CINECLUBE DE JOANE

Abril 2023
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Sérgio Tréfaut
4 ABR 21h45
de Sérgio Tréfaut
5 ABR 21h45
de Saeed Roustayi
6 ABR 21h45
de Todd Field
13 ABR 21h45
de Michelangelo Frammartino
20 ABR 21h45
de Rainer Werner Fassbinder
27 ABR 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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4 21h45

A NOIVA Sérgio Tréfaut Entrada livre


Jornadas de Juventude - Uma parceria da Confraria das Santas Chagas com a Casa das Artes de Famalicão e o Cineclube de Joane, incluída na programação religiosa e cultural da Semana Santa

Uma adolescente europeia foge de casa para casar com um guerrilheiro do Daesh. Torna-se uma noiva da Jihad. Três anos mais tarde a sua vida mudou dramaticamente. Vive num campo de prisioneiros no Iraque. Agora é mãe de dois filhos e está grávida outra vez. É uma viúva de 20 anos e será brevemente julgada pelos tribunais iraquianos. O que a experiência da guerra e a lavagem cerebral lhe fizeram?

Titulo Original: A Noiva (Portugal, 2022, 79 min)
Realização, Argumento e Produção: Sérgio Trefau
Interpretação: Joana Bernardo , Hugo Bentes, Saman Mustefa , Lola Dueñas , Hussein Hassan Ali
Fotografia: João Ribeiro
Som: Marcelo Lessa
Montagem: Pedro Filipe Marques
Distribuição: Leopardo Filmes
Estreia: 12 de Janeiro de 2023
Classificação: M/12
Estive no Iraque pela primeira vez em 2012, logo após a retirada do exército americano. Uma Guerra civil sangrenta estava a decorrer. Bombas explodiam diariamente, causando milhares de mortos. Naquela época, eu estava tentando preparar um documentário sobre como a teoria de Estado norte-americana segundo a qual uma imprensa independente e eleições livres transformariam o Iraque num país democrático e pacífico era pura hipocrisia. Tive a oportunidade de viajar entre Mossul e Bagdad, mas também no Sul e no Curdistão. O meu projeto de documentário naufragou com o surgimento do ISIS e com a ocupação de Mossul. Pouco depois, o surpreendente número de jovens europeus que se juntaram ao Daesh esteve na origem deste filme. Sérgio Trefaut
Sérgio Tréfaut vai ao Iraque no Festival de Veneza Vasco Câmara, Publico de 26 de Julho de 2022 Uma rapariga, 20 anos, vive num campo de prisioneiros com dois filhos, esperando um terceiro. É uma viúva de um voluntário das forças do Daesh a quem ela se entregou. “O que está na cabeça de uma menina para que isso aconteça?”, perguntou-se Sérgio Tréfaut. A Noiva, que acaba de ser anunciado para a secção Horizontes do Festival de Veneza, é o resultado das relações com o Iraque, desde 2013, do mais globetrotter dos realizadores portugueses.
Acaba de ser anunciado em conferência de imprensa por Alberto Barbera, director do Festival de Veneza, este ano na 79ª edição (de 31 de Agosto a 10 de Setembro): A Noiva, de Sérgio Tréfaut, é um dos 18 títulos da secção alternativa Horizontes, competitiva, com um júri presidido pela realizadora espanhola Isabel Coixet, e dedicada às novas expressões estéticas do cinema.
É para aí que o cineasta português que mais procura o mundo com os seus filmes, seja o Brasil, o Egipto, os territórios do Holocausto ou, no caso de Outro País (2000), o mundo que em Portugal assistia à Revolução, levará o Iraque. Essa pulsão por dar conta do mundo é desde logo assumida como marca de biografia por um cineasta nascido em São Paulo, Brasil, filho de um português e de uma francesa: “Tenho isso dentro de mim, não é estratégia, sou uma mistura de que não posso sair, é essa a minha maneira de viver”.
A Noiva, que começou por ser o projecto de um documentário sobre uma “hipocrisia” americana, a de que imprensa e eleições livres garantiriam a democracia no Iraque, foi progressivamente dando origem ao que é hoje: uma ficção sobre as raparigas, de 16 ou 17 anos, que se entregaram ao destino dos rapazes com uma divisão insanável dentro de si que os transformou em jihadistas.
Tréfaut, 57 anos, esteve por duas vezes no Iraque em 2012, por ocasião da apresentação de filmes seus, e estabeleceu uma relação com o país. O documentário que então começou a preparar resultaria de contactos e conversas com jornalistas iraquianos e procuraria desconstruir uma verdade de Estado dos americanos, que aliás abandonavam o país entregando-o ao caos. Foi então que Mossul caiu nas mãos do Daesh. O projecto ficou impossibilitado. Mas outras possibilidades se abriram ao realizador: a quantidade de jovens europeus, entre os quais portugueses, que se alistavam nas forças do autodenominado Estado islâmico.
Sérgio investigou. “Percebi que, de um lado, havia rapazes de origem africana, com uma questão de identidade por resolver. E que havia, de outro lado, filhos de emigrantes, também com uma questão de identidade, mas diferente, por resolver. Quando finalmente tive de apresentar o argumento ao ICA já Mossul estava no novo com os iraquianos” mas aí Tréfaut estava já agarrado a outra perspectiva, apaixonado pelos destinos das raparigas de 16 ou 17 anos que se tinham entregue como noivas do Daesh. “O que está na cabeça de uma menina para que isso aconteça?”.
A Noiva é, assim, o resultado das circunvoluções da relação do cineasta com um país desde 2013/2014 até hoje. Conta uma das suas histórias: uma rapariga tem agora 20 anos, vive num campo de prisioneiros com dois filhos, esperando um terceiro, é uma viúva de 20 anos que aguarda julgamento nos tribunais iraquianos.
Em 2018 ficou escrita a primeira versão do argumento do que é hoje o filme. A rodagem aconteceu entre Dezembro de 2020 e Fevereiro de 2021, num país com “uma relação absolutamente surrealista com a covid, achava-se que já tinha passado e nem sequer havia vacinação” - as máscaras não se aguentavam por muito tempo nas caras ("mas felizmente correu tudo bem").
A Tréfaut coube também dirigir plateaux no Curdistão iraquiano em que das 50 a 100 pessoas que ali trabalhavam apenas três falavam inglês. “É claro que o facto de ter filmado A Cidade dos Mortos (2009) no Egipto”, sobre a maior necrópole do mundo, em que um milhão de pessoas vive entre tumbas e dentro de mausoléus, preparou-o para isto. Aliás, diz que sempre se deu bem com escrever, produzir e realizar ele próprio os filmes. Os produtores às vezes até complicaram. Mas o problema vem depois: o circuito dos festivais, bater às portas, a estreia do filme. É aí que, para A Noiva, surgiu a Leopardo de Paulo Branco. E Veneza abriu-se.