à beira da morte, sem sinal de Razieh; quando esta aparece, Nader empurra-a para fora de casa, ela cai nas escadas e vai parar ao hospital; Hojjat, marido de Razieh, leva Nader a tribunal como responsável do aborto que a mulher sofreu; este por seu lado processa Razieh por ter deixado o pai sozinho em casa.
Segue-se um fascinante jogo de espelhos que reflecte toda uma série de questões centrais da vida moderna: a classe média urbana e confortável de Nader e Simin contra a classe operária pobre e suburbana de Hojjat e Razieh, agnosticismo contra religião, orgulho contra pragmatismo, justiça contra injustiça - e tudo isto explica muito bem porque é que “Uma Separação” tem ressoado mundialmente. Não estamos longe de um “Magnolia”, de um “Babel”, de um “Crash” no modo como o filme de Asghar Farhadi recusa eleger um herói para se mover por entre um elenco de conjunto onde não há heróis nem vilões, como utiliza a mecânica narrativa do acaso e da coincidência.
A diferença de um Iñárritu ou de um Haggis está em que Farhadi não nos diz nunca o que devemos pensar nem sentir, recusa terminantemente toda e qualquer manipulação gratuita, sabe que basta confiar na força da situação e na entrega dos actores para gerar o suspense e a emoção. Longe de ser um filme que se deleita na sua importância moral, deixa ao espectador a abertura para tirar as suas próprias reflexões; é um cinema que não está ao serviço de nada a não ser da história que quer contar.
“Uma Separação” reflecte as contradições e a complexidade do mundo em que vivemos, ao ponto da sua nacionalidade deixar de ser significativa, mesmo que seja impossível olhar para ele sem sermos recordados dos problemas específicos da República Islâmica; não faz parte da estética autoral da maior parte do cinema iraniano que é divulgado mundialmente, não se refugia em meditações oblíquas e ensaios audiovisuais. É verdade que as questões todas que aqui se abordam também se jogam no tabuleiro de uma sociedade presa entre a espada e a parede, reflectindo de modo agudo as tensões subjacentes ao Irão moderno - mas este é um filme que sabe que só falando do pessoal conseguimos chegar ao universal. É por isso, também, que é bom perceber que o seu triunfo não se limita a ser um caso manifesto de condescendência de boa consciência ocidental. Nada disso: “Uma Separação” é um filme de primeiríssima água que calhou ser iraniano.
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