Siga-nos no Facebook / Twitter!
PROGRAMAÇÃO: Abril de 2012
Sala de exibições
Pequeno auditório
Casa das Artes de V. N. de Famalicão
Parque de Sinçães - V. N. de Famalicão
Excertos de uma entrevista a Lars von Trier por Nils Thorsen

Download do Dossier
Vamos ser claros desde o início. O final do filme de Lars von Trier, MELANCOLIA: todos morrem. Não apenas os convidados do casamento da primeira parte do filme num castelo romântico rodeado por campos de golfe. E não apenas toda a vida na Terra. Uma vez que no mundo evocado desta vez pelo realizador dinamarquês estamos absolutamente sozinhos no universo. Assim, o que termina com este encontro cósmico entre o nosso planeta e o (dez vezes maior) MELANCOLIA, é a vida tal como a conhecemos.
Nenhum final poderia ser mais definitivo. E, como Trier salienta com o seu humor negro: “De certa forma, o filme tem um final feliz.”
(...)
“Acontece o mesmo com “Titanic”. Quando eles embarcam no navio, sabemos: hum, provavelmente vai acontecer qualquer coisa com um iceberg. E tenho a teoria de que a maioria dos filmes são assim, na verdade.”
“Num filme de James Bond esperamos que o herói sobreviva. De qualquer modo, consegue ser entusiasmante. E algumas coisas conseguem ser excitantes precisamente porque sabemos o que vai acontecer, mas não como irão acontecer. Em MELANCOLIA é interessante vermos como as personagens reagem à medida que o planeta se aproxima da Terra”.
A Origem de MELANCOLIA
Seguimos duas irmãs até ao derradeiro final. Justine, interpretada por Kirsten Dunst. Uma melancólica tem dificuldade em encontrar o seu lugar no mundo e assumir os seus rituais vazios, mas sente-se mais em casa quando o mundo se aproxima do final. Depois temos a sensível irmã mais velha, Claire, interpretada por Charlotte Gainsbourg, que triunfa no mundo e tem dificuldade em despedir-se dele.
“Acho que a Justine é parecida comigo. Baseia-se muito em mim próprio e nas minhas experiências com a depressão e com as profecias do fim do mundo. Por outro lado Claire é supostamente... uma pessoa normal”, ri Lars von Trier, que foi assaltado por ansiedades durante toda a sua vida e que, em rapaz, acreditava que a Terceira Guerra Mundial estava a começar sempre que ouvia um avião.
(...)
“O meu analista disse-me que os melancólicos são normalmente mais corajosos que os outros em situações catastróficas, em parte porque podem dizer: ‘O que é que eu te disse?’”, ri-se. “Mas também porque não têm nada a perder.” E esta foi a origem de MELANCOLIA. A partir daí, as coisas aceleraram. Menos de um ano depois, o guião estava escrito, os actores escolhidos e a equipa pronta a filmar.
“Diverti-me muito a fazer este filme, e tenho estado muito mais presente. Mas, mais uma vez, estava a atravessar um mau período durante ‘Anticristo’”, diz.
Em MELANCOLIA ele lida com a própria melancolia. Mais do que com cataclismos. Mas ainda que o ponto de partida seja o da sua própria depressão, a ideia desenvolveu-se a partir de uma conversa e de uma troca de cartas com a actriz Penelope Cruz, que quis fazer um filme com ele. Ela revelou o seu fascínio pela peça “As Criadas”, de Jean Genet, onde duas criadas matam a patroa.
“Mas eu não faço nada que não seja criado por mim, disse-lhe. Por isso comecei a escrever alguma coisa para ela. O filme é baseado nas duas criadas que eu transformei em irmãs. A Penélope sabe montar. Usei isso também.”
(...)
Que tipo de estética procurou para o filme?
“Queria um confronto entre o que é romântico, e grandioso e estilizado e a realidade. O problema é que tínhamos um magnífico castelo na Suécia e quando temos um casamento com convidados vestidos de gala, é difícil evitar que se torne ... bonito”, sorri.
Sozinho no Universo
Lars von Trier levanta-se, vai até ao seu computador e começa a fazer pesquisas na Internet. “No filme, as irmãs falam de estar sozinhas. E acredito que tive esse ideia depois de ouvir esta música dos Nephew, ‘ Allein, Allein’”.
“E depois achei interessante a questão de estarmos mesmo sozinhos no espaço. Na realidade, é
completamente irrelevante.
Mas isso faz uma grande
diferença para mim. Uma
coisa é a Terra ficar sem
vestígios de vida, mas se
existirem algumas células
em qualquer outro lado
existe algo sobre o qual
construir qualquer coisa.
Se não existe vida em lado
algum, bem, isso é o fim de
tudo”.
Na segunda parte do filme, o casamento termina e o planeta aproxima-se da Terra. E de repente é a irmã mais velha, Claire, que se fragiliza enquanto Justine se recolhe cada vez mais. O marido de Claire, interpretado por Kiefer Sutherland, uma das personagens-chave em Lars von Trier: o homem racional que estuda as coisas e acredita que consegue explicar tudo. Desta vez é porque o planeta não vai chocar contra a Terra. Ele conforta a mulher ao longo do filme. E de repente, pára. E assim ela fica ‘allein, allein’”, sorri.
“Mas por outro lado as irmãs não são assim tão diferentes uma da outra. Elas partilham a mesma mãe louca que se tornou completamente amarga. Ela não anseia por nada. Portanto Claire tem todo o tempo para ser uma mãe para a sua irmã mais nova, e quando temos de tomar conta dos outros, temos de ser fortes.”
Porque razão a Claire se vai abaixo à medida que o planeta se aproxima?
“Ela tem alguma coisa a perder. Um filho, por exemplo. Ela não deseja nada. Gosta de si como é. Por outro lado Justine não tem nada a perder. Ela é melancólica, e estamos sempre ansiando alguma coisa. E quando é assim, não podemos perder nada. Não temos nada.”
Quando gostamos do que temos estamos mais expostos?
“Sim! E nós melancólicos saltamos ligeiramente sobre tudo isso. Talvez seja uma forma de sobrevivência. Assim não temos de lamentar as coisas que perdemos”, diz acrescentando com uma pequena gargalhada: “Mas no geral, todas elas são um pouco desagradáveis umas com as outras. As minhas personagens, digo. Todas despontam os outros.”
Para mim, a relação das duas irmãs é muito carinhosa.
“Sim, no final, por exemplo. Acho que elas se entendem aí. É aí que se insinua também o final feliz. Quando os dois opostos de juntam. Têm diferentes padrões de reacção, claro. Mas elas foram duas, e tornam-se uma só”.
Antes da rodagem, Penelope Cruz cancelou devido a outros compromissos e Kirsten Dunst tornou-se a protagonista. E a colaboração, diz von Trier, foi uma agradável surpresa.
“Acho que ela é uma actriz formidável. Tem muitos mais nuances do que eu pensava e tem a vantagem de ela mesmo ter passado por uma depressão. Todas as pessoas sensíveis já passaram”, diz. “Ela ajudou-me muito. Primeiro e antes de mais ela tirou fotos de si própria nessa situação para que eu pudesse ver como ficou. Como estava presente e sorria mas com um olhar completamente vazio.”
(...)
Se perguntar a Trier o que ele acha do filme, é mais complicado obter uma resposta.
“Quando o vi, senti-me bem. Mas já o vi tantas vezes que não o consigo fazer mais”, diz e hesita durante um segundo. “A Charlotte Gainsbourg disse algo que me agradou muito. Foi: ‘é um filme estranho’”, ri-se. “Isso foi agradável, porque eu estava preocupado que faltasse ‘estranheza’ ao filme”.
MELANCOLIA de Lars VON TRIER
Sinopse
Melancholia é um planeta gigante, escondido atrás do Sol, que agora se encontra em rota de colisão com a Terra, numa "dança de morte" que ameaça a total destruição do planeta. Justine é uma jovem frágil e depressiva a viver a sua festa de casamento com Michael, o homem que ama. Claire, a equilibrada irmã mais velha e suporte emocional da família, é casada com John e mãe de Leo. As duas irmãs têm personalidades opostas e uma relação ambivalente que oscila entre o amor profundo e a raiva. Mas, quando chega o momento previsto para o embate dos planetas, as duas mulheres têm reacções contraditórias. E, contra todas as probabilidades, a sua relação inverte-se...
Mais do que um filme-catástrofe, "Melancolia" é, segundo Lars Von Trier, um filme sobre a natureza humana e as suas reacções num contexto de hecatombe, seguindo a premissa de que as pessoas depressivas tendem a reagir de um modo estranhamente calmo em situações limite. O elenco conta com a participação de Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgård, Charlotte Rampling, John Hurt entre outros. O filme, em competição na edição de 2011 de Cannes, deu a Dunst o prémio de melhor actriz.
Ficha Técnica
Título original: Melancholia (DIN/SUE/ALE/FRA, 2011, 134 min.)
Realização e Argumento: Lars von Trier
Interpretação: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Alexander Skarsgård,
Cameron Sparr, Kiefer Sutherland
Produção: Zentropa Entertainments, Meta Louise Foldager, Louise Vesth
Fotografia: Manuel Alberto Claro
Montagem: Molly Malene Stengaard
Estreia: 1 de Dezembro de 2011
Distribuição: Leopardo Filmes
Classificação: M/12
Festival de Cannes 2011–Selecção Oficial–Prémio Melhor Actriz (Kirsten Dunst)
Festival de Cannes 2011 - Selecção Oficial - Em Competição
Festival de Cinema de Toronto 2011 - Special Presentations
Lisbon & Estoril Film Festival 2011 - Selecção Oficial
Críticas
Foi como acordar de um sonho, a minha produtora mostrou-me um cartaz. “Que é isso?”, pergunto eu. “É um filme que fizeste!” responde. “Espero que não”, balbucio. Mostra-me ‘trailers’, fotografias, parece horrível. Estou em choque. Não me interpretem mal, trabalhei no filme durante 2 anos, com grande prazer. Mas talvez me tenha enganado a mim mesmo. Me tenha deixado cair na tentação. Não que alguém tenha feito algo mal, pelo contrário, trabalharam todos leal e talentosamente. Mas quando a minha produtora me mostra os factos crus, um arrepio corre-me pela espinha. Isto é só doçura. Um filme de mulher! Preparo-me para rejeitar o filme como um órgão erradamente transplantado. Mas que queria eu? Com um estado de espírito como ponto de partida, desejei atirar-me de cabeça para o abismo do romantismo alemão. Wagner em grandes quantidades. Isso sei eu. Mas não será uma forma de expressar derrota? Derrota contra o menor denominador cinematográfico comum? O ‘mainstream’ usa e abusa do romantismo das formas mais maçadoras. (...) Agora estou confuso e sinto-me culpado. Que fiz? Será “Saída de Trier?” Agarro-me à esperança que no meio do doce haja afinal um osso onde se possa partir um dente frágil, fecho os olhos e faço figas!
Lars von Trier
Vi o fim do mundo – é indescritivelmente belo e triste. Vi o fim do mundo não à maneira americana com as cidades em colapso e o mar em fúria – Emmerich, t’arrenego! – mas como um canto triste, uma ópera que acordasse Bosch e Breughel, a memória de Marienbad, o horror de uma Natureza que começasse a tresvariar e a violar as suas próprias leis. Então, as raízes das árvores poderiam ser como tentáculos, os dedos captariam fios de electricidade no caminho do céu, os arbustos poderiam ter duas sombras e as pessoas parecer peças num imenso pano de jogo para o qual nós – e Deus – olhássemos com estupefacção e plangência. Então o cinema estaria outra vez três palmos acima do simples ofício de contar histórias e seria um provocador de visões, uma arte plástica que assumisse a sua autonomia sobre os constrangimentos de também ser uma narrativa. Vi o fim do mundo nas sequências iniciais de “Melancolia” [...] e um desfilar de actores de grande renome, passeando um vago reflexo do cinema todo inteiro, de Hollywood a Liliana Cavani, de David Lynch a Fassbinder, que eu sinto por detrás de “Melancolia” como se Trier se entregasse ao prazer do palimpsesto, escrevendo com imagens e corpos roubados. [...] Lars von Trier é um cineasta excessivo, capcioso, que gosta de provocar, que tem uma ideia de beleza sempre com um impulso profanador à mistura. [...] Mas as memória [dos seus filmes] é também a de espantosos maravilhamentos, coisas nunca vistas ou só entrevistas, cruzamento de imaginários, acordes improváveis. [...] Ninguém passa [pelos seus filmes] com indiferença e todos nos deixam uma imagem cravada na memória [...]
Jorge Leitão Ramos, Expresso







